Um manto branco e espesso voltou a cobrir o Rio Tietê na altura de Salto, interior de São Paulo. As imagens, captadas por drone nesta terça-feira (28), mostram blocos de espuma tóxica acumulados sobre um leito raso e repleto de pedras, consequência direta da combinação entre seca prolongada e despejo de esgoto sem tratamento que chega da Região Metropolitana de São Paulo. A prefeitura e a Defesa Civil reforçaram o alerta: o contato com a substância pode irritar pele e olhos, e visitantes devem evitar a aproximação, mesmo que a aparência chame a atenção no Complexo Turístico da Cachoeira.
O fenômeno, recorrente entre os meses mais secos, escancara a dependência do interior em relação ao saneamento básico da capital e seu entorno. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, cerca de 600 toneladas de lixo e poluentes adentram diariamente o rio, que percorre mais de 1.100 quilômetros até desaguar no Paraná. Em Salto, as quedas d’água funcionam como uma lavadora: a força do fluxo bate nos resíduos químicos – principalmente detergentes – e forma bolhas persistentes, que se juntam até parecerem um tapete contínuo.
Sequência de tempo seco intensifica o problema
Nos últimos dias, o nível do Tietê em Salto ficou tão baixo que rochas antes submersas passaram a despontar no meio do curso. A redução do volume diminui a diluição dos contaminantes, favorecendo a formação da espuma. Meteorologistas locais afirmam que a chuva acumulada no mês ainda não chegou à metade da média histórica para julho, o que prolonga o quadro de estresse hídrico.
Para a prefeitura saltense, a única solução permanente é interromper o lançamento de esgoto in natura na Grande São Paulo. “Todo ano esse fenômeno acontece aqui e só deixará de ocorrer quando as cidades da região metropolitana pararem de poluir o rio”, diz nota enviada pela administração municipal. A avaliação dos técnicos corrobora a opinião de ambientalistas: qualquer avanço na qualidade da água a jusante dependerá de obras de coleta e tratamento a montante.
Inspeções e fiscalização
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou que mantém ações de campo contínuas. Desde março de 2025, foram mais de 400 inspeções em pontos considerados críticos, incluindo estações de tratamento de efluentes domésticos e industriais. O órgão não divulgou, contudo, quantas autuações foram lavradas ou o volume total de multas aplicadas no período.
Embora a espuma seja visível e impactante, ambientalistas explicam que ela representa apenas a face mais fotogênica de um problema extenso. Substâncias químicas dissolvidas, muitas delas invisíveis a olho nu, permanecem no leito e podem comprometer a vida aquática e o abastecimento de municípios localizados rio abaixo.
Risco à saúde impõe restrições a visitantes
Em meio ao cenário de cartão-postal invertido, curiosos costumam se aglomerar nos mirantes do Complexo Turístico da Cachoeira para fotografar o fenômeno. A Defesa Civil, porém, instalou faixas de advertência e reforçou a ronda, lembrando que o contato direto com a espuma pode provocar irritações e crises respiratórias em pessoas mais sensíveis.
Moradores relataram à reportagem que, nos dias de vento forte, flocos de espuma são carregados até as vias próximas. “Parece neve, mas arde nos olhos”, disse um comerciante que preferiu não se identificar. A administração municipal estuda ampliar a sinalização e, se necessário, interditar parte das passarelas quando a camada tóxica ultrapassar os limites seguros.
Atração turística x passivo ambiental
Paradoxalmente, a espuma tem atraído um fluxo maior de turistas. Guias locais contam que, durante fins de semana recentes, a procura por passeios no entorno da cachoeira aumentou. Do ponto de vista econômico, o movimento favorece bares e restaurantes da região central. No entanto, autoridades sanitárias alertam que a curiosidade não pode se sobrepor à segurança.
A prefeitura argumenta que promover o turismo sem mascarar o problema ajuda a evidenciar a urgência de investimentos em saneamento. “Quando a população enxerga a poluição de perto, pressiona mais por soluções”, afirma um técnico da Secretaria de Meio Ambiente, que acompanha as medições diárias de qualidade da água.

Imagem: espuma tóxica Salto
Como a espuma se forma
O processo é relativamente simples: detergentes, xampus e desengraxantes contêm surfactantes, compostos que reduzem a tensão superficial da água. Ao chegar ao rio sem tratamento, esses agentes são submetidos à turbulência natural das corredeiras de Salto. A agitação aprisiona ar em pequenas bolhas, que se juntam graças à presença de matéria orgânica e sólidos em suspensão.
Quando o nível está baixo e a corrente perde velocidade, a espuma permanece intacta por mais tempo e acumula substâncias tóxicas, como fosfatos e metais pesados. Os ventos ajudam a espalhar a massa branca por centenas de metros, encobrindo completamente o espelho d’água em determinados trechos.
Número de emergências dobra em períodos secos
Dados compilados pela Defesa Civil mostram que as ocorrências envolvendo irritação cutânea ou ocular ligadas à espuma duplicam entre junho e agosto, coincidindo com o inverno seco do Sudeste. A maior parte dos atendimentos, contudo, é de baixa complexidade e não exige internação.
Mesmo assim, a recomendação de especialistas é evitar pescarias, esportes aquáticos ou simplesmente molhar os pés no rio enquanto a espuma estiver presente. Animais domésticos também podem sofrer reações adversas, caso ingiram água contaminada.
Pressão popular e cenário futuro
Movimentos ambientais e conselhos de bacia têm intensificado campanhas para que prefeituras da Grande São Paulo acelerem a universalização do esgoto tratado. Até 2028, segundo metas estaduais, 90% dos efluentes urbanos deveriam receber tratamento secundário antes de chegar ao Tietê. No retrato atual, o índice não passa de 60%, de acordo com estimativa da SOS Mata Atlântica.
Em Salto, a população acompanha atenta. Associações de moradores promovem mutirões de limpeza das margens, mesmo sabendo que a origem do problema está a mais de 100 quilômetros de distância. A curto prazo, o município aposta em campanhas educativas para desistimular o despejo irregular de resíduos locais e em relatórios periódicos que alimentam o Ministério Público paulista com provas do impacto regional.
O que dizem especialistas
- Fundação SOS Mata Atlântica – “Sem tratamento de esgoto ao longo de todo o curso do Tietê, cenas como as registradas em Salto vão continuar se repetindo.”
- Prefeitura de Salto – “A condição só mudará quando cessarem os lançamentos de poluentes na Grande São Paulo.”
- Cetesb – “As fiscalizações são permanentes e resultaram em mais de 400 inspeções desde março de 2025.”
Enquanto as soluções estruturais não avançam, o rio que corta o estado mais populoso do país segue exibindo, em Salto, um lembrete espumoso da distância entre o discurso sobre saneamento e a realidade sentida pelas comunidades ribeirinhas.
