Moradores de Manaus viveram minutos de apreensão na tarde desta segunda-feira (10) quando lustres, persianas e até divisórias de escritórios começaram a balançar. O abalo não tinha origem na Amazônia, mas a mais de 2 mil quilômetros dali: um terremoto de magnitude 7,4 sacudiu o oeste da Colômbia e, mesmo atenuado, suas ondas sísmicas alcançaram a capital amazonense.
Apesar do susto, especialistas garantem que o fenômeno era esperado em termos científicos e não representa risco estrutural significativo para os edifícios manauaras. A propagação do tremor até o Norte do Brasil está ligada à configuração tectônica colombiana e às camadas profundas do subsolo de Manaus, que amplificam a sensação de balanço, sobretudo nos andares mais altos.
Tremor de 7,4 sacode o oeste colombiano
O terremoto ocorreu às 14h32 (horário de Brasília), com epicentro em San José del Palmar, departamento de Chocó, a 110 km de profundidade, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Foi o evento sísmico mais forte registrado na Colômbia na última década.
O governo colombiano confirmou 111 mortes e 87 feridos. Ao menos 61 edifícios e 37 casas ruíram parcial ou totalmente, deixando pessoas presas sob escombros. Equipes de resgate trabalham com cães farejadores e equipamentos pesados na busca por sobreviventes, enquanto réplicas — a principal de magnitude 5,0 — dificultam a operação.
Por que o abalo foi percebido em Manaus?
Embasamento rochoso transporta energia a longas distâncias
De acordo com o geólogo e especialista em engenharia geotécnica Adnilson Cruz da Silva, San José del Palmar situa-se na zona de convergência entre a placa de Nazca e a Placa Sul-Americana. A colisão dessas placas gera terremotos profundos cujas ondas se deslocam pelo embasamento rochoso — a “base” sólida que sustenta solos e sedimentos.
Esse tipo de rocha é pouco deformável e, por isso, conduz a energia sísmica com menor dissipação. “As ondas viajam como num corredor rígido, atravessando centenas de quilômetros até atingirem regiões bem distantes do epicentro”, explica Silva.
Profundo pacote sedimentar na bacia amazônica amplia a sensação
O solo da capital amazonense repousa sobre a Formação Alter do Chão, conjunto de sedimentos que pode ultrapassar 1,5 km de espessura. Quando as ondas vindas do embasamento rochoso alcançam essa camada mais macia, parte da energia é convertida em vibrações de baixa frequência, percebidas pelo ser humano.
“É como se a bacia atuasse como uma caixa de ressonância”, afirma o geólogo. O resultado foi o tremor sentido principalmente em apartamentos acima do oitavo andar, onde a oscilação chega a ficar visualmente evidente.
Ressonância nos prédios: susto sem ameaça de colapso
Vídeos gravados em condomínios de bairros centrais de Manaus mostram lustres oscilando e cortinas batendo nas janelas. O fenômeno é explicado pela chamada ressonância estrutural: os prédios altos vibram em sua frequência natural quando recebem ondas de baixa frequência vindas do solo, comportando-se como “pêndulos invertidos”.
Segundo Silva, o movimento é elástico e as estruturas tendem a retornar à posição original assim que a energia se dissipa. “Não é sinal de dano. As construções são dimensionadas para suportar ações de vento, previstas na norma brasileira NBR 6123, que exige margens de segurança capazes de absorver vibrações equivalentes às geradas por tremores remotos”, conclui.

Imagem: Internet
Impactos diretos na região amazônica
O Corpo de Bombeiros do Amazonas recebeu nove chamados relatando tremores em diferentes zonas da cidade. Um prédio comercial no Centro chegou a ser evacuado por precaução, mas, após vistoria, não foram identificados danos em vigas ou pilares. Não houve registro de feridos ou de interrupção de serviços essenciais.
Na avaliação da Defesa Civil estadual, a distância de aproximadamente 2 200 quilômetros entre Manaus e o epicentro fez com que apenas vibrações secundárias — e não ondas destrutivas — alcançassem a capital.
Resposta das autoridades colombianas
O presidente Gustavo Petro determinou estado de emergência nas áreas mais afetadas. Forças militares, Cruz Vermelha e equipes de busca internacionais foram mobilizadas para apoiar as tarefas de salvamento. Abrigos temporários estão sendo montados em estádios e escolas de Chocó, Cáli e Medellín para receber desabrigados.
As autoridades alertam para o risco de novos deslizamentos de terra, comuns na cordilheira Ocidental após chuvas intensas. Especialistas seguem monitorando réplicas, que tendem a diminuir nas próximas 48 horas, mas ainda podem atingir magnitudes acima de 4,0.
O que dizem os sismólogos sobre futuros abalos
Terremotos desse porte liberam parte da energia acumulada na fronteira entre as placas tectônicas, reduzindo temporariamente o estresse sísmico local. No entanto, isso não zera o risco de novos eventos de grande magnitude, já que a movimentação tectônica é contínua.
Sismólogos recomendam que países andinos mantenham planos de evacuação atualizados e reforcem a aplicação de normas de construção em áreas sujeitas a abalos. No Brasil, mesmo longe das zonas de convergência, edifícios altos em estados do Norte e do Centro-Oeste podem voltar a sentir vibrações vindas de tremores distantes, cenário que reforça a importância de monitoramento constante.
Recomendações de segurança para a população amazônida
- Mantenha a calma ao perceber vibrações leves; elas costumam ser de curta duração.
- Em caso de oscilação forte, afaste-se de janelas e objetos que possam cair.
- Siga orientações do síndico ou da brigada do edifício para eventual evacuação ordenada.
- Após o tremor, verifique se há rachaduras anormais nas paredes e, se necessário, acione a Defesa Civil.
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília continuam analisando os registros do evento colombiano. Até o momento, não há indicação de risco para a estabilidade de solo ou estruturas na região de Manaus.
