Quatro dias após vendaval, 4 mil imóveis do Rio seguem sem luz e Light vira alvo de ação judicial

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    Quatro dias depois do vendaval que derrubou árvores, postes e deixa rastros em todo o Grande Rio, cerca de 4 mil unidades consumidoras atendidas pela Light continuam no escuro. A persistência do apagão provocou protestos em Bangu, acendeu o alerta de comerciantes e levou a Defensoria Pública do Estado a mover uma ação civil contra a concessionária.

    Enquanto hospitais e redes de abastecimento foram religados com prioridade, moradores da Zona Oeste relatam perdas de medicamentos, alimentos e dificuldades com equipamentos de suporte à vida. A Light afirma já ter reconectado 1,1 milhão de clientes afetados pela tempestade e diz estar na fase final dos reparos.

    Vias bloqueadas e cabos no chão

    A Zona Oeste concentra a maioria das 4 mil ligações ainda inativas. Em Bangu, moradores fecharam trechos da Rua dos Açudes e de vias adjacentes queimando entulho para pressionar a empresa. Muitos cabos permanecem rompidos desde a noite de quarta-feira, quando rajadas de vento que passaram de 80 km/h provocaram apagão em diversos bairros.

    Na mesma rua, a aposentada Ivone Santana Pereira cuida da irmã de 74 anos, dependente de uma cama hospitalar elétrica. “Sem energia, para alimentá-la ou dar banho preciso de ajuda de vizinhos; ficou tudo mais complicado”, descreve. A rotina se repete em outros pontos do bairro, onde geradores improvisados e velas ainda substituem a iluminação pública.

    Perda de medicamentos e alimentos

    O dano financeiro provocado pela interrupção é sentido desde residências até pequenos negócios. Diabética, a pensionista Marlene Franco perdeu toda a insulina armazenada na geladeira. O material só foi reposto graças a uma doação obtida numa clínica da família. “Jogar fora foi doloroso, porque alguém vai ficar sem o remédio que agora eu preciso de novo”, lamenta.

    Também aposentada, Alba Valéria Machado calculou prejuízos entre medicamentos de uso contínuo, carnes e outros alimentos estragados: “Frango, carne, colírio, insulina… tudo virou lixo”. Segundo ela, a falta de comunicação clara sobre o prazo de restabelecimento agrava a sensação de abandono.

    Comércio no prejuízo

    A empresária Arlene Franco, dona de uma fábrica de salgados congelados na região, estima ter perdido quase todo o estoque montado para atender a alta na demanda do último mês. “Comprei freezer novo, investi em matéria-prima. Quatro dias sem luz significam dinheiro devolvido a cliente e mercadoria descartada”, conta. Alguns consumidores, diz Arlene, duvidavam que o bairro ainda estivesse às escuras.

    Campo Grande também sem previsão

    A aproximadamente dez quilômetros de Bangu, ruas de Campo Grande apresentam o mesmo cenário: fios caídos sobre calçadas e postes partidos. Moradores calculam mais de 72 horas sem fornecimento. Caminhões da Light percorrem as principais avenidas, mas em vielas internas equipes de reparo passaram apenas para avaliação inicial, segundo relatos.

    Defensoria vai à Justiça e cobra plano de ação

    Neste sábado, a Defensoria Pública do Rio ingressou com ação civil pública contra a Light. O órgão alega que a concessionária não apresentou detalhes satisfatórios de seu plano de contingência nem estimativa concreta para reativar o serviço por completo. A petição aponta risco à saúde de pessoas que dependem de aparelhos elétricos, prejuízo ao abastecimento de água e danos morais coletivos.

    Entre os pedidos estão:

    • Apresentação, em até 24 horas, de cronograma detalhado para religar todas as unidades ainda sem energia;
    • Indenização por danos morais coletivos a ser revertida em políticas públicas de prevenção a desastres;
    • Multa diária caso o plano não seja cumprido nos prazos estipulados pela Justiça.

    O que diz a Light

    Em nota, a Light garante que o evento climático ultrapassou os parâmetros previstos para a rede, mas que o plano de contingência “foi executado nos prazos adequados a um fenômeno dessa magnitude”. De acordo com a empresa:

    1. Hospitais, unidades de saúde, delegacias e clientes que utilizam equipamentos de suporte à vida foram priorizados nas primeiras 48 horas;
    2. Mais de 1,1 milhão de ligações já foram normalizadas desde a noite de quarta-feira;
    3. Equipes extras de manutenção, inclusive terceirizadas, seguem mobilizadas para concluir os reparos remanescentes, sobretudo na Zona Oeste.

    A concessionária não forneceu previsão exata de quando os 4 mil clientes restantes terão a energia restabelecida, mas informou que atualiza o status em tempo real em seu aplicativo e na Central 0800.

    Impacto em serviços essenciais

    A paralisação elétrica afetou o bombeamento de água em pelo menos três estações da Cedae, segundo fontes do setor de saneamento, levando a oscilações no abastecimento de bairros da Baixada Fluminense e da capital. Clínicas particulares relataram atraso em exames que dependem de aparelhos refrigerados, embora a maioria conte com geradores próprios.

    Especialistas em proteção civil destacam que ventos fortes como os registrados esta semana tendem a se repetir com maior frequência devido às mudanças climáticas. Para o professor de engenharia elétrica Renato Ferreira, da UERJ, “eventos extremos exigem redes mais resilientes e protocolos de comunicação transparentes com a população”.

    Moradores cobram respostas

    Nas redes sociais, hashtags com o nome do bairro e a palavra “luz” ganharam força entre quinta e sexta-feira. Vizinhos organizam mutirões para compartilhar alimentos que ainda podem ser consumidos e monitorar idosos sozinhos. “A energia volta num trecho, apaga em outro, e ninguém explica nada”, reclama o motorista de aplicativo Paulo de Souza, de Campo Grande.

    Já a idosa Ivone Santana, que cuida da irmã acamada, mantém a esperança de que a energia retorne antes da próxima madrugada. “A gente não dorme com calor e preocupação. Só quero ligar a cama e o ventilador”, diz. Até o fim da tarde de sábado, porém, não havia sinal de que os cabos na Rua dos Açudes receberiam reparo imediato.

    Próximos passos na Justiça

    O processo movido pela Defensoria foi distribuído para a 6ª Vara Empresarial da Capital. O juiz responsável pode determinar audiência de conciliação ou conceder liminar obrigando a Light a cumprir os pedidos. Caso haja descumprimento, as multas poderão ser elevadas gradualmente, além da possibilidade de bloqueio de receitas da distribuidora.

    Enquanto a disputa judicial avança, moradores aguardam a reativação das últimas linhas de extensão da rede. A previsão do Centro de Operações do Rio indica tempo firme no domingo, o que deve favorecer o trabalho das equipes. Até lá, 4 mil casas, comércios e pequenos empreendimentos seguem dependendo da mesma esperança: ver a luz voltar.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.