O Partido Novo oficializou, em convenção nacional realizada em Brasília nesta segunda-feira (27), o nome de Romeu Zema como candidato à Presidência da República. Aos 61 anos, o empresário que governou Minas Gerais entre 2019 e março deste ano deixou o cargo para disputar o Planalto com um discurso de austeridade, ataque a “privilégios” políticos e distanciamento calculado do bolsonarismo que o ajudou em 2018 e 2022.
Sem vice definido — a escolha deve ocorrer até 5 de agosto —, Zema tenta repetir no cenário nacional a trajetória de outsider que o levou ao Palácio Tiradentes. Herdeiro de um conglomerado centenário, ele declara patrimônio de quase R$ 130 milhões e defende uma agenda liberal marcada por corte de gastos, privatizações e revisão do papel do Estado.
Do balcão da família ao governo de Minas
Nascido em Araxá (MG) em 28 de outubro de 1964, Zema é administrador formado pela Fundação Getulio Vargas. Diz ter passado por funções como frentista, vendedor e gerente antes de assumir, no início dos anos 1990, a direção do Grupo Zema — rede de cerca de 500 lojas de eletrodomésticos que também opera postos de combustíveis, concessionárias, imobiliária e braço financeiro. Ele deixou o comando das empresas em 2016, mas a família segue controlando o negócio.
Embora afirme que nunca havia “feito política” antes de 2018, Zema militou por quase duas décadas no PL. A migração ao Novo naquele ano foi o passo que lhe permitiu apresentar-se como gestor sem vinculação com o “sistema”. Já na primeira disputa derrotou o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB) e, quatro anos depois, foi reeleito no primeiro turno com 56 % dos votos contra Alexandre Kalil (PSD).
Pivô de isenção fiscal milionária
Em junho, veio à tona que a Eletrozema S/A, controlada pela família, recebeu isenção tributária de R$ 2,2 milhões autorizada ainda durante a gestão de Zema. Ele reagiu dizendo que o benefício existe desde 2008 e cumpre regras legais. A oposição, porém, usa o episódio para questionar a narrativa de “rigor com o dinheiro público”.
Agenda econômica: privatizações e dívidas em aberto
Na campanha estadual de 2022, Zema listou 12 promessas. Levantamento aponta quatro integralmente cumpridas, entre elas a venda da Copasa concluída em 2026; cinco parcialmente atendidas e três descumpridas, caso do reajuste de servidores para recompor perdas inflacionárias. A tentativa de privatizar a Cemig permanece inconclusa.
Austeridade como vitrine
- Defende teto de gastos mais rígido.
- Promete mexer em subsídios federais.
- Quer ampliar parcerias público-privadas para infraestrutura.
Rompimento gradual com a família Bolsonaro
Aliado de Jair Bolsonaro nos dois últimos pleitos nacionais, o ex-governador procura ocupar o espaço deixado pela inelegibilidade do ex-presidente. A distância ficou evidente quando Zema descartou ser vice de Flávio Bolsonaro e criticou o senador por conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por fraude bilionária. “É um tapa na cara dos brasileiros de bem”, afirmou ao cobrar coerência moral.
A fala irritou dirigentes do Novo envolvidos em alianças regionais com bolsonaristas, mas Zema manteve o tom. Disse que, num eventual segundo turno sem sua presença, apoiará qualquer nome disposto a derrotar o PT, reforçando o antipetismo, mas sem clima para reconciliação total com o clã Bolsonaro.

Imagem: Internet
Embate aberto com o Supremo
Zema transformou críticas ao STF em eixo de campanha. Em março, foi pessoalmente a Brasília pedir o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, citando o caso Master. Também divulgou vídeos satirizando Gilmar Mendes e Dias Toffoli como personagens da série “Os Intocáveis”, feitos com inteligência artificial. Gilmar reagiu e pediu sua inclusão no inquérito das fake news; a PGR arquivou.
Propostas para o Judiciário
- Idade mínima de 60 anos para novos ministros.
- Lista tríplice obrigatória para escolha presidencial.
- Fim de decisões monocráticas no Supremo.
Vice em aberto e desafio nas pesquisas
O empresário Geraldo Rufino era o favorito para compor a chapa, mas decidiu concorrer ao Senado pelo Podemos em São Paulo. Sem plano B anunciado, o Novo corre contra o relógio — e enfrenta dificuldades para encontrar um “nome ficha limpa” que agregue votos e tempo de TV. No Datafolha de 24 de julho, Zema aparece com 3 % das intenções de voto, índice semelhante ao início de sua campanha de 2018 em Minas, argumento usado pela sigla para justificar otimismo.
Polêmicas de discurso
Ao longo de quase oito anos à frente de Minas, o presidenciável colecionou declarações controversas:
- Em 2023, sugeriu que Sul e Sudeste “carregam” o país, comparando o Brasil a um produtor que mima “vacas que produzem pouco” — frase vista como preconceituosa no Nordeste.
- Em 2025, publicou vídeo com rojões virtuais para ironizar o PT. O som foi incluído digitalmente para driblar lei de Belo Horizonte que proíbe fogos ruidosos.
- Este ano, em evento da CNI, defendeu exigir conclusão de estudos apenas de homens beneficiários do Bolsa Família, alegando que “mulheres têm outras atribuições em casa”, o que rendeu críticas de movimentos feministas.
Estratégia eleitoral: antissistema e antipetismo
Para 2026, Zema preserva a identidade de empresário que “arrumou a casa” mineira, promete enxugar ministérios e fala em “tirar Brasília do luxo e o Brasil do lixo”. O alvo principal continua sendo o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao mesmo tempo, busca ocupar o vácuo deixado por Bolsonaro, mas sem repetir o estilo personalista do ex-chefe do Planalto.
Enquanto aposta em crescimento orgânico nas pesquisas, o Novo tenta converter a narrativa de gestão exitosa em Minas numa plataforma nacional. Resta saber se o eleitor verá em Zema um sucessor de Bolsonaro, um antagonista do lulismo ou apenas mais um nome na fragmentada disputa de 2026.
{internal_links}
