Em menos de dois anos, o governo de Sergipe empenhou mais de R$ 70 milhões a uma única empresa, a G3 Empreendimento, cujo controle passou a ser exercido em 2024 por Fernanda Fontes Santana, filha do ex-deputado estadual Manuel Marcos (PSD), aliado direto do governador Fábio Mitidieri (PSD). Parte dos valores foi autorizada em caráter emergencial, sem licitação, pela Casa Civil — à época comandada por Jorginho Araújo, correligionário que se licenciara do mandato justamente para ocupar o cargo.
Os contratos incluem terceirização de mão de obra, locação de equipamentos e fornecimento de serviços diversos a seis secretarias e a quatro fundações estaduais, numa escalada que teve início com um acordo emergencial de R$ 5,3 milhões em abril de 2024 e culminou num pregão eletrônico de R$ 54 milhões no ano seguinte. A proximidade familiar e partidária entre os signatários acendeu alerta em órgãos de controle e na oposição, que prometem requisitar detalhes técnicos sobre a habilitação da companhia.
Como a G3 virou fornecedora prioritária
Do atacado de carnes aos contratos de governo
Fundada como distribuidora de frios, carnes e frangos congelados, a G3 Empreendimento operava com capital social modesto até dezembro de 2023, quando Fernanda Fontes Santana adquiriu 50% das cotas. Quatro meses depois ela se tornou sócia única, coincidindo com a ampliação do objeto social da firma para um portfólio que vai de engenharia, terraplanagem e locação de móveis a monitoramento eletrônico e gestão de pessoal.
A mudança societária ocorreu em meio à substituição de cadeiras na Assembleia Legislativa. Jorginho Araújo deixou o mandato para assumir a Casa Civil, abrindo vaga para Manuel Marcos, pai da nova proprietária. Pouco depois, já sob a direção de Fernanda, a G3 foi chamada — sem disputa pública — para fornecer mão de obra terceirizada ao próprio gabinete comandado por Araújo. O processo, classificado como “emergencial”, dispensou a etapa concorrencial prevista na Lei de Licitações.
Contratação emergencial abre precedente
O contrato de R$ 5,3 milhões firmado em abril de 2024 previa fornecimento de serviços de apoio administrativo, recepção, condução de veículos e manutenção predial para a Casa Civil durante 180 dias. Segundo o governo, a dispensa de licitação amparou-se na “necessidade de continuidade dos serviços”, tese que costuma ser invocada quando contratações anteriores estão vencendo ou foram rescindidas.
Para especialistas consultados por órgãos de controle, esse tipo de argumento exige comprovação de que não haveria tempo hábil para um pregão, o que nem sempre é demonstrado. “A lei autoriza hipóteses específicas de dispensa, mas exige motivação robusta e temporária”, observa o procurador estadual aposentado Jorge Teixeira, lembrando que contratações recorrentes de pessoal terceirizado dificilmente se caracterizam como imprevisíveis.
Pregão de R$ 54 milhões consolida parceria
Em 2025, já sem a justificativa de urgência, a mesma Casa Civil abriu pregão eletrônico para contratar mão de obra terceirizada por cinco anos. A G3 venceu a disputa com proposta global de R$ 54 milhões — valor quase dez vezes superior ao seu primeiro contrato com o Estado. O edital previa fornecimento de 600 postos de trabalho, além de equipamentos e insumos para secretarias de Governo, Comunicação, Desenvolvimento Econômico, Cultura, Juventude e para o escritório de representação de Sergipe em Brasília.
Dados do Portal da Transparência mostram que a companhia faturou ainda, no mesmo período, R$ 9,6 milhões da Fundação Renascer (responsável por medidas socioeducativas), R$ 3,5 milhões da Fundação Sergipana de Comunicação, R$ 2 milhões da Fundação de Cultura e Arte Aperipê e R$ 1,5 milhão da Agência de Desenvolvimento de Sergipe. Somados, esses contratos fazem a cifra ultrapassar R$ 70 milhões.
Relações políticas em xeque
Pai deputou, filha empresária
Manuel Marcos assumiu como suplente em fevereiro de 2024, logo após a posse de Jorginho Araújo na Casa Civil. Em suas redes sociais, Araújo publicou foto abraçando o colega de partido, chamando-o de “meu amigo”. Embora o ex-deputado afirme não ter proximidade especial com o ex-secretário, a sucessão de eventos — saída de Araújo, entrada de Marcos e contratação da empresa da filha — alimentou suspeitas de favorecimento.
Questionado sobre eventual interferência na escolha da G3, Manuel Marcos desconversou: “Todos envolvidos são maiores de idade”, limitou-se a dizer. Ele também negou ter relações comerciais com a firma e ressaltou que o vínculo familiar não impede a participação da filha em licitações públicas.
A força do PSD em Aracaju e no Estado
Filiados ao PSD, Mitidieri, Araújo e Marcos integram o mesmo grupo político que governa Sergipe desde 2023. A legenda controla secretarias estratégicas e manteve maioria na Assembleia ao longo da atual legislatura. Esse contexto reforça a percepção de que a G3, agora capitaneada por Fernanda, encontrou terreno fértil para expandir sua carteira de órgãos públicos.

Imagem: Internet
Além do pai, Fernanda é casada com Ygor Menezes Santana, servidor comissionado desde 2022 na Superintendência de Relações Institucionais da Câmara Municipal de Aracaju — esfera onde o PSD também detém protagonismo. Embora não haja vínculo direto entre a Câmara e os contratos estaduais, opositores sustentam que a rede de contatos políticos cria ambiente propício a trocas de favores.
Posicionamento dos envolvidos
Governo defende regularidade
Em nota enviada à reportagem, o governo de Sergipe afirma que “todas as contratações seguiram rigorosamente a legislação aplicável, inclusive a Lei 14.133/21”, e que os processos “respeitaram os princípios da legalidade, transparência e publicidade”. Sobre o contrato emergencial, o Palácio dos Despachos sustenta que havia “risco de descontinuidade de serviços essenciais”, razão pela qual optou-se pela dispensa de licitação.
A controladoria-geral do Estado informou ter acompanhado os atos e não identificado irregularidades formais. Mesmo assim, conselheiros do Tribunal de Contas de Sergipe avaliam solicitar auditoria especial para examinar a compatibilidade entre a capacitação técnica da G3 e o volume de serviços contratados.
Empresa alega capacidade financeira e técnica
Procurada, a G3 declarou que pratica “preços em consonância com o mercado” e possui “capacidade técnica, financeira e estrutural” para honrar todos os compromissos. A companhia acrescentou que mantém contratos com a iniciativa privada e com outros entes públicos fora de Sergipe, sem detalhar valores.
“Executamos atividades diversas por meio de equipes multidisciplinares, garantindo o cumprimento das normas trabalhistas e a qualidade exigida pelos editais”, disse a empresa, por meio de nota assinada pela sócia Fernanda Fontaine Santana — que preferiu não conceder entrevista.
Silêncio e divergências
O ex-secretário Jorginho Araújo não retornou pedidos de comentário. Já o governador Fábio Mitidieri afirmou, em evento público, que “não há nada de ilegal em empresas de parentes de políticos participarem de licitações, desde que sigam as regras”. Ele prometeu encaminhar ao Ministério Público toda a documentação, “para afastar qualquer sombra de dúvida”.
Integrantes da bancada de oposição anunciaram que vão requerer informações detalhadas sobre a execução dos contratos, incluindo quadro de funcionários, notas fiscais e comprovação de entrega de equipamentos. Caso encontrem indícios de direcionamento ou sobrepreço, pretendem acionar o Ministério Público Estadual e o Tribunal de Contas da União, já que parte dos recursos pode ter origem em transferências federais.
Próximos passos
Enquanto aguardam eventuais desdobramentos de investigações, servidores terceirizados já atuam em secretarias e fundações sergipanas sob o chapéu da G3. O contrato de R$ 54 milhões prevê vigência até 2030, com possibilidade de realinhamento de preços a cada 12 meses. Só esse ajuste, segundo analistas, pode elevar o custo final em dezenas de milhões.
Se confirmada a regularidade, o caso pode se tornar apenas mais um exemplo de como relações partidárias aceleram negócios públicos no país. Caso contrário, poderá figurar na lista de investigações sobre uso do aparato estatal para favorecer grupos próximos ao poder.
