Uma sequência de assaltos dentro de composições e plataformas do sistema ferroviário metropolitano do Rio de Janeiro, operado desde junho pela TrensRJ, tem espalhado medo entre os cerca de 350 mil usuários diários. Apesar de a Polícia Militar confirmar “apenas” cinco ocorrências formais de roubo ou furto na estação Duque de Caxias entre julho e agosto, passageiros relatam episódios quase diários de agressão e subtração de pertences nas últimas semanas, sobretudo no fim da noite.
O caso mais violento até agora envolveu uma mulher atacada em 5 de agosto, por volta das 21h, dentro de um trem do ramal Gramacho. Sozinha em um vagão praticamente vazio, ela foi cercada por seis jovens – a maioria aparentando ser menor de idade – que exigiram o celular. Ao tentar recuperar o aparelho, a vítima levou coronhadas e viu o sinal do telefone desaparecer horas depois no Complexo da Maré. A brutalidade expôs a vulnerabilidade de passageiros justamente no horário identificado pela concessionária como o mais crítico: entre 19h e 23h.
Casos recentes: agressões, armas aparentes e atuação em grupo
A reportagem ouviu usuários que circulam diariamente entre Duque de Caxias, São Cristóvão e Central do Brasil e mapeou ao menos quatro assaltos entre as noites de quarta (12) e sexta-feira (14) da semana passada. Em um deles, um homem levou coronhadas ao se recusar a entregar a mochila quando o trem passava por São Cristóvão, sentido Centro. Testemunhas dizem que as investidas também ocorrem na volta para casa, no sentido oposto, quando os vagões costumam estar mais vazios.
Nas narrativas reunidas, chama atenção o padrão de abordagens com turmas de quatro a seis assaltantes, quase sempre jovens. Eles entram no último ou penúltimo carro, escolhem alvos isolados e exibem o que parecem ser armas de fogo ou réplicas. Se houver reação, a violência física aumenta. Quando o trem chega à estação seguinte, os criminosos descem e se dispersam antes mesmo de as portas fecharem novamente.
Vagões vazios potencializam o risco
A vítima de 5 de agosto observou que havia homens em outros vagões, mas o grupo a escolheu por estar sozinha. Especialistas em segurança apontam que a fragmentação de público nos diferentes carros, somada à ausência de agentes uniformizados dentro das composições, cria um ambiente propício para roubos rápidos – o chamado “flash robbery”.
Mapeamento aponta horários e estações mais vulneráveis
A TrensRJ, que assumiu a operação dos oito ramais há pouco mais de dois meses, diz ter montado um banco de dados com todas as queixas recebidas. O levantamento indica concentração de crimes entre 19h e 23h, faixa em que vários funcionários encerram o expediente e estudantes retornam de universidades. Entre as estações com maior reincidência aparecem Sampaio, São Francisco Xavier, Riachuelo, Engenho Novo e Silva Freire, além de Duque de Caxias, que desponta como ponto crítico na Baixada Fluminense.
De acordo com a concessionária, há três modalidades predominantes de atuação criminosa: furtos-relâmpago enquanto as portas estão abertas; roubos dentro do vagão, muitas vezes com ameaça armada; e ações em grupo, quando mais de três pessoas intimidam as vítimas simultaneamente. O cruzamento dessas informações é encaminhado semanalmente ao Grupamento de Policiamento Ferroviário (GPFer), da Polícia Militar.
Resposta da Polícia Militar
A corporação nega ocorrência de arrastões – quando vários passageiros são roubados ao mesmo tempo – e contabiliza cinco registros de roubo ou furto somente em Duque de Caxias nos últimos dois meses. Segundo nota enviada pela PM, o GPFer realiza diariamente as operações “Vagão Feminino” e “Parada Programada”, focadas em patrulhamento ostensivo e revista preventiva dentro do sistema.

Imagem: Internet
Como medida imediata, o comando anunciou reforço de efetivo em Duque de Caxias e manutenção de patrulhas em São Cristóvão de segunda a sexta-feira, das 18h às 23h, faixa coincidente com o pico de ocorrências apontado pela TrensRJ. Além disso, operações surpresas sem horário previamente divulgado devem se espalhar por outros trechos estratégicos.
Limites da atuação policial
Especialistas em transporte lembram que a extensão das linhas – mais de 270 quilômetros – e a múltipla distribuição de estações dificultam cobrir todos os pontos vulneráveis. Outro entrave é a escassez de câmeras de alta definição dentro dos vagões mais antigos, o que compromete a identificação posterior dos assaltantes.
TrensRJ: sem poder de polícia, mas com obrigação de apoiar
Procurada, a concessionária destaca que seus agentes de segurança não têm autorização legal para atuar como polícia nem portar arma de fogo. A eles cabe monitorar câmeras, prestar auxílio às vítimas e acionar imediatamente as forças públicas. Funcionários receberam orientação para recomendar que passageiros não reajam e priorizem a própria integridade física.
Ao todo, mais de 350 mil usuários utilizam os trens urbanos diariamente. Diante dos últimos relatos, a empresa afirma ter intensificado o diálogo com a PM e compartilhado “relatórios granulares” que detalham horário, local e modo de execução de cada delito. A expectativa da TrensRJ é que o uso desses dados ajude a redirecionar equipes de patrulhamento para pontos de maior risco.
Como denunciar
- Em caso de roubo, a concessionária orienta procurar imediatamente um funcionário da estação para acionar as equipes de segurança.
- A vítima deve registrar boletim de ocorrência em delegacia da Polícia Civil, procedimento indispensável para investigações e estatísticas oficiais.
- Informar horário exato, descrição dos suspeitos e possíveis imagens de celular acelera o trabalho de inteligência do GPFer.
Enquanto não chegam resultados palpáveis, trabalhadores e estudantes seguem reféns da sensação de insegurança. A cada noite, muitos optam por vagões mais cheios ou alteram rotas e horários na tentativa de driblar a violência que insiste em viajar sobre trilhos no Rio de Janeiro.
