O fim de semana terminou com o governo brasileiro pressionado a rever a relação com Buenos Aires depois de uma nova série de insultos do presidente argentino, Javier Milei, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Poucas horas após os ataques, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para pedir explicações e estuda, segundo auxiliares do Palácio do Planalto, trazer de volta a Brasília o próprio representante brasileiro em Buenos Aires, movimento considerado raro entre países que mantêm laços históricos e volumosa parceria comercial.
Além do tom pessoal contra as autoridades brasileiras, Milei acrescentou um ingrediente conspiratório à crise ao afirmar, no domingo, que Brasil, México e integrantes do Partido Democrata dos Estados Unidos estariam financiando uma campanha mundial para desestabilizar a Argentina. A declaração transformou uma rusga bilateral em tema de interesse regional e pôs chanceleres da América Latina em alerta para possíveis desdobramentos em fóruns multilaterais.
Convocação de embaixador sinaliza escalada inédita
A Secretaria de Estado para a América do Sul, braço do Itamaraty responsável pela relação com a Argentina, comunicou à Casa Rosada que as manifestações de Milei são “inaceitáveis” sob qualquer protocolo diplomático. Na prática, a convocação do embaixador rompe o tom de contenção adotado desde a posse do líder libertário, em dezembro, e abre caminho para a etapa seguinte: a chamada “consulta” do embaixador brasileiro em Buenos Aires, gesto simbólico que indica forte descontentamento político.
Interlocutores de Lula avaliam ser “quase inevitável” chegar a esse ponto se não houver retratação formal de Milei. O Planalto também autorizou estudos internos sobre possíveis impactos econômicos de um esfriamento nas relações. O intercâmbio comercial bilateral superou US$ 30 bilhões em 2023, com o Brasil registrando superávit de aproximadamente US$ 2 bilhões.
Milei amplia tensão com teorias de conspiração
Depois do discurso ofensivo a Lula e Moraes, proferido em evento conservador nos Estados Unidos, Milei acusou Brasília, a Cidade do México e a ala democrata de Washington de patrocinar “uma ofensiva internacional” contra a gestão que completa seis meses. Assessores do Itamaraty classificaram a fala de “delirante” e “sem nenhum respaldo factual”. A chancelaria mexicana divulgou nota para negar envolvimento em qualquer operação financeira de desgaste ao país vizinho, enquanto porta-vozes do Departamento de Estado norte-americano adotaram silêncio público.
Lula publica artigo no Washington Post e defende negociação
No mesmo domingo, Lula recorreu ao jornal norte-americano Washington Post para rebater a elevação de tarifas sobre aço e alumínio brasileiros proposta por aliados do ex-presidente Donald Trump. No texto, o petista argumenta que a taxação é contraproducente para os Estados Unidos, lembra que o Brasil pode adotar medidas de reciprocidade e, ao final, se declara disposto a negociar uma solução benéfica para ambos os lados.
Diplomatas enxergam na publicação um duplo recado: aos republicanos que flertam com Milei e pressionam pela agenda protecionista, e ao governo Joe Biden, que busca distanciar-se da retórica trumpista mas enfrenta eleição polarizada em novembro. O artigo recebeu endosso da bancada democrata do Congresso e foi replicado em plataformas oficiais do Itamaraty.
Rejeição doméstica e o debate sobre “quem sabe votar”
Pesquisas recentes mostram índices elevados de desaprovação tanto a Lula quanto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nome testado informalmente como possível presidenciável em 2026. Analistas passaram a questionar se o eleitorado brasileiro estaria condenado a escolher entre candidatos de rejeição majoritária. Há quem veja nessa leitura um risco à própria democracia, pois embute a tentação de colocar em dúvida o valor do voto popular.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), aproveitou convenção do PSD para ironizar o cenário: “No Brasil, a disputa parece ser entre rejeitados”. Hoje ele aparece com 4% das intenções de voto no primeiro turno, segundo o instituto que divulgou a pesquisa, mas tenta ocupar o espaço de “nem Lula nem Bolsonaro” – estratégia que especialistas consideram pouco viável na prática, porque Caiado, na maior parte do tempo, mira mais críticas ao PT do que ao clã Bolsonaro.
Rede internacional de apoio ao bolsonarismo
Embora ainda sem aliança partidária consolidada, Flávio Bolsonaro coleciona manifestações positivas de lideranças da ultradireita global. Entre elas, o próprio Milei, que nesta semana atacou não apenas Lula e Moraes, mas “o Brasil inteiro”, segundo avaliação do Itamaraty; o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, enfrentando denúncias de violações no conflito em Gaza; e Donald Trump, interessado em retomar a Casa Branca com pautas protecionistas e antiglobalistas.
Durante a campanha de 2022, o bolsonarismo enviou a Washington um dossiê de 84 páginas prometendo “entregas econômicas prioritárias” aos Estados Unidos, do acesso a bases de dados estratégicos brasileiros à abertura de setores considerados sensíveis. Senadores americanos como Marco Rubio, ligado ao lobby de armas e à comunidade cubano-americana da Flórida, receberam a sinalização de que poderiam indicar nomes para a transição de governo, caso Jair Bolsonaro fosse reeleito – informação confirmada por parlamentares brasileiros da oposição na época.
Polarização real ou falsa equivalência?
Apesar do arcabouço de fatos que diferenciam os campos político-ideológicos em disputa, parte da cobertura mediática continua a tratar o embate como mera polarização de erros simétricos. Especialistas em comunicação apontam que a retórica sugere falsa equivalência entre agressões diplomáticas, teorias conspiratórias e a defesa de regras multilaterais. Esse enquadramento, na visão de ex-chanceleres brasileiros, “normaliza” posturas que fogem ao padrão civilizado das relações internacionais.

Imagem: Internet
Consultores que acompanham a eleição norte-americana de 2024 lembram, ainda, que o trumpismo se vale justamente da ideia de que “todos os lados erram do mesmo jeito” para relativizar ataques às instituições. Foi assim no episódio que culminou na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, comparado nos Estados Unidos a uma tentativa de golpe.
Próximos passos da diplomacia brasileira
Para além da possível retirada do embaixador brasileiro em Buenos Aires, a chancelaria avalia apresentar queixa formal à Organização dos Estados Americanos (OEA) e ao Mercosul, fórum em que Brasil e Argentina são protagonistas. A medida teria caráter pedagógico: registrar, em ata internacional, a violação de protocolos diplomáticos por parte de Milei e exigir resposta coletiva dos parceiros regionais.
Há ainda discussões técnicas sobre eventuais barreiras sanitárias ou alfandegárias que poderiam ser acionadas contra produtos argentinos, mas auxiliares do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reconhecem que qualquer sanção econômica tende a prejudicar cadeias produtivas brasileiras, sobretudo a indústria automotiva do Sul e Sudeste, hoje integrada à base manufatureira de Córdoba e Santa Fé.
Mercosul interpelado em pleno período de incerteza
A turbulência chega num momento em que o bloco comercial tenta concluir acordo com a União Europeia, travado desde 2019. Diplomatas consideram que a beligerância verbal de Milei dificulta não apenas a convergência interna, mas também a imagem do Mercosul perante Bruxelas, que cobra comprovações de estabilidade política e compromisso socioambiental dos signatários.
Integrantes do governo uruguaio de Luis Lacalle Pou aproveitaram o contexto para reiterar a defesa de acordos bilaterais fora do bloco, tese vista com reservas por Brasil e Argentina. Na avaliação de fontes diplomáticas brasileiras, quanto mais Milei tensiona, maior o risco de a América do Sul perder espaço nas cadeias globais de valor.
Perspectivas para o xadrez eleitoral de 2026
No plano interno, a crise com a Argentina oferece munição retórica tanto a Lula, que tenta se posicionar como fiador da institucionalidade, quanto a Bolsonaro e aliados, que exploram a imagem de Milei como referência de “governo enxuto” e confrontação ao “globalismo”. O PT aposta no potencial de desgaste do argentino, enquanto estrategistas do PL enxergam no confronto externo um palco para reforçar narrativas contra o Supremo e a imprensa.
Com a eleição municipal de 2024 às portas, caciques partidários observam o comportamento de senadores como Flávio Bolsonaro para decidir se embarcam ou não em uma coalizão de extrema direita em 2026. O PSD, que ensaia lançar Caiado, e o União Brasil monitoram pesquisas qualitativas que apontam receio do centro em abraçar pautas radicais – mas também mostram cansaço do eleitorado com promessas de conciliação que tardam a materializar-se.
Risco de normalização da afronta institucional
Para professores de Direito Internacional consultados pela reportagem, a principal preocupação, no curto prazo, não é apenas o dano econômico, mas a possibilidade de que investidas como as de Milei se tornem regra no continente. “Quando um chefe de Estado pode atacar outro sem consequências proporcionais, abre-se espaço para contágio autoritário”, resume um ex-negociador do acordo Mercosul-UE, que pediu anonimato por ainda prestar serviços ao governo.
O desfecho da crise servirá, portanto, de indicador sobre os limites – ou a falta deles – do atual estágio da extrema direita internacional. Enquanto os sinos dobram pela diplomacia, observadores políticos também ouvem o repicar que ecoa em análises jornalísticas dispostas a tratar todos os lados como se estivessem no mesmo patamar de responsabilidade.
