Juros altos esfriam ritmo da economia e travam consumo das famílias no 2º trimestre

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    O Produto Interno Bruto brasileiro registrou alta de 0,5% entre abril e junho deste ano, desempenho que superou levemente a mediana das previsões de mercado (0,4%). Apesar do resultado positivo, as leituras de especialistas convergem para um diagnóstico de desaceleração: o avanço em quatro trimestres recuou para 1,9% e o consumo das famílias — termômetro do cotidiano econômico — encolheu 0,4% ante os três meses anteriores.

    Para analistas ouvidos pelo Metrópoles, a combinação de taxas básicas ainda na casa de dois dígitos, endividamento elevado e redução do impulso fiscal está cobrando seu preço. Enquanto o agronegócio puxou a expansão com crescimento de 2,8% no trimestre, outros motores clássicos da atividade, como investimento e serviços ligados ao varejo, perderam força, reforçando a leitura de que a política monetária restritiva já se infiltra em todos os setores.

    Alta modesta oculta perda de tração

    Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras (Ancord), destaca que a fotografia de curto prazo mostra “uma economia que ainda caminha, mas com o freio de mão puxado”. Segundo ele, o avanço de 1,2% na formação bruta de capital fixo (investimentos) e a robustez do setor agropecuário impedem um resultado pior, mas o recuo do consumo doméstico evidencia a mordida dos juros. “É a parte da demanda mais sensível ao crédito. Quando a Selic permanece elevada, a compra de bens duráveis e o gasto em serviços mais caros perdem ímpeto”, resume.

    Na comparação anual, o PIB subiu 2%, perda de velocidade frente aos 2,5% observados na leitura anterior. Spyer ressalta que essa desaceleração dialoga com a piora de indicadores antecedentes, como a confiança do comércio e a produção industrial de bens de consumo. “Para o investidor, a mensagem é clara: a cena macro pede cautela, porque não há vetor amplo de aceleração à vista”, aponta.

    Setor por setor

    • Agronegócio: avanço de 2,8% na esteira de uma safra recorde de grãos, ainda beneficiada por condições climáticas favoráveis no primeiro semestre.
    • Investimentos: crescimento de 1,2%, concentrado em máquinas importadas pelo setor agrícola e em projetos de concessões de infraestrutura.
    • Serviços: estabilidade, com perdas em comércio varejista compensadas por turismo e tecnologia da informação.
    • Indústria de transformação: variação próxima de zero, refletindo demandas pontuais em fármacos e alimentos processados, mas fraqueza em bens de capital.
    • Consumo das famílias: retração de 0,4%, afetada pelo crédito mais caro, revisões salariais abaixo da inflação e aumento do endividamento.

    Visão dos economistas

    Vitor Kayo, economista da Nomad, afirma que o quadro confirma a leitura de “desaceleração gradual, sem ruptura”. Para ele, a queda no consumo e o arrefecimento do investimento são condizentes com o ciclo longo de juros altos iniciado em 2025. “Ainda que o mercado de trabalho siga mostrando relativa resiliência, a renda disponível real das famílias já não sustenta o mesmo ritmo de compras. As parcelas do carnê pesam mais no bolso”, explica.

    Kayo frisa que, do ponto de vista do Banco Central, o resultado traz alívio: indica que a estratégia de combate à inflação por meio de juros elevados está surtindo efeito sobre a demanda interna. “Isso reforça a possibilidade de cortes graduais na Selic, desde que os próximos dados de preços sigam convergindo para a meta”, avalia.

    Projeções para o ano

    André Valério, chefe de pesquisa macroeconômica do Banco Inter, projeta crescimento de 1,8% para o PIB em 2026, sustentado majoritariamente pelo primeiro semestre. “A tendência é de variações modestas nos próximos dois trimestres. O agronegócio deve deixar de contribuir positivamente após o pico da colheita e há o risco de impacto negativo do fenômeno El Niño sobre algumas culturas”, afirma.

    Segundo o economista, o cenário externo acrescenta cautela: o Federal Reserve ainda não sinalizou cortes de juros nos Estados Unidos, o que pressiona o câmbio e pode inibir importações de maquinário crucial para a indústria. “Se o real permanece mais fraco e o custo financeiro interno alto, a decisão de investir adia-se. Isso repercute diretamente nos dados de PIB futuros”, complementa.

    Juros altos esfriam ritmo da economia e travam consumo das famílias no 2º trimestre - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Política monetária em foco

    Com a atividade perdendo embalo, o Comitê de Política Monetária (Copom) entra na próxima reunião sob expectativas redobradas. Analistas calculam que um corte de 0,50 ponto percentual na Selic — atualmente em 10,50% ao ano — já está precificado, mas o ritmo posterior dependerá dos relatórios de inflação e emprego de agosto e setembro.

    Spyer lembra que a ociosidade gerada pela perda de fôlego no consumo tende a reduzir pressões sobre os preços de serviços, componente mais rígido do índice de inflação. “Se essa dinâmica se confirmar, o BC pode acelerar a distensão monetária no último bimestre, talvez levando a taxa básica a um dígito antes de 2027”, projeta.

    Efeitos no mercado financeiro

    No pregão desta terça-feira, o índice B3 reagiu de forma comedida ao dado do IBGE. A curva de juros futuros apontou leve queda nas pontas curtas, refletindo a leitura de que o Copom ganhará espaço para cortes. Já o dólar permaneceu próximo de R$ 5,05, sustentado pelo exterior volátil.

    Para o investidor, argumenta Valério, o ambiente combina dois vetores: rentabilidade ainda atraente nos ativos de renda fixa atrelados à Selic e possibilidade de valorização seletiva em ações ligadas a consumo, caso a redução de juros avance. “Bancos, varejistas e construtoras tendem a reagir primeiro quando a credibilidade do alívio monetário se consolida”, diz.

    Próximos indicadores a acompanhar

    1. IPCA de agosto: sai em 9 de setembro e mostrará se o recuo no preço dos combustíveis mantém a tendência de desinflação.
    2. PNAD Contínua de julho: revelará a dinâmica do emprego formal e informal, crucial para medir a capacidade de consumo.
    3. Produção industrial de julho: indicará se o setor transforma a leve alta de junho em tendência ou retorna ao terreno negativo.
    4. Balança comercial de agosto: ajudará a avaliar se o agronegócio seguirá como âncora do crescimento no segundo semestre.

    Somados, esses dados servirão de termômetro para o Copom e para calibrar as projeções de crescimento do terceiro trimestre. Caso confirmem continuidade da perda de fôlego, a palavra-chave da temporada econômica seguirá sendo “juros”— até que cortes consistentes se convertam em impulso real à demanda interna.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.