Evangélicos do Rio expõem fadiga com a polarização e querem respostas para violência e serviços públicos

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    O avanço evangélico na Região Metropolitana do Rio alterou o equilíbrio religioso — e, por tabela, o comportamento eleitoral — de boa parte dos 22 municípios fluminenses. No segundo capítulo da série “Voto Pendular”, do Jornal da Globo, pesquisadores percorreram bairros da capital e da Baixada Fluminense para entender por que parte desse eleitorado, decisivo em 2018 e 2022, agora demonstra desconforto com a guerra de narrativas que domina a política nacional.

    Nas conversas, a fé apareceu como referência identitária, mas não como senha automática para o voto. Segurança pública, acesso a saúde, emprego e o custo de vida formam o pacote de exigências dirigidas aos postulantes de 2026. A reclamação recorrente é o excesso de ataques pessoais e a falta de planos detalhados para problemas do cotidiano.

    Violência na Penha empurra fé para o debate político

    Ponto de partida da reportagem, o bairro da Penha, na Zona Norte, vive cercado pelos complexos do Alemão e da própria Penha, onde tiroteios e operações policiais fazem parte da rotina. Ali nasceu o “Cachorro-Crente”, lanchonete temática que virou ponto de encontro de fiéis e vizinhos. Entre um louvor no som ambiente e um versículo grafitado na parede, os sócios Leandro Lima, Rodrigo Vituriano e Marcos Hiraguch relatam que o cliente chega em busca de sanduíche, mas rapidamente o assunto desliza para segurança pública.

    Marcos, morador da região, descreve a sensação de viver “com o barulho das balas” e afirma que candidatos que propõem saídas para a violência ainda são raros. A mudança, diz ele, passa pela participação do evangélico na arena política: “Antes não se misturava igreja e eleição. Hoje todo mundo opina e defende seu voto”.

    Família como filtro de candidatos

    Embora diversidade doutrinária defina o mundo evangélico, o discurso em favor da família segue como critério potente de escolha nas urnas. Pais e avós citam, por exemplo, debates sobre identidade de gênero nas escolas como sinal de alerta. O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, observa que segurança e defesa de valores morais caminham juntos nesse segmento: “Isso não era tão forte há 15 anos; agora aparece como marca identitária”.

    Nem todos, porém, colocam a fé no topo da lista. Erika Oliveira, auxiliar de cozinha da mesma lanchonete, mira primeiro saúde, educação e programas sociais. Mãe solo, ela diz depender do Bolsa Família para complementar renda e lembra que “empreendedor até se vira, mas a maioria da população conta com o governo”.

    Baixada Fluminense registra virada demográfica

    Se na capital os católicos ainda formam a maior fatia, em cidades como Nova Iguaçu os evangélicos já lideram. O município, segundo maior colégio eleitoral da região, ilustra outra guinada: em 2022, o apoio a Jair Bolsonaro encolheu em relação a 2018. Para Nunes, o dado mostra fissuras internas num grupo tratado muitas vezes como monolítico.

    No bairro Parque Flora, uma congregação da Assembleia de Deus serve tanto de espaço de culto quanto de rede de assistência. A pastora Lenêa de Oliveira Rosa enumera queixas recorrentes entre os fiéis: fila para cirurgias, falta de vagas de emprego para jovens e transporte precário. Ela diz pesquisar perfis de candidatos e recusa o “voto de influência”. O que mais desagrada, afirma, é “político que só sabe atacar o outro e não diz o que vai fazer”.

    Cansaço com a polarização

    A observação de Lenêa bate com números levantados pela Quaest: 32 % do eleitorado brasileiro é classificado como “independente”, ou seja, muda de preferência de um pleito para outro. Após dois ciclos marcados por clima de Fla-Flu, parte dessas pessoas desacelera o engajamento quando percebe que o debate virou troca de ofensas. Nunes resume: “Rejeição continua pesando, mas cresce a procura por solução concreta”.

    Na prática, isso significa que promessas genéricas perderam apelo. Moradores querem ouvir planos detalhados sobre policiamento comunitário, ampliação de clínicas da família, investimento em educação integral e linhas de crédito para pequenos negócios. A simples identificação com “direita” ou “esquerda” já não garante fidelidade.

    Dentro dos templos, pluralidade e tensão

    O pastor batista Alex Azevedo confirma que discussões políticas atravessam os corredores da igreja, mesmo em denominações que historicamente defendem a separação entre púlpito e Estado. Ele brinca que “quatro pastores batistas rendem pelo menos seis opiniões diferentes” e admite choques internos nas últimas disputas presidenciais. A saída, defende, é cultivar tolerância e impedir que o partidarismo destrua vínculos comunitários.

    A pluralidade se estende ao comportamento eleitoral. Na transição dos anos 2000, evangélicos foram base importante para eleger Luiz Inácio Lula da Silva. A inflexão para a direita começou em 2014 e se consolidou em 2018, quando o grupo tornou-se pilar do bolsonarismo. Agora, sondagens indicam novos “rachas”, cenário que a série pretende acompanhar em Belo Horizonte e Salvador nos próximos episódios.

    Um eleitorado em movimento

    Os trajetos por Penha e Nova Iguaçu reforçam que o rótulo “voto evangélico” esconde um espectro de motivações. Enquanto alguns eleitores vinculam escolhas a valores religiosos, outros priorizam políticas públicas tangíveis. O denominador comum, por ora, é o desejo de debates menos inflamados e mais pragmáticos.

    Com o calendário de 2026 ainda distante, partidos e candidaturas que almejam conquistar esse contingente terão de combinar discurso firme sobre segurança e família com propostas robustas em saúde, educação e geração de renda. Do contrário, arriscam ver o “voto pendular” balançar de novo.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.