O lançamento de “Elize: Sombras de Uma Mulher” pela Netflix recolocou o nome de Elize Matsunaga nos trending topics e trouxe de volta histórias que o longa não alcança. A trama encerra-se logo após o julgamento pelo homicídio de Marcos Kitano Matsunaga, mas foi dentro da Penitenciária Feminina de Tremembé, no interior paulista, que se desenrolou um dos capítulos mais rumorosos do pós-condenação: o relacionamento de Elize com a detenta Sandra Regina Ruiz Gomes, a Sandrão, e os choques de convivência com Suzane von Richthofen.
Entre grades e celas coletivas, o triângulo formado pelas três presas ganhou repercussão nacional a ponto de virar tema de série documental, livro-reportagem e, agora, conversa nas redes sociais. Relatos de ex-detentas, entrevistas televisionadas e arquivos judiciais indicam que ciúmes, alianças de sobrevivência e estratégias de poder definiram a rotina desse trio improvável.
Do tapete da cobertura à cela compartilhada
Elize foi condenada em dezembro de 2016 a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão por homicídio e ocultação de cadáver do executivo da Yoki. O período de execução da pena iniciou-se no complexo de Tremembé, conhecido por abrigar mulheres envolvidas em crimes de grande repercussão. Na mesma ala já estavam Suzane von Richthofen — sentenciada pelo assassinato dos pais em 2002 — e Sandrão, presa por sequestro.
Primeiro contato com Sandrão
De acordo com depoimentos reunidos na obra “Tremembé”, do jornalista Ullisses Campbell, Elize encontrou em Sandrão alguém que a fez sentir segurança: a condenada mais antiga tinha prestígio entre internas e circulava com desenvoltura entre agentes. O convívio diário transformou-se em afeto e, depois, em namoro. Elas dividiam tarefas domésticas da cela, trocavam bilhetes e cuidavam uma da outra em dias de castigo coletivo, quando a penitenciária restringia banho de sol ou visitas.
Choque de egos com Suzane
Suzane, por sua vez, também demonstrava interesse por Sandrão — segundo relato da própria, concedido a Roberto Cabrini no “Domingo Espetacular” de novembro de 2015. O envolvimento de Elize acirrou a disputa. Guardas contam que discussões eram abafadas antes de virarem agressões físicas, mas o clima seguiu tenso por meses. Numa ocasião, Suzane chegou a acusar Elize de espalhar boatos sobre seu suposto controle financeiro de cantinas internas, o que ampliou a antipatia entre ambas.
Regras não escritas do cárcere
A ala feminina de Tremembé possui rotina rígida: contagem às 6h, café servido em fila, oficinas de costura e artesanato durante a manhã e banhos de sol controlados. Em meio a essa engrenagem, relações amorosas são toleradas desde que não afetem a disciplina. As parceiras, porém, são vigiadas por câmeras e por colegas que veem na delação uma moeda de troca para pequenos favores.
Ciúmes à flor da pele
Nesse contexto, Sandrão dividia lealdade entre Suzane, com quem mantinha convívio mais longo, e Elize, tida como confidente recente. Cartas apreendidas pela administração revelaram trocas de juras e acusações mútuas de “traição”. Um bilhete atribuído a Suzane chamava Elize de “intrusa” e pedia a Sandrão que “escolhesse logo” com quem queria ficar. A direção optou por separar as presas em diferentes celas para evitar que a rivalidade descambasse para violência.
Como o namoro chegou ao público
Apesar da prática comum de relacionamentos no cárcere, o caso ganhou contornos de celebridade por envolver nomes já presentes no imaginário popular. A divulgação partiu de ex-detentas beneficiadas por indulto que, diante dos holofotes, narraram detalhes dos bastidores. Na esteira desses depoimentos, emissoras de TV correram em busca de entrevistas exclusivas, impulsionando a saga além dos muros de Tremembé.
Entrevista decisiva de Sandrão
O ponto alto ocorreu quando Sandrão saiu da prisão e, em rede nacional, descreveu a tensão triangular. Disse que Suzane sentira “ciúmes da rival”, mas minimizou a dimensão romântica do enlace com Elize: “Tornamo-nos grandes amigas”, definiu, reforçando que o vínculo era “mais companheirismo do que paixão”. A fala não impediu a multiplicação de matérias sensacionalistas, que estamparam manchetes sobre “o amor na cadeia mais famosa do Brasil”.

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Renovação do interesse graças ao streaming.
Agora, o filme da Netflix reaviva a curiosidade ao mostrar apenas os eventos até a condenação, deixando uma lacuna natural para quem acompanha a vida da protagonista. Nas redes, internautas questionam por que o roteiro não avança até o período em Tremembé, enquanto criadores de conteúdo compilam vídeos sobre a suposta “rivalidade de abolicionistas carcerárias”.
Séries e livros abastecem o debate.
Além de “Sombras de Uma Mulher”, a série “Tremembé”, recém-chegada ao Prime Video, dramatiza diferentes crimes cometidos por detentas da mesma penitenciária — incluindo Matsunaga, Richthofen e Ana Carolina Jatobá. A produção intercala depoimentos de especialistas e dramatizações que misturam fatos a licenças poéticas. O livro homônimo organiza esses recortes jornalísticos e detalha o cotidiano prisional com dados oficiais: número de visitas, políticas de saúde mental e programas de remição de pena.
Repercussões judiciais e presente de Elize
Após cumprir parte da pena em regime fechado, Elize obteve progressão para o semiaberto em maio de 2022. A Justiça paulista autorizou trabalho externo e visitas periódicas à filha, atualmente sob tutela de parentes paternos. Mesmo em liberdade parcial, ela continua a ser personagem de disputa pública: advogados da família Matsunaga acompanham cada movimento que possa gerar lucro com a própria história, enquanto o Ministério Público avalia eventual violação à Lei 7.210, que limita vantagens econômicas derivadas do crime.
Possível segunda temporada?
A Netflix não confirma continuidade, mas o enredo carcerário — recheado de adversárias famosas, paixões proibidas e disputas jurídicas — permanece à disposição de roteiristas. Caso avance, o streaming precisará equilibrar fidelidade documental e respeito às vítimas, tema sensível em adaptações de crimes reais.
Por que o público ainda se fascina
Especialistas em criminologia apontam que o fascínio se sustenta no contraste: mulheres de classe média ou alta, formadas e com futuro promissor, protagonizam delitos associados, historicamente, a homens violentos e a contextos de marginalização masculina. Quando elas se cruzam em um mesmo presídio, a curiosidade dobra: é como se a sociedade, chocada com cada caso individual, buscasse entender o que acontece quando esses nomes dividem o mesmo espaço.
Impacto na discussão sobre sistema prisional
O revival também reacende debates sobre superlotação, assistência psicológica e políticas de reinserção. Na Penitenciária Feminina de Tremembé, onde a capacidade é de 250 vagas e a lotação ultrapassa 350 internas, histórias como as de Elize e Suzane ganham atenção, mas obscurecem desafios comuns às detentas anônimas.
O que ainda está por vir
A defesa de Elize pleiteia progressão para o regime aberto até 2026, contanto que não haja faltas disciplinares. Já Suzane alcançou a liberdade condicional em janeiro de 2023 e abriu uma loja virtual de artesanato. Sandrão, solto desde 2018, vive longe dos holofotes, mas seu depoimento segue requisitado por produtores de conteúdo. Com ou sem continuação oficial, a vida pós-condenação desse trio permanece alimentando pautas criminais, séries dramáticas e a curiosa memória coletiva dos brasileiros.
