No aniversário de 372 anos de Sorocaba, a fogueira que uma vez juntava vizinhos para contar causos foi trocada pela luz das telas. Grupos e perfis em redes sociais se transformaram em grandes rodas de conversa onde moradores dividem fotografias, descobrem a origem de ruas e reencontram amigos de infância.
Somados, esses espaços virtuais já atraem mais de 250 mil pessoas. De postagens sobre a antiga Viação Manchester a encontros presenciais de ex-moleques da Vila Santana, o resultado é um enorme acervo colaborativo que mantém vivas histórias que, até pouco tempo atrás, dependiam apenas da memória oral.
Sorocaba Antiga: quando o feed vira museu
O comerciante Sérgio Gomes Rodrigues Ribeiro, natural de Itapeva e morador de Sorocaba há mais de duas décadas, criou em 2016 o perfil Sorocaba Antiga. Entre Facebook e Instagram, quase 70 000 seguidores acompanham imagens de praças, fábricas e velhas construções garimpadas pelo administrador em livros, sites especializados e acervos digitais.
A ideia surgiu numa visita ao Mercado Municipal, local que o fez perceber a riqueza arquitetônica da cidade. Hoje, as postagens do perfil vão além dos cartões-postais: mostram a abertura de novos bairros, a evolução da malha viária e, principalmente, as pessoas que construíram essas paisagens. “Quero que quem passa pelo centro ou por uma vila afastada possa entender quem pisou ali antes”, diz o comerciante.
Ônibus, catracas e engajamento recorde
O maior pico de participação no feed veio de uma série sobre o transporte coletivo dos anos 1980, época em que a Viação Manchester – a popular Vima – era sinônimo de ônibus amarelo nas ruas sorocabanas. As fotos dos velhos veículos renderam milhares de comentários de ex-motoristas, cobradores, passageiros e até herdeiros de fundadores da empresa, evidenciando o elo afetivo entre mobilidade e memória urbana.
“Em Sorocaba Tem”: aula de história em vídeos curtos
A administradora Dany Jacinto estreou o perfil Em Sorocaba Tem em 2021 para divulgar pequenos negócios afetados pela pandemia. O conteúdo mudou de rumo quando o filho apareceu com uma lição sobre o significado dos nomes das ruas. Desde então, ela mergulhou na pesquisa local e transformou curiosidades históricas em vídeos de menos de um minuto que alcançam 140 000 seguidores.
Sem formação acadêmica em história, Dany consulta arquivos públicos, jornais antigos e depoimentos de moradores para falar de bairros como Santa Rosália, Campolim e Piazza di Roma. Ao explicar, por exemplo, que Vila Hortência cresceu com a chegada de imigrantes espanhóis no fim do século XIX, ela recebeu centenas de mensagens de descendentes agradecendo pela lembrança. “Ensino e aprendo ao mesmo tempo”, afirma.
Conexão emocional com o endereço
Segundo a influenciadora, a reação mais comum acontece quando alguém descobre que a rua onde mora leva o nome do bisavô de um amigo ou relembra a festa junina da antiga paróquia. “É como se cada esquina ganhasse rosto”, explica. O resultado são comentários que completam a narrativa e, muitas vezes, sugerem novos temas de pesquisa.
Vila Santana: da rua de terra ao grupo com 3 500 pessoas
Em 2017, o empresário Cláudio Barboza decidiu reunir no Facebook os amigos que brincavam de bola na rua Dom Pedro II, na Vila Santana, nos anos 1960 e 1970. Esperava cerca de 30 adesões; em poucas horas, o grupo Amigos de Infância da Vila Santana dos Anos 60 e 70 explodiu para 600 membros e hoje ultrapassa 3 500.

Imagem: Internet
Para entrar, é preciso responder perguntas que comprovem ter vivido no bairro. A medida mantém o foco em memórias coletivas: fotos de formatura, convites de casamento, relatos de quando a luz acabava e todo mundo corria para a calçada. O sucesso virtual saiu da tela: encontros temáticos já reuniram 200 participantes, o último deles em 2025, além de almoços mensais organizados por pequenos subgrupos.
Do feed para o churrasco
Barboza conta que, nos encontros presenciais, as histórias se misturam. Gente que antes trocava apenas comentários no Facebook passa horas folheando álbuns, reconhecendo antigos vizinhos e, por vezes, prestando homenagens a quem já partiu. “Viramos uma extensão da velha rua, só que maior”, resume.
Lembranças Sorocabanas: 33 000 arquivos à espera de catalogação
Outro guardião da memória coletiva é o programador Adriano Koboyama, administrador do grupo Lembranças Sorocabanas. Há dez anos, ele permite a publicação livre de fotos e relatos, hábito que garantiu mais de 42 000 membros e um acervo estimado em 33 000 imagens.
O volume crescente despertou uma preocupação: organizar o conteúdo antes que se perca no mar de postagens. Koboyama estuda criar um perfil dedicado apenas ao resgate, com datas, locais e palavras-chave padronizadas. “Já não é mais só nostalgia; virou documento histórico”, afirma.
Da tradição oral ao HD: desafios e potencial
Os quatro casos mostram fases diferentes de uma mesma tendência: a migração da memória oral para o espaço digital. Se, por um lado, a internet multiplica o alcance dessas histórias, por outro cria o desafio de preservação a longo prazo. Arquivos podem ser apagados, redes saem de moda e perfis pessoais dependem da disposição de voluntários.
Ainda assim, moradores de Sorocaba continuam gravitando em torno dessas rodas virtuais. Seja para descobrir que o terreno onde viveu abrigou um campo de futebol, seja para matar a saudade do ônibus cor de creme, cada postagem reativa lembranças e constrói um grande mosaico colaborativo da cidade.
