No fim da manhã desta segunda-feira (27), criminosos abriram fogo contra a base avançada da Polícia Militar instalada na comunidade Gardênia Azul, em Jacarepaguá. O prédio ficou cravejado de marcas de fuzil minutos depois de agentes do 18º BPM prenderem Philip do Nascimento Firmino, o “Bacurau”, apontado como um dos principais gestores do tráfico local.
Em reação à captura da liderança ligada ao Comando Vermelho, traficantes bloquearam avenidas usando ônibus como barricada, incendiaram veículos e provocaram um caos que interrompeu ao menos 19 linhas de transporte coletivo na Zona Oeste do Rio. Não houve registro de policiais feridos, mas a população ficou sob forte tensão até o início da tarde.
Prisão de “Bacurau” deflagra represália armada
A operação que levou à detenção de Philip Firmino focava na retirada de barreiras erguidas por criminosos em vielas da Gardênia Azul. Segundo a PM, o preso exercia a função de gerente-geral do comércio de drogas na comunidade e comandava pontos de venda nas proximidades da Avenida Ayrton Senna. A captura ocorreu por volta das 11h, horário em que patrulhas faziam varredura no interior do conjunto habitacional.
Assim que a informação da prisão se espalhou, homens armados dispararam em direção à base da corporação localizada na Rua John Kennedy, a poucos metros do acesso principal à comunidade. Imagens gravadas por moradores mostram rajadas contínuas e a fachada da unidade sendo perfurada. Peritos contaram dezenas de impactos de fuzil calibre 7,62 mm e 5,56 mm, munições de uso restrito.
Perfil do detido
- Nome civil: Philip do Nascimento Firmino;
- Apelido: Bacurau;
- Idade aproximada: 30 anos;
- Função atribuída pela inteligência: gerente do tráfico;
- Antecedentes: passagens por associação para o tráfico, porte ilegal de arma e corrupção de menores.
Ônibus atravessados e carros em chamas
A ofensiva não se limitou à troca de tiros. Para impedir a chegada de reforços, criminosos ordenaram que motoristas abandonassem coletivos em plena Avenida Ayrton Senna. Cinco ônibus foram posicionados de modo a fechar totalmente uma das pistas. Houve ainda bloqueios na Avenida Tenente-Coronel Muniz de Aragão e na Estrada do Engenho d’Água, vias que servem de rotas alternativas entre Jacarepaguá e Barra da Tijuca.
Dois veículos foram incendiados; a fumaça preta podia ser vista a quilômetros. Passageiros relataram momentos de pânico ao serem obrigados a descer sob gritos e disparos. O sindicato das empresas de ônibus, Rio Ônibus, informou que recolheu parte da frota para as garagens até que a situação fosse controlada.
Linhas impactadas
- 315 – Recreio x Central
- 353 – Gardênia Azul x Terminal Gentileza
- 368 – Riocentro x Candelária
- 691, 692 e 693 – Méier x Alvorada
- 861 – Rio das Pedras x Curicica
- Demais itinerários que circulam pela Ayrton Senna, Tenente-Coronel Muniz de Aragão e Engenho d’Água
Motoristas enfrentaram congestionamentos que se estenderam até a Linha Amarela, corredor que liga a Zona Norte à Zona Oeste. Muitos moradores preferiram voltar a pé para casa diante da incerteza sobre a retomada do serviço.
Policiamento reforçado e caçada aos atiradores
Para conter novos ataques, o Comando de Operações Especiais (COE) mobilizou equipes do Batalhão de Choque, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil e blindados conhecidos como caveirões. Helicópteros fizeram sobrevoo constante. A 32ª DP (Taquara) ficou responsável pelo inquérito, que apura tentativa de homicídio contra agentes, incêndio doloso e dano ao patrimônio público.
De acordo com a PM, varreduras foram mantidas até o início da noite, com rondas na Gardênia Azul e em comunidades vizinhas como Rio das Pedras e Cidade de Deus, áreas onde facções rivais costumam oferecer refúgio a fugitivos. Nenhum suspeito havia sido preso até as 18h, além de “Bacurau”.
Comunidade vive rotina de confrontos
Localizada em uma zona estratégica que conecta Barra da Tijuca, Jacarepaguá e o Complexo do Anil, a Gardênia Azul tornou-se alvo de disputas entre o Comando Vermelho e milicianos nos últimos anos. A proximidade com grandes vias expressas facilita a logística do tráfico, mas também expõe residentes a frequentes tiroteios.

Imagem: Internet
Dados do Instituto Fogo Cruzado indicam que, entre janeiro e junho, ocorreram 43 registros de disparos na região, aumento de 18 % em relação ao mesmo período do ano passado. Em março, um policial militar morreu ao tentar retirar uma barricada semelhante à que motivou a operação desta segunda-feira.
Impacto na vida dos moradores
Escolas municipais próximas suspenderam as aulas da tarde por precaução. Unidades de saúde restringiram atendimentos eletivos, priorizando emergências. Comerciantes baixaram portas, e aplicativos de transporte interromperam corridas com destino ou partida na Gardênia Azul.
A liderança comunitária da Associação de Moradores, que pediu anonimato, descreveu uma sensação de “prisão a céu aberto”: “Quando a polícia entra, ficamos no fogo cruzado; quando sai, o tráfico impõe regras. Hoje foi pior porque o ataque ocorreu em plena hora do almoço, com crianças na rua”.
Próximos passos da investigação
Peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli recolheram cápsulas e analisam imagens de câmeras particulares para rastrear a rota de fuga dos suspeitos. A polícia trabalha com a hipótese de que a ordem para o atentado tenha partido de dentro do próprio conjunto, via rádio amador usado pela facção.
Já “Bacurau” foi transferido para a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) e deve ser encaminhado ao sistema prisional ainda nesta semana. Ele responderá por tráfico, associação criminosa e tentativa de homicídio qualificado.
PM promete presença permanente
O comando da corporação anunciou que manterá patrulhas fixas nas entradas da comunidade e rondas móveis durante a madrugada. Segundo a nota, a intenção é “devolver a sensação de segurança aos moradores e evitar que criminosos reorganizem barricadas”. Entretanto, residentes receiam que a retaliação se prolongue nos próximos dias.
Ao fim da tarde, a circulação de ônibus começou a ser restabelecida, mas parte das linhas continuava operando com desvios. Agentes da Guarda Municipal permaneceram orientando o tráfego até a liberação completa das pistas. O clima seguia tenso, com comércio fechado e poucas pessoas nas ruas.
Esse é mais um episódio que evidencia a fragilidade da segurança pública na Zona Oeste e o poder de intimidação das facções, capazes de paralisar importantes eixos viários da cidade em questão de minutos.
