Em visita ao interior de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) declarou que o agronegócio brasileiro colheu os maiores lucros sob administrações petistas e classificou como “inexplicável” a atual resistência do setor às candidaturas do partido para 2026. Ele citou os quatro Planos Safra elaborados durante sua gestão na Fazenda como provas de estímulo recorde à produção e ressaltou projeções que colocam o Brasil à frente dos Estados Unidos na disputa pelo posto de maior produtor de alimentos do mundo.
Ao mesmo tempo, Haddad voltou a atacar o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a família Bolsonaro pelo apoio ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros, medida que, segundo ele, tirará até US$ 3 bilhões da economia paulista. O petista ainda defendeu a recente alíquota de 20% sobre compras internacionais de pequeno valor e apresentou linhas gerais de um gabinete estadual voltado a combater o crime organizado.
Choque com o agronegócio
Falando a produtores e empresários rurais, Haddad afirmou que “o agro jamais exportou tanto quanto na era petista”, lembrando que, entre 2013 e 2016, os Planos Safra liberaram crédito crescente, com juros subsidiados e seguro rural ampliado. Para o ex-ministro, a combinação de câmbio favorável, abertura de mercados e estímulos internos fez o campo bater sucessivos recordes de produção.
Mesmo assim, observa, parte do segmento mantém distância do PT. “Quem mais lucrou foi exatamente quem hoje mostra desconfiança”, disse, atribuindo a tensão a uma “narrativa ideológica” que desconsidera resultados econômicos. Haddad prevê para este ano a ultrapassagem dos Estados Unidos na produção global de alimentos, argumento usado para reforçar que “não houve revés para o produtor rural” sob Lula e Dilma.
Planos Safra como vitrine
- Liberaram volume crescente de crédito agrícola, com taxas abaixo do mercado.
- Aprimoraram instrumentos de seguro para proteger safras em clima adverso.
- Estimularam modernização de máquinas e sistemas de irrigação.
- Receberam apoio formal de entidades como a CNA e federações estaduais na época.
Tarifa de Trump e prejuízo paulista
Haddad dedicou parte do discurso a criticar o alinhamento de Tarcísio de Freitas, então ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, e dos deputados Eduardo e Flávio Bolsonaro à sobretaxa norte-americana sobre aço, alumínio e produtos manufaturados brasileiros anunciada em 2019. Segundo cálculos da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o estado de São Paulo responde pela maior fatia das vendas atingidas e pode perder até US$ 3 bilhões em negócios.
As regiões de Sorocaba, Campinas, Franca, Birigui, Grande ABC e Vale do Paraíba concentram a indústria mais afetada, lembra o petista. “Enquanto nossos concorrentes comemoravam a barreira, nós trabalhamos para diversificar destinos e abrimos 600 mercados no exterior”, afirmou, em referência a acordos firmados ainda no governo Dilma e retomados recentemente após conversa telefônica entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Negociação reaberta
Na segunda-feira, equipes técnicas dos dois países voltaram à mesa de diálogo com objetivo de rever sobretaxas e ampliar cotas de importação. Haddad sustenta que a mudança de postura confirma que “o isolamento não beneficiou ninguém” e que a diplomacia econômica precisa ser “menos ideológica e mais pragmática”.
Imposto sobre compras de até US$ 50
Questionado sobre a chamada “taxa das blusinhas”, Haddad saiu em defesa da alíquota de 20% aprovada pelo Congresso para compras em sites estrangeiros de até US$ 50. Ele lembrou que o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), de 17%, já vinha sendo recolhido pelos estados – movimento iniciado, segundo ele, pelo próprio governador paulista.

Imagem: Internet
“Os governadores solicitaram que a Receita e os Correios criassem um convênio para operacionalizar a cobrança”, argumentou, ressaltando que a decisão federal foi ratificada pelo Legislativo “por unanimidade”. O petista sustenta que a medida busca evitar concorrência desleal com o varejo nacional e reforçar a arrecadação estadual em momento de queda de receitas.
Reação do comércio eletrônico
Plataformas internacionais criticaram o novo modelo, alegando possível aumento de preço final ao consumidor. Haddad respondeu que a regularização tributária “coloca todos no mesmo patamar” e que eventuais perdas de competitividade devem ser compensadas com redução de custos logísticos e maior eficiência.
Segurança pública no centro do plano de governo
A agenda de Haddad inclui ainda a criação de um gabinete integrado, liderado diretamente pelo governador, para enfrentar facções criminosas que operam dentro e fora dos presídios paulistas. A proposta prevê intercâmbio de informações entre Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Ministério da Justiça, Polícia Civil e Polícia Militar, além de cooperação com o Ministério Público e o Poder Judiciário.
O petista promete investir em tecnologia de monitoramento, inteligência financeira e bloqueio de sinal de celular nos presídios, seguindo experiências bem-sucedidas em outros estados. Para viabilizar a iniciativa, ele menciona a necessidade de contratos de resultado com metas trimestrais e transparência de dados.
Diálogo federativo
Haddad defende que o Palácio dos Bandeirantes atue como articulador de políticas nacionais de segurança, ocupando “protagonismo compatível com o tamanho da economia paulista”. Ele critica o que considera falta de coordenação entre esferas de governo e argumenta que a ascensão do crime organizado “não respeita divisas nem disputas partidárias”.
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