A Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que três inquéritos que miram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, sejam remetidos à primeira instância. O órgão afirma que nenhum dos fatos investigados guarda relação direta com o mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva e, portanto, não justificaria a manutenção dos processos no STF, corte que só julga autoridades com foro especial.
As apurações ganharam fôlego depois que, num caso de descontos indevidos do INSS — do qual Lulinha não é acusado —, a Polícia Federal apreendeu o celular da empresária Roberta Luchsinger, próxima do filho do presidente. De acordo com os investigadores, mensagens e documentos encontrados no aparelho indicam possível tráfico de influência por parte de Lulinha e revelam pagamentos feitos por Roberta ao então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.
O fio que levou a três investigações
Tudo começou na operação que apura um esquema de descontos irregulares em benefícios do INSS. Durante cumprimento de mandados, a PF recolheu o telefone de Roberta Luchsinger por identificá-la como elo entre suspeitos do esquema. Nas conversas, apareceram referências aos supostos serviços prestados por Marcola dentro do Palácio do Planalto e a possibilidade de Lulinha intermediar demandas empresariais junto ao governo federal.
Com esse material, a PF abriu três frentes de apuração:
- Tráfico de influência – se Lulinha teria usado a proximidade com o pai para favorecer interesses privados;
- Corrupção passiva e ativa – envolvendo repasses de Roberta Luchsinger a Marcola, que ocupava cargo de confiança na Presidência até julho;
- Lavagem de dinheiro – para verificar a origem e o destino dos valores movimentados.
Por que a PGR quer saída do Supremo
Ao defender o deslocamento dos inquéritos, a PGR argumenta que nem Lulinha nem Marcola exercem hoje cargos que concedam foro privilegiado. A Constituição reserva o julgamento no STF a autoridades no exercício de determinadas funções — categoria na qual os investigados não se enquadram. A troca de instância, segundo o Ministério Público, daria celeridade ao caso e evitaria questionamentos futuros sobre competência.
Caberá ao ministro André Mendonça decidir se acolhe ou rejeita o pedido. Caso confirme o entendimento da PGR, o processo seguirá para um juiz federal de primeira instância, provavelmente em Brasília, onde ocorreram os atos sob suspeita.
O papel de Marcola
Marco Aurélio Santana Ribeiro era o chefe de gabinete de Lula até julho. Nas conversas obtidas pela PF, ele aparece recebendo da empresária uma minuta de contrato para venda de produtos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. Os investigadores apontam a existência de depósitos feitos por Roberta em contas ligadas a Marcola.
Procurado em depoimento preliminar, o ex-assessor alegou que se trataria de um “empréstimo” pessoal sem vínculo com suas funções no Planalto. A PF, contudo, vê indícios de que os pagamentos possam ter sido contrapartida por facilitação de agendas ou intermediação de contratos públicos.
Impacto político
Nos bastidores do Planalto, auxiliares de Lula demonstram preocupação com o desgaste que o caso possa trazer à campanha de reeleição marcada para o ano que vem. O presidente determinou que todos os envolvidos colaborem rapidamente com as autoridades e que o Palácio forneça documentos solicitados. Ao mesmo tempo, aliados defendem que a investigação seja conduzida fora do alcance do Supremo para reduzir a visibilidade política do caso.
A possível acusação de tráfico de influência contra o filho do presidente ecoa episódios anteriores que afetaram outras gestões. Embora Lulinha não ocupe cargo público, a relação de proximidade com Lula coloca cada movimentação sob holofotes, sobretudo em ano pré-eleitoral.
Próximos passos na Justiça
Se o ministro Mendonça acolher a manifestação da PGR, um juiz de primeiro grau herdará não apenas os autos, mas também eventuais pedidos de novas diligências: quebras de sigilo, perícias nos aparelhos eletrônicos e convocações de testemunhas. A defesa de Lulinha já sinalizou que poderá pedir acesso integral aos arquivos periciados, alegando direito ao contraditório.

Imagem: Internet
No cenário oposto, caso o STF mantenha a investigação na Corte, o ritmo dependerá da própria polícia e da Procuradoria. Em qualquer um dos casos, concluída a fase de inquérito, o Ministério Público decidirá se apresenta denúncia ou arquiva os fatos.
O que dizem os envolvidos
- Lulinha – nega ter participado de qualquer intermediação e sustenta que não recebeu valores ou vantagens indevidas.
- Marcola – afirma que o dinheiro transferido por Roberta Luchsinger corresponde a um empréstimo particular, sem vínculo com decisões de governo.
- Roberta Luchsinger – não comenta o mérito, mas, em manifestação à PF, declarou que mantém “relações pessoais” tanto com Lulinha quanto com Marcola.
Nenhuma acusação formal foi apresentada até o momento. O inquérito ainda está na fase de coleta de provas.
Repercussão no Congresso e no Planalto
Parlamentares da oposição protocolaram requerimentos para que Lulinha e Marcola prestem esclarecimentos em comissões da Câmara. O governo tenta barrar as convocações, alegando que a matéria tramita no Judiciário e que um comparecimento público poderia violar o direito de defesa.
Dentro do PT, há receio de que a abertura de frentes parlamentares transforme o caso em palanque contra o presidente às vésperas do ano eleitoral. Já siglas de centro avaliam adotar postura de observação, calculando eventuais ganhos ou prejuízos políticos.
Calendário apertado
O relógio eleitoral pressiona todas as partes. Se a investigação for mantida no Supremo, onde o trâmite costuma ser mais lento, a oposição pode usar o inquérito como munição prolongada. Na primeira instância, por outro lado, decisões cautelares — como busca e apreensão ou prisões temporárias — podem ocorrer com maior rapidez, gerando novos fatos políticos.
Independentemente do foro, o caso tende a permanecer no centro do noticiário. A defesa de Lulinha trabalha para acelerar depoimentos e sustenta que o envio à primeira instância aumentará a transparência, pois elimina dúvidas sobre privilégios processuais.
O que está em jogo
O desfecho dos três inquéritos pode afetar não apenas o entorno pessoal do presidente, mas também a narrativa montada para a campanha de 2026. A equipe de comunicação do Palácio avalia estratégias para separar a figura de Lula dos atos atribuídos ao filho e ao ex-assessor, ressaltando que o próprio presidente pediu “investigação total” e “sem vazamentos seletivos”.
A PGR, por sua vez, quer evitar que discussões sobre foro desviem o foco do mérito. A expectativa no órgão é que a definição de competência ocorra nas próximas semanas, destravando coleta de provas pendentes e dando rumo mais claro ao processo.
Até lá, o futuro político de Lulinha e a permanência de Marcola no círculo do poder — ainda que fora de cargo público — ficam dependentes da velocidade com que Justiça e Polícia Federal avancem sobre os indícios extraídos do celular de Roberta Luchsinger.
