Uberaba acumula, de 2015 a 2025, o maior número de moradores impactados por desastres naturais em Minas Gerais: 339 mil pessoas. O dado consta de levantamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) baseado no Atlas Digital de Desastres no Brasil. A estiagem responde por 99% dessa estatística, expondo a dependência do município do rio Uberaba para o abastecimento de água.
O quadro coloca a cidade à frente de Januária (284 mil afetados) e Minas Novas (183 mil) na última década. A vulnerabilidade se torna ainda mais evidente quando se observa que, além da seca, Uberaba registrou apenas episódios pontuais de chuvas intensas, enxurradas, incêndio florestal e onda de calor.
Década marcada pela estiagem
Dos 339,9 mil moradores alcançados por eventos climáticos, 337,8 mil sofreram diretamente com a falta de chuva. Entre 2015 e 2025, a cidade acumulou:
- 8 ocorrências oficiais de estiagem ou seca;
- 2 registros de chuvas intensas;
- 6 enxurradas;
- 1 incêndio florestal;
- 1 onda de calor acompanhada de umidade crítica.
A série histórica ajuda a explicar os picos. Em 2015, um veranico prolongado reduziu em até 50% a produção agrícola regional, obrigando a prefeitura a decretar emergência. Entre maio e setembro de 2024, a estiagem voltou a castigar: foram cinco meses com precipitações insignificantes, queda de vazão do rio Uberaba e novo decreto de calamidade hídrica. O cenário se repetiu em 2025.
Dependência do rio único compromete abastecimento
Vulnerabilidade estrutural
Para o geógrafo William Borges, a raiz do problema não está apenas no clima. “A cidade concentra quase todo o sistema de captação no rio Uberaba. Quando ele entra em estresse hídrico, não há margem de manobra”, afirma. O especialista lembra que mesmo o retorno das chuvas não restaura de imediato os mananciais; é preciso tempo para recompor lençóis freáticos e vazões.
Propostas de diversificação
Borges defende a construção de um sistema complementar no rio Grande, curso d’água de maior porte, seguindo exemplos de cidades vizinhas. Uberlândia, por exemplo, opera três pontos de captação — Bom Jardim, Uberabinha e Sucupira — e, por isso, dispõe de maior segurança hídrica para um território com população equivalente.
Sinais recentes de alívio e mobilizações emergenciais
Vazão acima do crítico em 2026
Em 2026, o cenário mostra leve respiro. Segundo a Companhia Operacional de Desenvolvimento, Saneamento e Ações Urbanas (Codau), não houve necessidade de acionar o Plano de Contingenciamento nem de bombear água do rio Claro, sistema preparado para socorrer o Uberaba. No fim de agosto, mesmo no período seco, chuvas esparsas elevaram a vazão a 1.900 litros por segundo, acima do ponto de alerta.

Imagem: Internet
Passado recente pressiona por preparo
A cautela, porém, permanece. A municipalidade aplicou multas por desperdício em 2024 e 2025, instalou hidrômetros mais precisos e expandiu campanhas de uso consciente. Ainda assim, qualquer nova seca prolongada pode devolver a cidade à rotina de rodízio.
Estratégias do poder público
A gestão municipal criou o Comitê de Efeitos Climáticos para integrar políticas de segurança hídrica e resposta a extremos. Entre as principais frentes estão:
- Operação de Enfrentamento do Período de Estiagem, com fiscalização preventiva e mapeamento de áreas críticas;
- Monitoramento diário da vazão do rio Uberaba e do consumo urbano;
- Implantação de dois novos poços profundos, que devem adicionar 120 L/s à produção de água tratada;
- Estruturação definitiva do sistema de transposição do rio Claro, pronto para reforçar o volume do manancial principal em épocas de estresse;
- Revisão do Plano Diretor, publicado em julho de 2026, com foco em proteção ambiental e resiliência climática, além de um Plano de Arborização que amplia as áreas verdes.
Vice-prefeito e presidente do comitê, Mauricinho de Sá avalia que os números do TCE reforçam a urgência de planejamento permanente. “Trabalhamos com prevenção, monitoramento e investimentos contínuos para reduzir impactos da seca, das queimadas e das chuvas extremas”, diz.
Enquanto a diversificação das fontes de água não sai do papel, Uberaba convive com a condição de ser o município mineiro mais afetado por eventos climáticos. A combinação de estiagem recorrente e infraestrutura limitada seguirá ditando o ritmo de alertas, decretos e adaptações — e coloca a segurança hídrica no topo da agenda pública local.
