Mensagens apreendidas pela Polícia Federal revelam que o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do extinto Banco Master, recorreu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para tentar conter a Operação Compliance Zero — investigação que avançava sobre suspeitas de fraudes e lavagem de dinheiro no banco. Parte dos diálogos sugere que o magistrado repassava ao banqueiro informações de bastidores sobre diligências da PF e da Procuradoria-Geral da República, a ponto de Vorcaro perguntar se deveria deixar o país dias antes de ser detido.
Os registros examinados pela PF consistem em telas de anotações feitas no bloco de notas do celular, fotografadas e enviadas como mensagem de visualização única no WhatsApp. Embora as conversas originais não tenham sido recuperadas, o conteúdo dos prints mostra pedidos reiterados de Vorcaro para que Moraes “sensibilizasse” o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, a fim de adiar buscas, quebras de sigilo e outras medidas cautelares.
Pressão sobre PF e PGR às vésperas da operação
O primeiro registro obtido é de 30 de outubro de 2025. Naquela data, Vorcaro, já ciente de que o Banco Central, a Polícia Federal e o Ministério Público avaliavam bloqueios contra o Banco Master, insistiu para que Moraes reforçasse junto a Rodrigues e Gonet “a orientação para que ninguém de baixo faça sacanagem”. O banqueiro dizia temer que uma ação repentina pusesse em risco uma pretendida venda do banco a um consórcio que incluía a Fictor Holding e investidores dos Emirados Árabes Unidos.
Os apelos tornaram-se mais incisivos a partir de 4 de novembro. Nessa noite, Vorcaro perguntou se as autoridades preparavam “busca ou quebra de sigilo” e quis saber se haveria alguma forma de “bloquear” a decisão judicial. Ele afirmava que “uma medida agora põe tudo a perder” e avisava que consultaria Moraes antes de qualquer reação jurídica.
“Se Andrei conseguir atrasar…”
A escalada de pedidos culminou em 16 de novembro de 2025, menos de 24 horas antes do início da primeira fase da Operação Compliance Zero. Às 16h57, Vorcaro escreveu: “Se o Andrei conseguir atrasar para outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Para investigadores, a mensagem demonstra que o banqueiro conhecia previamente a data da ação policial.
Nesse mesmo dia, o empresário quis saber se havia “como segurar” as ordens judiciais e pediu a leitura do ministro sobre o cenário dentro da PF. Já no dia anterior, 15 de novembro, havia recorrido a Moraes para saber se o cerco poderia ser “revertido” com a ajuda de Rodrigues e Gonet, classificando a ofensiva das autoridades como “muita sacanagem”.
Discussão de fuga e prisão em jato particular
Em 15 de novembro, o banqueiro consultou Moraes de maneira direta: “Acha que segunda tenho que estar fora?”. Dois dias depois, na noite de 17 de novembro, foi detido em Sorocaba (SP) quando embarcava em um jato particular. O plano era seguir para Malta e, posteriormente, Dubai, onde pretendia concluir a negociação do Banco Master. Para a PF, a tentativa de embarque configurava estratégia de fuga.
Investigadores afirmam que as mensagens sugerem repasse de detalhes “sensíveis” sobre data e horário das diligências. A percepção de que poderia escapar reforçaria essa tese: Vorcaro confiava que, avisado com antecedência, conseguiria afastar-se do Brasil antes de qualquer ordem de prisão.
Orientação sobre estratégia jurídica
Em uma das conversas, o banqueiro menciona seu advogado, Pierpaolo Bottini, e pergunta se valeria protocolar petições preventivas nos “órgãos” para ter acesso a eventuais inquéritos. Vorcaro ressalta que não daria “nenhum passo” sem aval do ministro: “Estamos no escuro. O Paulo só disse que estava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem”.
Ainda nos diálogos, ele se refere a Moraes com tom elogioso: “Seu legado para o Brasil será eterno. Tenho muito orgulho e tenho certeza de que se consolidará como a pessoa mais importante do país. Juntos em tudo”.
Método de comunicação dificultou rastreamento
Para driblar rastreamento, ambos usavam a função de visualização única do WhatsApp: o emissor digitava no bloco de notas, tirava um print e enviava a imagem. Após aberta, a mensagem desaparecia do aplicativo. A PF recuperou apenas as anotações armazenadas nos aparelhos, não o conteúdo de bate-papo.

Imagem: Internet
Apesar disso, o material foi considerado suficiente para indicar tentativa de interferência no trabalho investigativo. A PF concluiu que havia risco concreto de destruição de provas e obstrução da Justiça, argumento usado para fundamentar a prisão preventiva de Vorcaro.
Origem do inquérito
A Operação Compliance Zero foi deflagrada para apurar suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, que, mesmo sob intervenção, continuava captando recursos. Entre as irregularidades, investigam-se desvio de valores de clientes, lavagem de dinheiro e omissão de informações ao Banco Central.
O Ministério Público sustenta que Vorcaro comandava um esquema de manipulação contábil que escondia prejuízos da instituição, funcionando à margem das normas de prevenção à lavagem. A tentativa de vender o banco a estrangeiros, segundo os promotores, seria uma manobra para blindar ativos e escapar de sanções.
Consequências para o ministro
Com a revelação das mensagens, cresce a pressão sobre Alexandre de Moraes para se explicar sobre eventuais contatos fora dos autos com investigados. Embora ministros do Supremo mantenham interlocução com autoridades públicas e privadas, a lei veda qualquer ato que favoreça parte interessada em processo judicial.
Até o momento, Moraes não comentou oficialmente o conteúdo do material. Integrantes do STF ressaltam que, para haver responsabilização, seria preciso comprovar que o ministro efetivamente atuou para obstruir investigações ou vazou informações sigilosas, o que ainda está sob análise da PF e da PGR.
Próximos passos da investigação
Os investigadores pretendem aprofundar perícias em celulares e documentos para rastrear eventuais encontros presenciais entre Moraes, Vorcaro, Rodrigues e Gonet. Há interesse em saber se o banqueiro fez pagamentos ou ofereceu vantagens em troca de proteção institucional.
Também está em curso um cruzamento de dados entre mensagens, planilhas de movimentação financeira e registros de voos privados. A equipe da PF busca identificar se outras autoridades foram acionadas para retardar ou impedir cumprimentos de mandados.
Enquanto isso, Vorcaro permanece preso preventivamente. A defesa insiste na tese de ilegalidade das provas e nega que ele tenha recebido informação privilegiada do ministro. Já o STF, alvo indireto da polêmica, aguarda conclusão da apuração antes de qualquer manifestação pública.