Uma semana depois de o soldado Raphael Sampaio da Silva, 27 anos, aparecer morto e carbonizado dentro de um carro incendiado na Grande Fortaleza, a investigação já soma três prisões: a policial militar Júlia Natália Girão Gomes, colega de batalhão da vítima; o marido dela, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior; e o advogado que defendia a soldado. Mesmo assim, a Polícia Civil ainda não detalhou o papel de cada um nem apresentou a motivação do crime.
Os investigadores apontam contradições nos depoimentos da PM, encontraram registros de câmeras que a colocam em locais diferentes daqueles que ela descreveu e já apreenderam um segundo veículo suspeito de ser usado na ação. A Delegacia de Homicídios contra Agentes de Segurança Pública (DHASP) mantém o caso sob sigilo para esclarecer a sequência de acontecimentos que terminou com o corpo do militar dentro de um automóvel em chamas.
O crime e a descoberta do corpo
A manhã de 11 de agosto foi marcada por uma ligação de moradores do bairro Ancuri, na divisa entre Fortaleza e Itaitinga, para o Corpo de Bombeiros. Um carro ardia em chamas em uma via pouco movimentada. Após o fogo ser controlado, peritos encontraram o corpo carbonizado de Raphael Sampaio no banco do motorista. Exames preliminares indicaram ferimentos por arma de fogo antes da combustão.
Raphael integrava a Polícia Militar do Ceará desde junho de 2022 e estava lotado na 2ª Companhia do 16º Batalhão – a mesma em que trabalha Júlia Natália. O soldado havia saído de serviço poucas horas antes do crime.
Linha do tempo das prisões
Júlia Natália passa de vítima a suspeita
No dia seguinte ao homicídio, a PM não foi localizada em casa nem atendeu às ligações do comando. Horas depois, moradores de um distrito de Aquiraz afirmaram que ela surgiu de um matagal pedindo socorro e dizendo ter sido sequestrada pelos mesmos homens que executaram Raphael. À primeira vista, a soldado foi tratada como refém.
O relato, porém, começou a ruir quando câmeras de segurança mostraram Júlia às 6h30 daquele dia na oficina do marido, no mesmo horário em que ela alegava estar amarrada no porta-malas de um veículo. Outro vídeo exibe o casal deixando a filha na escola minutos depois. Confrontada, a militar preferiu o silêncio em novo depoimento. Foi presa em flagrante e, na audiência de custódia, teve a prisão convertida em preventiva, sem prazo para expirar.
Marido vira alvo por suspeita de coautoria
Antoneudo Ribeiro Lima Júnior foi detido no mesmo 11 de agosto, inicialmente por posse de munição e documentos falsos encontrados na oficina. Na audiência de custódia, o juiz relaxou o flagrante, mas acatou o pedido da polícia e decretou prisão temporária de 30 dias por suspeita de participação no homicídio.
O histórico do marido pesou: ele responde a processos por estelionato, lavagem de dinheiro, posse irregular de arma e formação de organização criminosa ligada à venda de contas falsas para motoristas de aplicativo — esquema em que, segundo o Ministério Público, Júlia atuava como colaboradora.
Celular leva advogado para a delegacia
Na manhã de 14 de agosto, o advogado Walmir Medeiros foi surpreendido ao deixar o parlatório em que conversava com Júlia no 7º Núcleo de Custódia, em Maracanaú. Agentes penitenciários alegam que ele tentou repassar um telefone celular à cliente. O defensor sustenta que esqueceu o próprio aparelho sobre a mesa e que a soldado, sem autorização, fez uma ligação de oito minutos para a sogra.
Medeiros — coronel da reserva do Exército e conhecido por atuar em processos de policiais — assinou Termo Circunstanciado de Ocorrência por facilitar a comunicação de detentos e foi liberado, mas permanece sob investigação administrativa pela OAB.

Imagem: envolvimento na morte de policial enct
Possível motivação e contradições
Familiares de Raphael contaram à polícia que o soldado mantinha, desde março deste ano, um relacionamento extraconjugal com a colega de farda. A tia da vítima, Rosilane Sampaio, confirmou ter visto fotos do casal no celular do sobrinho, mas ponderou não acreditar que a traição, por si só, justificasse o assassinato. “Ninguém merece morrer por causa disso”, declarou.
A polícia trabalha com a hipótese de crime passional aliado a algum desentendimento profissional ou financeiro, mas nenhum cenário foi oficialmente confirmado. Também não há informação divulgada sobre quem atirou no soldado, quem conduziu o carro até Ancuri ou quem ateou fogo.
Além dos vídeos que desmentiram o suposto sequestro, peritos coletaram vestígios de combustível em roupas e encontraram manchas de sangue no imóvel do casal. O conteúdo dos laudos, porém, segue protegido por sigilo judicial.
Veículo apreendido amplia quebra-cabeça
Na tarde de 14 de agosto, policiais civis localizaram um automóvel estacionado próximo à Avenida Washington Soares, em Fortaleza. Testemunhas relataram ter visto o carro circulando perto da cena do crime na madrugada do dia 11. O veículo foi periciado no local e rebocado para o pátio da DHASP.
As autoridades não informaram quem figura como proprietário no registro, mas confirmaram que imagens de câmeras de trânsito devem ajudar a mapear o percurso feito antes e depois da morte de Raphael.
Próximos passos da investigação
Com as prisões mantidas, a equipe da DHASP concentra esforços em:
- analisar dados de telefonia e GPS dos suspeitos;
- concluir exames balísticos para ligar a arma usada ao casal ou a terceiros;
- ouvir novas testemunhas, inclusive colegas de batalhão que trabalharam com Raphael na madrugada do crime;
- identificar eventuais cúmplices que possam ter participado da execução ou da queima do veículo.
Procurada, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social informou que “a apuração avança em várias frentes para esclarecer a motivação e individualizar as condutas”. O inquérito deve ser concluído nas próximas semanas, podendo haver prorrogação da prisão temporária de Antoneudo caso a polícia apresente novos elementos.
Enquanto isso, a família de Raphael, que aguarda a liberação do resultado final da necropsia, organizou homenagens e cobra agilidade. “Queremos justiça e explicações”, resume o irmão do soldado.
