O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reafirmou nesta quarta-feira (29) seu respaldo a Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, apesar de o banco central ter mantido a taxa básica entre 3,50% e 3,75% pela segunda reunião seguida. “Ele é brilhante”, disse o republicano, ignorando a frustração que havia manifestado no passado quando a autoridade monetária não cedia à sua pressão por cortes agressivos.
Warsh, que chegou ao comando do Fed em maio após a saída de Jerome Powell, já sinaliza que a próxima mexida nos juros pode vir não para baixo, mas para cima. Em entrevista após a decisão, ele argumentou que a inflação persistente, combinada a um mercado de trabalho “resiliente”, pode exigir aperto monetário — visão que encontra eco em parte do comitê e em boa fatia do mercado futuro.
Da irritação ao elogio: como Trump passou a defender Warsh
Desde a campanha de 2024, Trump transformou a política monetária em tema central de sua retórica econômica. Ele atacou abertamente Jerome Powell por, na sua avaliação, “sufocar” o crescimento ao não reduzir os custos de financiamento. Quando Powell deixou o cargo, a escolha de Warsh — ex-diretor do Fed que gozava de respeito bipartidário — foi vista como tentativa de acalmar investidores e, ao mesmo tempo, atender ao desejo presidencial de taxas menores.
Dois meses no cargo, porém, bastaram para demonstrar que o novo presidente do banco central não está disposto a agir como braço político da Casa Branca. Nas reuniões de junho e de julho, Warsh articulou um consenso por estabilidade, alegando incertezas sobre o comportamento de preços. Trump, que chegou a chamar o Fed de “o principal inimigo” do crescimento americano, moderou o tom. Nesta quarta-feira, preferiu classificar o economista como “um cara brilhante” que, segundo ele, “gostaria de ver juros mais baixos, mas precisa lidar com um conselho político que quer manter as taxas elevadas”.
Disputa interna no Fed
Dissidências ganham corpo
A decisão de julho não foi unânime. Três dos nove votantes — todos recém-empossados, portanto próximos de Warsh na linha de sucessão — defenderam alta de 0,25 ponto percentual. Embora minoritária, a dissidência ilustra a crescente preocupação com a inflação subjacente, que permanece acima da meta de 2% ao ano.
Mercado já precifica aperto
Nos contratos futuros negociados em Chicago, a possibilidade de elevação em setembro passou de 40% para mais de 60% logo após a coletiva de Warsh. Analistas avaliam que o Fed terá de escolher entre a expectativa da Casa Branca por estímulo e o risco de perder credibilidade no combate ao aumento de preços.
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O argumento de Warsh: reação a dados, não a pressões
Questionado sobre a disparidade entre o discurso presidencial e a decisão colegiada, Warsh recorreu a uma velha máxima dos bancos centrais: “Quando a inflação subjacente avança, a reação típica é apertar a política; quando recua de forma sustentada, flexibilizamos”. Segundo ele, “qualquer banqueiro central” agiria dessa forma se o mercado de trabalho estiver perto do pleno emprego, como ocorre hoje.
Nos últimos três meses, a economia americana vem criando, em média, 170 mil vagas mensais, enquanto a taxa de desemprego permanece ao redor de 4,1%. O núcleo do índice de preços ao consumidor, descontado o impacto de energia e alimentos, acelerou para 3,1% em 12 meses. São números que, na ótica de Warsh, justificam cautela antes de qualquer corte.

Imagem: Internet
Pressão da Casa Branca deve continuar
Mesmo elogiando o dirigente, Trump reiterou que prefere juros “muito mais baixos”. Auxiliares próximos disseram a veículos locais que a Casa Branca tentará influenciar os demais diretores indicando nomes “pró-crescimento” nas vagas que se abrirão até o início de 2027. A estratégia lembra a investida de 2019, quando o republicano lançou nomes considerados leais, mas a maioria foi barrada no Senado.
Impacto nos mercados
A Bolsa de Nova York apagou parte dos ganhos do dia após a entrevista de Warsh, e o rendimento dos Treasuries de 10 anos subiu cinco pontos-base, para 4,38% ao ano. Investidores avaliam que a virada de postura — de cortes desejados pelo presidente para possíveis altas defendidas pelo próprio chefe do Fed — acrescenta nova dose de incerteza à condução da política monetária global.
No câmbio, o dólar avançou frente a uma cesta de moedas emergentes, refletindo o fluxo para ativos considerados mais seguros. No Brasil, o real fechou em leve baixa, enquanto operadores seguem atentos a qualquer sinal de aperto nos Estados Unidos, fator que costuma exportar volatilidade para países em desenvolvimento.
O que vem a seguir
Agenda lotada até setembro
Até a próxima reunião do Fed, marcada para 16 e 17 de setembro, três dados podem mexer nas apostas: o relatório de emprego de agosto, a segunda leitura do PIB do segundo trimestre e o índice de despesas de consumo pessoal (PCE), considerado termômetro preferido da autoridade monetária. Caso a inflação volte a surpreender, cresce a chance de Warsh liderar o primeiro aperto desde 2023.
Cenário político entra no radar
Ainda que o estatuto garanta autonomia ao banco central, a proximidade das eleições legislativas de novembro de 2026 adiciona tempero à discussão. Taxas mais altas encarecem o crédito e, por tabela, podem frear o crescimento que Trump deseja exibir na campanha dos aliados republicanos ao Congresso.
Por ora, contudo, o presidente parece disposto a tolerar a divergência. “Nós enfrentamos os juros”, disse, usando a mesma expressão que marcou críticas passadas. A diferença é que, agora, ela veio acompanhada de um sorriso e do adjetivo “brilhante” para se referir a Kevin Warsh — sinal de que, na política monetária americana, a convivência entre o primeiro-mandatário e o banco central atravessa uma trégua tão frágil quanto provisória.