A Unidade Popular pelo Socialismo (UP) oficializou neste domingo (2) a candidatura da analista judiciária e militante feminista Luciana Amorim ao governo de Goiás nas eleições de 2026. A escolha foi sacramentada em convenção partidária realizada na Ocupação de Mulheres Maria Augusta Thomaz, no Setor Aeroporto, em Goiânia, onde a legenda também definiu Caymmi Henrique como candidato a vice-governador e Guilherme Darques para a única vaga ao Senado em disputa no estado.
Ao discursar, Luciana apresentou a chapa como alternativa para a classe trabalhadora, criticou propostas que, segundo ela, “não alcançam quem sente fome, carece de moradia ou vive a precarização do trabalho” e prometeu priorizar políticas de combate à violência contra mulheres. “O Estado deve atender, de fato, às necessidades do povo que produz a riqueza”, afirmou.
Escolha alinhada à trajetória militante
Natural de Anápolis, cidade a 55 quilômetros da capital, Luciana de Deus Amorim tem 54 anos, é formada em Direito e atua como analista judiciária da Justiça Federal em Goiás. Especializada em Direito Civil e Processo Civil, coordena o núcleo goiano do Movimento Olga Benario, integra o Movimento Luta de Classes e ocupa a vice-presidência estadual da UP. A militância no partido começou em 2019, quando a sigla recolhia assinaturas para obter registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Desde então, ela não se filiou a nenhuma outra legenda.
Em 2022, Luciana concorreu como vice na chapa liderada por Professor Pantaleão ao Palácio das Esmeraldas. Dois anos depois, a dupla se manteve unida na disputa pela prefeitura de Goiânia, novamente com Pantaleão à frente e Luciana como vice. Embora não tenham sido eleitos em nenhuma das oportunidades, a participação construiu a visibilidade interna que culminou na candidatura majoritária agora lançada.
Agenda feminista e trabalhista
Nas redes sociais, a recém-escolhida candidata se apresenta como feminista e defensora de pautas sindicais. Entre os compromissos que vem divulgando estão o fim da escala de trabalho 6×1, a ampliação de políticas de moradia popular e ações específicas para reduzir a violência de gênero em Goiás. Seus discursos também têm enfatizado transporte público gratuito e tarifa zero de energia para famílias de baixa renda.
Composição da chapa e alianças
A escolha de Caymmi Henrique para a vaga de vice reflete a intenção da UP de manter coerência ideológica. Militante do mesmo partido e professor da rede pública, ele atua em movimentos de juventude e moradia. Já o jornalista e ativista cultural Guilherme Darques disputará o Senado, posição que em 2026 terá apenas uma cadeira em aberto para Goiás.
Até o momento, a legenda não firmou coligações formais com outros partidos, mas dirigentes disseram, após a convenção, que conduzirão conversas com siglas de esquerda e movimentos sociais até a data-limite de registro de alianças. O calendário eleitoral permite ajustes na chapa até 15 de agosto.
Calendário oficial
- 5 de agosto: data final para a realização de convenções partidárias.
- 15 de agosto: prazo para registrar candidaturas e eventuais coligações no TSE.
- 16 de agosto: início oficial da campanha em ruas, rádio, TV e internet.
- 4 de outubro: primeiro turno das eleições para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual.
Goiás em disputa acirrada
A confirmação da candidatura da UP ocorre num cenário já movimentado. O Partido dos Trabalhadores lançou o ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno para a mesma corrida, enquanto pesquisas recentes colocam nomes como Daniel Vilela (MDB) e Marconi Perillo (PSDB) entre os mais lembrados pelo eleitorado goiano. A entrada de Luciana adiciona um viés de esquerda mais radical ao pleito, tradicionalmente dominado por forças de centro-direita no estado.
Dirigentes da Unidade Popular acreditam que o histórico de atuação em ocupações urbanas e movimentos sindicais pode ampliar a presença da legenda nos bairros periféricos, onde a sigla costuma organizar mutirões por direito à moradia. No entanto, analistas avaliam que a maior dificuldade será furar o bloqueio midiático, diante da baixa estrutura partidária e do tempo reduzido de rádio e TV.
Desafios para crescer
Sem cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, a UP terá acesso mínimo aos fundos eleitoral e partidário. Para contornar essa limitação, a campanha prepara um roteiro de visitas a cidades médias — Anápolis, Rio Verde, Catalão, Itumbiara e Aparecida de Goiânia — reforçando mobilizações de rua, arrecadações solidárias e transmissões ao vivo. Dirigentes também planejam lives semanais sobre temas como reforma agrária, educação e segurança pública.
Perfil pessoal e profissional
Filha de comerciários, Luciana Amorim passou parte da juventude em Mato Grosso, onde concluiu o ensino médio e iniciou a militância estudantil. Voltou a Goiás para cursar Direito e, em seguida, ingressou na Justiça Federal, onde trabalha há mais de duas décadas. Fora do expediente, dedica-se a grupos de apoio a mulheres vítimas de violência e leciona, de forma voluntária, no cursinho popular do Movimento Luta de Classes.

Imagem: Internet
Colegas de tribunal descrevem a candidata como “metódica, mas aguerrida”. Ela costuma citar a própria experiência no serviço público para criticar a defasagem salarial dos servidores estaduais e defender concursos periódicos em áreas como saúde e educação. Ao mesmo tempo, rechaça a ideia de ajustes fiscais que cortem investimentos sociais. “Dinheiro há: falta vontade política para cobrar dos grandes devedores”, afirmou durante o evento de domingo.
Próximos passos
Com a homologação da chapa, a UP inicia agora a coleta de propostas para seu programa de governo. As prioridades deverão ser definidas em assembleias populares que a sigla pretende promover em todas as regiões do estado até o fim de julho. A campanha eleitoral, por lei, só pode começar de forma oficial após o dia 16 de agosto, mas a pré-campanha está autorizada a divulgar ideias e promover encontros sem pedido explícito de voto.
A legenda espera aproveitar o ambiente das assembleias para atrair voluntários, arrecadar doações via financiamento coletivo e compor a lista de candidatos proporcionais — 17 nomes para deputado estadual e 10 para deputado federal, segundo dirigentes. Caso avance ao segundo turno, a UP não descarta diálogos com outros setores da esquerda, mas descarta apoio a candidaturas consideradas “aliadas do capital financeiro”.
Oposição à ordem vigente
Ao contrário de siglas mais tradicionais, a UP se define como socialista e aposta na mobilização social como caminho para reformas estruturais. Luciana sintetizou essa postura em seu discurso de aceitação: “Não estamos aqui para gerenciar o mesmo modelo que causa fome, desemprego e violência. Queremos transformá-lo”. Se eleita, ela promete enviar logo nos primeiros cem dias projetos de lei para instituir tarifa zero no transporte regional, criar um programa de renda básica estadual e reverter áreas públicas cedidas a grandes empreendimentos imobiliários para projetos de habitação popular.
Especialistas em finanças públicas apontam, entretanto, que medidas desse porte exigiriam fontes robustas de custeio. Questionada sobre o tema, a candidata citou a taxação de grandes fortunas, auditoria da dívida e combate a incentivos fiscais que, avalia, não geram emprego proporcional ao valor concedido. O debate deve ganhar intensidade à medida que o período oficial de campanha se aproximar.
Peso simbólico da ocupação
A escolha da Ocupação de Mulheres Maria Augusta Thomaz para sediar a convenção não foi casual. O terreno, ocupado em 2021 por cerca de 400 famílias chefiadas por mulheres, tornou-se símbolo da luta por direito à moradia em Goiânia. Ao realizar o ato político no local, a UP reforçou a centralidade do tema em sua narrativa eleitoral e buscou aproximar-se de movimentos populares historicamente distantes dos grandes palanques.
Após o encerramento da convenção, lideranças da ocupação manifestaram apoio à chapa e entregaram um documento com reivindicações, entre elas a regularização fundiária definitiva da área. Luciana assumiu o compromisso de incluir a proposta em seu plano de governo.
Quadro eleitoral em construção
Com a UP lançando candidatura própria, o campo progressista em Goiás passa a contar, até agora, com duas mulheres disputando o Palácio das Esmeraldas — Luciana Amorim e a professora Marina Ferreira, pré-lançada pelo PSOL. Outros partidos devem realizar convenções até o início de agosto, o que pode alterar o tabuleiro.
Independentemente do resultado, a presença de Luciana amplia a diversidade de vozes na corrida eleitoral goiana e promete levar às urnas discussões sobre desigualdade social, direitos das mulheres e papel do Estado na indução do desenvolvimento regional.
