Ofensiva de Milei contra Lula estremece relação Brasil-Argentina e leva Itamaraty a convocar embaixador

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    Os insultos disparados por Javier Milei no último fim de semana em São Paulo – onde chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “ex-presidiário” e ofendeu o ministro Alexandre de Moraes – provocaram a reação mais dura do Itamaraty em décadas. O governo brasileiro convocou de volta a Brasília o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, num gesto que sinaliza grave desconforto e deixa em aberto a possibilidade de novos degraus na crise.

    Horas depois de regressar a Buenos Aires, Milei foi além: afirmou, sem apresentar provas, que o Brasil teria financiado uma “campanha anti-Argentina” durante a Copa do Mundo, responsável por 25 % dos recursos do suposto movimento. A escalada verbal atinge o ponto mais delicado das relações bilaterais desde a redemocratização dos dois países.

    Insultos em território brasileiro agravam tensão histórica

    Milei discursou no sábado (25) na convenção do Partido Liberal, que lançou a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Diante do público, ironizou um problema técnico no microfone sugerindo sabotagem de “um ladrão” e descreveu Lula nesses termos. Em seguida, chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal de “lixo calvo” – um ataque inédito a um integrante do Judiciário brasileiro vindo de um chefe de Estado estrangeiro em solo brasileiro.

    As declarações ocorreram sob aplausos do chanceler argentino, Pablo Quirno, e do cônsul em São Paulo, Luis Kreckler. O aval explícito de altas autoridades diplomáticas foi interpretado no Itamaraty como ruptura do protocolo mínimo de convivência entre governos democráticos. Para diplomatas veteranos, o episódio reedita, em escala ampliada, os atritos que já vinham marcando a relação desde a posse de Milei em dezembro de 2023, mas agora toma contornos de ofensa institucional direta.

    Chamado do embaixador evidencia gravidade

    Julio Bitelli embarcou na madrugada de domingo (26) para Brasília e tem reunião marcada com o chanceler Mauro Vieira. Chamar o representante de volta é um dos instrumentos mais veementes da diplomacia antes de se declarar o outro país “hostil” ou de abrir caminho para ruptura. Sem prazo para retorno, Bitelli pode permanecer no Brasil por tempo indeterminado.

    Vieira e Bitelli trabalham juntos há mais de duas décadas. Essa história comum reforça o recado de Brasília: não se trata de simples consulta técnica, mas de manifestação pública de desagrado. Segundo fontes do Ministério das Relações Exteriores, Lula também avalia receber o embaixador, gesto que deixaria claro que a crise ultrapassou o âmbito diplomático e chegou ao Palácio do Planalto.

    Próximos passos: de nota de repúdio a persona non grata

    • Manutenção do embaixador em Brasília – sinaliza congelamento político, mas mantém canais operacionais abertos.
    • Elevar o tom na ONU ou no Mercosul – opção para pressionar Buenos Aires sem impacto comercial imediato.
    • Declarar o embaixador argentino persona non grata – medida extrema, só vista na América do Sul em contextos de golpe ou guerra.
    • Ruptura de relações – improvável, pois afetaria uma corrente de comércio anual acima de US$ 30 bilhões e complexas cadeias produtivas, sobretudo nos setores automotivo e de bens industriais.

    Nenhuma das partes deseja chegar a esse limite, mas diplomatas lembram que crises costumam ganhar vida própria quando se misturam ao calendário político. Depois de confrontar publicamente Lula, Milei fortalece sua imagem entre aliados de Jair Bolsonaro e se projeta nos palanques conservadores brasileiros, enquanto o presidente brasileiro, em ano de agendas econômicas delicadas, tentará blindar o comércio bilateral.

    Milei alega campanha anti-Argentina na Copa

    Em entrevista a uma rádio portenha, o presidente argentino disse que “um quarto do dinheiro” usado para acusar torcedores de seu país de racismo durante o Mundial teria saído de Brasília. Também apontou suposta participação do governo mexicano, comandado por Claudia Sheinbaum, e do Partido Democrata norte-americano. Nenhuma evidência foi apresentada.

    Milei relacionou esse suposto boicote ao que chama de “vingança” pela atuação de marqueteiros brasileiros na campanha de 2023, quando o então ministro da Economia, Sergio Massa, disputou o segundo turno contra ele. Para o argentino, Lula interferiu ao colocar estrategistas na equipe adversária. “Agora reclamam da minha interferência, mas eles tiveram papel ativo na eleição aqui”, resumiu.

    Comparações com encontros de Lula e Bolsonaro

    No mesmo discurso, Milei queixou-se de ter sido impedido pelo STF de visitar Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, enquanto Lula teria visitado Cristina Kirchner quando esta respondia a processos na Justiça argentina. O governo brasileiro observa que a visita de Lula ocorreu fora de período eleitoral, com autorização judicial argentina e sem declarações ofensivas ao governo do país vizinho.

    Repercussão interna coloca Milei sob fogo cruzado

    Na Argentina, a reação mais contundente veio do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, potencial adversário de Milei em 2027. “Ver o presidente ofender um país irmão coloca em risco exportações, investimentos e milhares de empregos”, disse o peronista, acusando o presidente de subordinar interesses nacionais à campanha bolsonarista.

    Analistas em Buenos Aires lembram que o Brasil responde por cerca de 15 % das exportações argentinas, é o principal destino de automóveis fabricados no país e líder na lista de turistas estrangeiros que cruzam a fronteira. A empresária metalúrgica María da Silva, que emprega 600 pessoas em Córdoba produzindo autopeças para montadoras em São Paulo, avaliou à rádio Mitre que “qualquer tensão tarifária ou logística se transforma em demissões imediatamente”.

    Oposição vê desgaste de imagem

    Líderes da coligação Unión por la Patria acusam Milei de criar “cortina de fumaça” para problemas internos: inflação anual superior a 140 %, cortes em subsídios e tensão social. Já aliados libertários comemoram a visibilidade internacional e a aproximação com conservadores brasileiros e com a campanha de Donald Trump nos Estados Unidos.

    Histórico de choques desde a posse

    A irritação entre Brasília e Buenos Aires não nasceu neste fim de semana. Durante a campanha que o levou à Casa Rosada, Milei chamou Lula de “corrupto” e prometeu abandonar o Mercosul. Após assumir, reduziu o tom, mas ignorou convites para visitar Brasília e para encontros multilaterais. Em julho de 2024, o Itamaraty já havia trazido Bitelli a Brasília para “consultas”, numa tentativa de calibrar a postura diante das críticas frequentes do argentino às políticas econômicas brasileiras.

    A retomada do diálogo era esperada para a cúpula do G20, que será sediada no Rio, mas o calendário agora está ameaçado. Fontes diplomáticas afirmam que a presença de Milei no evento dependerá de “gestos concretos” de distensão – o que pode incluir retratação pública ou, ao menos, garantia de que novos ataques não ocorrerão em território brasileiro.

    Impacto econômico em jogo

    Os dois países sustentam uma integração produtiva rara na América Latina. Montadoras instaladas em São Paulo, Córdoba e Santa Fé operam em regime binacional; o gasoduto Presidente Néstor Kirchner, que levará gás de Vaca Muerta ao Brasil, está em fase de licenciamento; e projetos de financiamento do BNDES para pequenas obras de infraestrutura seguem na mesa.

    Economistas temem que a escalada contamine negociações tarifárias no Mercosul – especialmente a modernização do acordo com a União Europeia – e impacte a coordenação de votos em organismos como FMI e BID, onde Brasil costuma respaldar linhas de crédito a Buenos Aires.

    Risco político para ambos os lados

    Para Lula, a necessidade de responder sem ferir a imagem de liderança regional se soma às pressões de sua base, que exige reação firme às ofensas pessoais. Para Milei, o cálculo eleitoral de galvanizar apoiadores libertários e conservadores deve ser ponderado com a realidade econômica: sem reservas suficientes, a Argentina depende do comércio com o Brasil para gerar dólares e manter alguma estabilidade cambial.

    Nesse tabuleiro, a diplomacia brasileira aposta no tempo como aliado. Ao manter o embaixador em consultas, sinaliza desagrado, mas conserva a porta aberta. A Casa Rosada, por sua vez, terá de decidir se dobra a aposta no confronto ou se busca recompor pontes para evitar que a retórica se traduza em custos concretos para sua economia – e para sua própria governabilidade.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.