Um terremoto de magnitude 7,4 sacudiu o oeste colombiano às 7h34 desta segunda-feira (10) e transformou o início da semana em tragédia nacional. O balanço oficial até o fim da noite indica 111 mortos, pelo menos 370 feridos e mais de 70 edificações completamente destruídas, entre casas, prédios residenciais e estruturas históricas.
O epicentro foi localizado próximo a San José del Palmar, zona rural da cordilheira ocidental. O abalo durou 96 segundos — tempo suficiente para ser sentido em Bogotá, Medellín, Cali e até nos países vizinhos. Em algumas regiões, os tremores secundários estenderam a sensação de instabilidade por até quatro minutos.
Horas de pânico e destruição
Em Cali, terceira maior cidade do país, dois edifícios se deslocaram dos alicerces; um deles ruiu por completo antes da chegada do Corpo de Bombeiros. Moradores improvisaram linhas de resgate usando baldes para remover escombros enquanto esperavam ajuda profissional. Partes do teto de uma unidade de saúde caíram, forçando a evacuação de pacientes para a calçada.
Imagens que circularam nas redes mostram fiéis correndo quando a torre de uma igreja histórica desabou. Na cidade de Pereira, uma construção deu sinais de instabilidade e, poucos segundos depois, veio abaixo em meio a uma nuvem de poeira. O cenário se repetiu em diversos pontos do eixo cafeeiro: ruas cobertas de destroços, fachadas rachadas e postes retorcidos.
Alertas que salvaram vidas — e falharam para alguns
O sistema colombiano de alerta antecipado enviou notificações sonoras e visuais para celulares poucos segundos antes do choque principal. O engenheiro brasileiro Anderson Alves, de férias em Medellín, conta que a mensagem orientando a procurar abrigo soou decisiva: “Deu tempo de sair da cama, ficar sob o batente da porta e avisar meu grupo. Foram segundos que, acredito, salvaram vidas”, relatou.
Nem todos receberam o aviso. A analista de sistemas Juliana Cristina Silva Salomé e o namorado despertaram com o balanço violento do prédio: “Abrimos os olhos, a cama tremia, as janelas vibravam. Só consegui dizer: ‘É um terremoto’”, lembra. A falha pontual no envio de alertas está sendo investigada pelo Ministério da Tecnologia, que ativou plano emergencial para manter as telecomunicações caso ocorram novos abalos.
Resposta imediata do governo
Três dias após tomar posse, o presidente Abelardo de la Espriella sobrevoou as áreas afetadas e instalou, em Bogotá, um comitê de crise com a Unidade Nacional de Gestão de Risco de Desastres. “A prioridade é localizar sobreviventes sob os escombros e garantir abrigo, água e energia às comunidades atingidas”, declarou. Todos os recursos federais e militares foram mobilizados.
Hospitais de campanha foram erguidos em estacionamentos de Cali, enquanto Medellín, que dispõe de rede hospitalar mais robusta, passou a receber feridos graves. Equipes de resgate de todo o país convergiram para o eixo Caldas-Quindío-Risaralda, onde o colapso estrutural foi mais severo.
Ajuda internacional
Os Estados Unidos anunciaram o envio de 15 milhões de dólares em assistência humanitária, junto com especialistas em busca e salvamento urbano. O México ofereceu cães farejadores e equipamentos de detecção acústica. Em nota oficial, o governo brasileiro manifestou “profundo pesar” e colocou à disposição equipes de Defesa Civil e expertise em engenharia estrutural.

Imagem: Internet
Risco de réplicas e cuidados permanentes
Nas 12 horas seguintes ao tremor principal, o Serviço Geológico Colombiano registrou 21 réplicas, nenhuma acima de 5,0 graus, mas suficientes para manter a população em alerta. Autoridades recomendam permanecer longe de construções danificadas e checar rachaduras em lajes, vigas e colunas antes de reocupar imóveis.
Geólogos reforçam que este foi o terremoto mais forte na Colômbia em uma década. A profundidade superior a 100 km, porém, evitou um quadro ainda mais catastrófico. “Se o hipocentro estivesse a apenas dez quilômetros, como o de 24 de junho na Venezuela, o número de vítimas seria exponencial”, avaliou Dean Whitman, professor da Universidade Internacional da Flórida.
Comparação com a tragédia venezuelana
O abalo desta segunda ocorre menos de dois meses depois da sequência sísmica que matou 6,3 mil pessoas na Venezuela. Apesar da proximidade geográfica, Whitman explica que os fenômenos têm origens distintas: enquanto o tremor colombiano resulta da interação entre a placa de Nazca e o bloco continental sul-americano, o venezuelano foi provocado por movimentos ao longo da borda sul do mar do Caribe.
Reconstrução e desafios à frente
Com milhares de famílias desalojadas, o governo prevê liberação de verbas emergenciais para moradia provisória, reparo de infraestrutura e reconstrução de monumentos históricos. Engenheiros do Exército iniciaram vistorias em pontes e estradas secundárias que ligam regiões montanhosas e foram parcialmente bloqueadas por deslizamentos.
A tragédia impõe ainda o desafio de retomar aulas, suspensas em toda a rede estadual, e restaurar o fornecimento de energia em áreas rurais que dependem de pequenas centrais hidroelétricas danificadas. Em Bogotá, uma campanha de doação de sangue mobiliza voluntários em filas que dobram as esquinas dos hospitais.
Solidariedade e cautela
As autoridades reiteram que o período crítico não terminou. Réplicas de menor intensidade podem comprometer estruturas já abaladas. O Ministério da Saúde alerta para o risco de surtos de doenças respiratórias nos abrigos temporários e recomenda vacinação antitetânica para voluntários que atuam em escombros.
Enquanto isso, gestos de solidariedade se multiplicam. Redes de supermercados anunciaram a doação de cestas básicas, empresas de telefonia liberaram ligações gratuitas e aplicativos de transporte oferecem corridas sem custo para deslocamento até pontos de doação. Em meio à destruição, a resposta coletiva se transforma na principal força da Colômbia para enfrentar aquela que já é considerada a pior catástrofe natural do país neste século.
