Rodrigo Faro admite obsessão por ibope e fala da volta à Globo no streaming

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Rodrigo Faro fez um acerto de contas público com o próprio passado na televisão. Em entrevista ao programa Olho no Olho, o apresentador admitiu que, em fases da carreira, deixou a busca obsessiva pelos números de audiência afetar a própria tranquilidade — e resumiu o comportamento com uma palavra só: vaidade. Aos 52 anos, quase dois anos longe da TV aberta, ele vive o momento oposto: está de volta ao grupo Globo, mas pelo streaming, comandando o reality Herança em Jogo, no Globoplay, em um ritmo que ele mesmo descreve como muito mais compatível com a fase atual da vida.

A confissão chama atenção porque vem de um dos apresentadores que mais viveram a guerra dos domingos na TV brasileira. Durante mais de uma década, Faro disputou ponto a ponto a vice-liderança dominical, celebrou vitórias e amargou derrotas semanais. Ao olhar para trás, o tom agora é outro: o de quem reconhece que a perseguição por décimos de ibope virou uma armadilha e cobrou um preço pessoal que não aparecia nas planilhas de audiência.

‘Pirei por audiência’

Na entrevista, Faro contou que chegou a “pirar” por audiência. Segundo o apresentador, houve momentos em que a necessidade de validação constante pelos números tomou conta da rotina e tirou a sua paz: cada resultado virava motivo de euforia ou de frustração, em um ciclo que se repetia semana após semana. A avaliação que ele faz hoje é direta: “Era vaidade”. Para o apresentador, o excesso de foco na repercussão comercial pode cegar o profissional para os momentos simples da vida, aqueles que não cabem em nenhum relatório de ibope.

A reflexão não é isolada no meio televisivo. Apresentadores que construíram carreiras em programas de auditório costumam descrever a mesma pressão: o resultado de domingo definia o humor da semana inteira e, muitas vezes, o valor do profissional dentro da emissora. Não por acaso, o tema também apareceu recentemente em outra conversa franca de um nome consagrado dos domingos: Celso Portiolli quebrou o silêncio sobre o futuro na TV e falou abertamente dos rumores envolvendo seu nome, em mais um sinal de que a geração que dominou a TV aberta anda repensando a relação com a exposição e com os números.

A era dos domingos na Record

Faro chegou à Record em 2008, depois de iniciar a carreira como ator na Globo, e assumiu o Ídolos, versão brasileira do formato de calouros. No mesmo ano, passou a comandar O Melhor do Brasil, programa que o transformou em fenômeno popular com quadros como o Vai Dar Namoro e o Dança, Gatinho, em que ele se caracterizava como artistas pop e virava assunto nacional a cada sábado. Em 2012, apresentou ainda A Fazenda de Verão, e, a partir de 2014, o programa mudou de dia e de nome: virou Hora do Faro, aos domingos.

Foi nesse período que a obsessão pelos números se instalou de vez. Nos domingos, Faro travou uma das rivalidades mais longas da TV recente, contra o Programa Eliana, do SBT: os dois se alternaram na vice-liderança por anos, comemoraram vitórias publicamente e transformaram cada confronto em notícia. O apresentador ainda comandou o Canta Comigo, entre 2021 e 2024, antes de encerrar o ciclo na Record no fim de 2024. Desde então, somam-se quase dois anos longe da TV aberta — um hiato que, para quem trabalhou de domingo a domingo durante décadas, representou uma mudança radical de rotina.

A volta à Globo pelo streaming

O retorno ao grupo Globo, 18 anos depois de sua saída da emissora, não aconteceu pela porta que muita gente imaginava. Em vez de um programa na TV aberta, Faro estreou no streaming: Herança em Jogo, reality original do Globoplay, chegou à plataforma em 25 de setembro e já exibiu sua primeira temporada completa, com dez episódios. No formato, 13 participantes convivem em uma mansão e disputam a herança deixada por “A Falecida”, personagem de Susana Vieira, em um prêmio que pode chegar a R$ 1 milhão em barras de ouro.

O projeto marca uma virada na trajetória do apresentador porque une as duas paixões profissionais dele: apresentar e atuar. Além de conduzir as provas e as dinâmicas, Faro interpreta o Testamenteiro, o guardião do testamento responsável por garantir que tudo o que está no documento seja cumprido. Outra diferença importante em relação à TV aberta é a ausência de eliminações por votação popular: sem depender do julgamento do público a cada semana, os participantes arriscam mais no jogo — e o apresentador, por sua vez, trabalha sem a pressão do resultado de audiência no dia seguinte.

Para Faro, o formato se encaixa no estágio atual da vida dele justamente por exigir menos da dinâmica frenética que ditou sua rotina por anos. É uma volta calculada: nome conhecido do grande público, mas em um ambiente em que o sucesso se mede por repercussão e permanência no catálogo, não por décimos de ibope disputados ao vivo.

Saudade da TV, mas novelas, não

Nem tudo, porém, é distanciamento. Em aparição recente em um evento em São Paulo, o apresentador confessou que sente falta da rotina diante das câmeras e estranha a agenda mais vazia: depois de uma vida inteira trabalhando de domingo a domingo, olhar para a semana e não encontrar compromissos ainda é uma sensação nova. A saudade, no entanto, tem limite claro: as novelas. Faro revelou que recebeu convites para voltar a atuar em folhetins, mas recusou todos, porque não quer mudar a família para o Rio de Janeiro. “Novela não dá”, resumiu.

A decisão por priorizar a família em vez de um papel na TV não é só dele. O mesmo movimento apareceu do outro lado da telinha: Nicolas Prattes recusou o papel na próxima novela das 19h da Globo para não ficar longe do primeiro filho com Sabrina Sato, em uma escolha que mostra como uma nova geração de artistas também anda colocando a vida pessoal na frente da grade de programação.

No fim das contas, a entrevista ao Olho no Olho desenha um Rodrigo Faro diferente daquele que o público acompanhou por décadas: menos refém dos números, mais seletivo com os projetos e disposto a dizer em voz alta o que muita gente da TV só admite nos bastidores. A obsessão por audiência, que ele hoje chama de vaidade, ficou no passado. O presente é um reality de streaming, um personagem para interpretar e uma carreira administrada em outro ritmo — sem pressa de provar nada para o ibope.

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Chris Parker é editor do Espia do Reality e responsável pela cobertura de reality shows: A Fazenda, BBB, Roças, eliminações, provas e bastidores — notícias em tempo real com contexto do que acontece dentro e fora do jogo.