A entrada de R$ 264,4 bilhões nos cofres da União em junho consolidou o melhor desempenho mensal para esse período do ano em toda a série histórica iniciada em 1995. Em valores corrigidos pela inflação, o resultado superou em 7,7% o registrado no mesmo mês de 2025, quando a arrecadação alcançou R$ 245,5 bilhões.
Impulsionado pelo avanço da economia, pela disparada das receitas ligadas ao petróleo e por sucessivos ajustes tributários aprovados desde 2023, o fôlego extra reforça a estratégia do governo Lula para chegar a 2026 com as contas em equilíbrio — pelo critério do novo arcabouço fiscal.
De onde veio o dinheiro
Segundo a Receita Federal, quatro grandes grupos de tributos explicam o salto de junho:
- Contribuição previdenciária — reflexo do mercado de trabalho aquecido;
- PIS/Cofins — beneficiados por maior consumo interno e reajustes dos combustíveis;
- IRRF – Rendimentos de Capital — impulsionado por ganhos financeiros em alta;
- IRPJ e CSLL — turbinados por recolhimentos atípicos de grandes empresas.
Só o IRPJ e a CSLL foram responsáveis por um acréscimo de R$ 7,2 bilhões no mês, resultado de operações não recorrentes registradas por companhias de mineração, energia e agronegócio.
Efeito petróleo
Os bons ventos que sopram do setor de óleo e gás também fizeram diferença. Com a cotação internacional pressionada pela tensão entre Estados Unidos e Irã, o valor do barril subiu e puxou para cima royalties, participações especiais e o recém-criado imposto de exportação sobre petróleo bruto.
- Imposto de exportação sobre óleo bruto: R$ 3,8 bilhões arrecadados em junho;
- Receitas não administradas (royalties, concessões e compensações): alta de R$ 1,2 bilhão na comparação anual.
Na prática, o setor de energia respondeu por quase um quinto do ganho real de arrecadação observado no mês.
Primeiro semestre também quebra recorde
Entre janeiro e junho, o governo federal acumulou R$ 1,6 trilhão (valor ajustado pela inflação), crescimento real de 6,6% sobre igual intervalo de 2025. É o maior volume já registrado para o primeiro semestre desde que a série começou.
Os dados refletem um Produto Interno Bruto (PIB) que vem surpreendendo para cima e a agenda de aumento da base tributária. Caso o ritmo se mantenha, a equipe econômica projeta encerrar 2026 com um incremento de receita superior a R$ 150 bilhões em relação ao ano passado.
Ajustes tributários que já impactam o caixa
Desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma série de medidas elevou a carga sobre setores específicos e sobre a renda de mais alta concentração. Entre elas:
- Reoneração da gasolina e do etanol, revertendo desonerações de 2022;
- Tributação de fundos exclusivos e de aplicações em offshores mantidas no exterior;
- Revisão de benefícios fiscais concedidos por estados (subvenções de ICMS);
- Reoneração gradual da folha de pagamento de 17 setores intensivos em mão de obra;
- Fim do Perse, programa que reduzia tributos do segmento de eventos;
- Criação de alíquota para casas de apostas esportivas (bets);
- Aumento do IOF sobre operações de crédito e câmbio;
- Nova fórmula para tributar juros sobre capital próprio.
Somadas, as iniciativas têm potencial de acrescentar R$ 168 bilhões por ano à receita da União, de acordo com estimativas internas do Ministério da Fazenda.
Meta fiscal de 2026: números no detalhe
Pelo arcabouço aprovado em 2023, a meta central para as contas públicas em 2026 é um superávit primário equivalente a 0,25% do PIB, algo em torno de R$ 34,3 bilhões nos valores de hoje. O dispositivo prevê margem de 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo.
Em outras palavras, o governo será considerado dentro da regra se encerrar o ano com saldo entre zero e R$ 68,6 bilhões. Contudo, o texto autoriza a retirada de até R$ 57,8 bilhões em despesas — principalmente precatórios — do cálculo final. Na prática, portanto, o resultado contábil pode mascarar um déficit de R$ 23,3 bilhões.
Por que a arrecadação é crucial
Com a rigidez de gastos imposta pelo teto reconfigurado, quase todo o ajuste necessário para cumprir a meta virá do lado da receita. A Fazenda estima que cada ponto percentual de crescimento adicional do PIB contribua com R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões nos cofres federais. Já um choque de um dólar no preço médio do barril de petróleo gera impacto de cerca de R$ 1,1 bilhão ao ano em royalties e participações especiais.
Mesmo com o desempenho robusto até aqui, técnicos alertam que o desafio será maior no segundo semestre, quando costumam diminuir receitas extraordinárias — como o pagamento de quotas únicas de IRPJ — e aumentar despesas sazonais, a exemplo do abono salarial.
O que esperar para os próximos meses
O governo aposta em três frentes para manter a curva ascendente:
- Vigência integral da reoneração dos combustíveis, que passará a ser computada o ano inteiro;
- Ações de conformidade da Receita Federal, com cruzamento de dados previdenciários e fiscais para reduzir a sonegação;
- Pacote de medidas para incrementar a arrecadação em 2027, atualmente em consulta ao Congresso, que inclui a antecipação do pagamento mensal de IRPJ e CSLL por grandes corporações.
Do lado dos riscos, além de uma possível queda no preço do petróleo, pesa a desaceleração global esperada após a manutenção de juros altos nas principais economias.
Reação do mercado
Analistas do setor financeiro avaliaram o dado de junho como “positivo, porém insuficiente” para afastar as incertezas sobre a trajetória fiscal. A curva de juros futuros recuou nas primeiras horas após a divulgação, mas voltou a subir diante de dúvidas sobre a aprovação, pelo Congresso, de projetos essenciais para sustentar a arrecadação em 2027 e 2028.
Na avaliação da Instituição Fiscal Independente (IFI), o governo precisa de pelo menos R$ 60 bilhões adicionais em receitas permanentes para zerar o déficit estrutural até o fim da atual administração, sem recorrer a manobras contábeis.
Panorama geral
Com o recorde de junho e o bom desempenho do primeiro semestre, o governo Lula III mostra força na arrecadação, mas segue pressionado a segurar gastos e garantir a continuidade das medidas que elevam a base tributária. O saldo final de 2026 dependerá do comportamento do crescimento econômico, das cotações internacionais de commodities e do avanço — ou não — da agenda legislativa que sustenta o novo arcabouço fiscal.
Até lá, a Receita Federal seguirá no centro das atenções, enquanto a equipe econômica tenta convencer o Congresso e o mercado de que o tripé formado por crescimento, novos tributos e maior eficiência na cobrança será suficiente para entregar as metas prometidas.