Sem receber salários há meio ano, os jogadores profissionais da Ponte Preta cruzaram os braços e comunicaram que só voltam a treinar quando a dívida for quitada. Para não ser derrotado por W.O. diante do América-MG, domingo (30), em Belo Horizonte, o clube inscreveu às pressas atletas das categorias de base.
A paralisação, oficializada na quarta-feira (26), escancara a crise financeira que se arrasta nos corredores do Moisés Lucarelli. Além de salários, o elenco alega abandono por parte da direção e diz ter esperado “semanas e até meses” antes de optar pela greve.
Greve declarada e sentimento de abandono
Em nota enviada à diretoria e à imprensa, os atletas afirmam que tomaram a decisão depois de esgotar todas as tentativas de diálogo. No texto, eles citam “descaso” da administração e classificam a postura dos dirigentes como “desrespeitosa”. O grupo descreve ainda um “sentimento de abandono” e promete manter a suspensão das atividades até que os pagamentos atrasados sejam regularizados.
A interrupção total das atividades coloca o clube campineiro em situação delicada no Campeonato Brasileiro da Série B. O regulamento prevê derrota automática por ausência de equipe em campo, e a Ponte, já afundada na tabela, não pode se dar ao luxo de perder mais pontos. Por isso, garotos das divisões inferiores foram promovidos às pressas para formar um time emergencial.
Reforços caseiros para encarar o América-MG
Os escolhidos da base viajarão a Belo Horizonte com a missão de representar o clube no Independência. A opção, segundo a diretoria interina de futebol, é a única forma de evitar a punição esportiva. Embora não tenha revelado a lista completa, o clube confirmou que o grupo juvenil compõe boa parte da delegação.
O uso maciço de jovens divide opiniões internas. Alguns dirigentes enxergam oportunidade de vitrine aos garotos; outros temem que uma eventual goleada acabe queimando etapas do desenvolvimento. Dentro do vestiário improvisado, o discurso é de orgulho e responsabilidade: os adolescentes sabem que carregam não apenas a camisa alvinegra, mas também uma crise que extrapola a idade deles.
Mudança no comando técnico
Saída de Márcio Zanardi
No mesmo dia em que o elenco confirmou a greve, o técnico Márcio Zanardi pediu demissão. A relação do treinador com a diretoria já estava estremecida diante da sucessão de resultados ruins — a equipe não vence há 18 partidas.
Retorno de Gilson Kleina
Para tentar conter o incêndio, o presidente convocou Gilson Kleina, anunciado na sexta-feira (28) para sua sexta passagem pela Ponte. Ao assumir, o treinador foi direto: “É o meu maior desafio como técnico. Vim cuidar do futebol e mostrar aos atletas o que significa terminar a temporada de forma digna”.

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Kleina reconheceu as limitações de trabalhar apenas com jovens. “Mesclar juventude com experiência ajuda demais; só juventude, você ganha de um lado e perde de outro”, afirmou. Ele espera convencer o elenco profissional a voltar, mas, enquanto isso não acontece, montará o time com o que tem.
Sequência negativa e pressão na tabela
A Ponte Preta soma apenas 10 pontos em 24 rodadas e amarga jejum de 18 jogos. A torcida, acostumada a ver a equipe brigar na parte de cima, agora convive com a ameaça real de rebaixamento à Série C. Cada rodada sem pontuar aumenta a diferença para os concorrentes diretos, e o risco de repetir o W.O. em partidas futuras não está descartado caso a folha salarial continue pendente.
Nesse cenário, a volta dos profissionais é crucial não só para o desempenho esportivo, mas também para preservar o patrimônio do clube: jovens expostos precocemente correm o risco de perder confiança em caso de derrotas acachapantes, e a instituição pode desperdiçar talentos que deveriam ganhar minutagem de forma graduada.
Próximos passos e negociações internas
Integrantes do conselho deliberativo tentam intermediar conversas entre diretoria e elenco. A prioridade é levantar recursos emergenciais que quitem ao menos parte dos vencimentos e destravem a volta aos treinos. Entretanto, nenhuma proposta concreta foi apresentada até o momento.
No curto prazo, o que se sabe é que a Ponte viajará a Belo Horizonte com um grupo majoritariamente sub-20. Se a greve persistir, o mesmo expediente poderá ser repetido nas rodadas seguintes. O efeito cascata — financeira, técnica e emocional — já é sentido no cotidiano do clube, que vê seu futuro na Série B cada vez mais ameaçado.
