Quarto dia de buscas expõe dor e esperança após terremoto que já matou 273 na Colômbia

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    O silêncio que paira sobre os escombros de Cali é rompido apenas pelo som dos marteletes e pelo choro contido de familiares. Quatro dias depois do terremoto que sacudiu a Colômbia na segunda-feira (10), o número de mortos subiu para 273 e ao menos 377 pessoas continuam desaparecidas. O calor acima dos 30 °C acelera o cansaço dos bombeiros, que insistem em revirar blocos de concreto diante de prédios deformados pelo tremor principal e por mais de cem abalos secundários.

    Para o subtenente Julián Mauricio Ramos, responsável por coordenar as equipes de resgate, a tarefa mais dura não é escavar, mas explicar a pais e filhos que a esperança se esvai a cada hora. “Eles acreditam até o último instante”, resume, antes de pedir que as câmeras se afastem quando um corpo é encontrado.

    Busca entre ruínas e calor

    Na tarde de quinta-feira (11), uma fileira de capacetes alaranjados se curva diante do que restou de um edifício de seis andares. Doze pessoas estavam no local quando o prédio cedeu: um homem saiu com vida logo no primeiro dia; nove corpos foram retirados depois. Falta encontrar dois desaparecidos, entre eles a jovem namorada de Santiago, voluntário que passou as últimas 80 horas peneirando entulho ao lado dos profissionais.

    “Há uma parte de mim que ainda acredita num milagre”, conta ele, olhos vermelhos de exaustão. “Mas, depois de tantos dias, a gente já não sabe.” O tremor de magnitude elevada deformou fachadas, rachou colunas de sustentação e fez garagens inteiras afundarem até virar frestas de menos de 40 centímetros. Em vários quarteirões, autoridades exigem que até pedestres usem capacete — o risco de desabamento permanece alto.

    Calor, poeira e logística limitada

    Equipes de oito países desembarcaram no aeroporto Alfonso Bonilla Aragón com sensores de movimento, cães farejadores e drones térmicos. Ainda assim, barrar o avanço do tempo tem-se mostrado impossível. A combinação de altas temperaturas e poeira fina agrava problemas respiratórios e impõe pausas frequentes às equipes, que trabalham em turnos intercalados para evitar desidratação.

    Geradores a diesel mantêm luz nos pontos de escavação durante a madrugada, mas o combustível precisa chegar por estradas parcialmente bloqueadas por trincas no asfalto. Em bairros periféricos, moradores formam correntes humanas para repassar baldes d’água que ajudam a resfriar lajes superaquecidas pelo sol.

    Edifícios de pé, porém tortos

    O bairro El Prado concentrou o maior número de construções comprometidas. Prédios inteiros estão de pé, mas tortos, como se fossem peças de dominó prestes a despencar. O medo aumenta a cada novo tremor secundário: mais de cem réplicas já foram registradas, e sismólogos alertam que abalos de menor magnitude podem ser suficientes para derrubar estruturas abaladas.

    Um desses prédios pertence à arquiteta Pilar, que se salvou no limite. Ela estava no segundo andar quando o chão começou a sacolejar. “Agarrei-me a uma coluna e pensei: ‘é o fim’. Pedi a Deus outra chance e senti que devia seguir em frente”, recorda. Pilar escapou pela janela de um apartamento que já não tinha paredes internas. Do lado de fora, olha fixamente para as ripas retorcidas que um dia foram sua sala. “Dizem que o importante é estar viva. É verdade, mas machuca ver o que construí virar pó.”

    Instabilidade emocional e econômica

    O tremor não abalou apenas o concreto. Em postos improvisados de assistência psicológica, psicólogos relatam aumento de crises de ansiedade e dificuldade de dormir entre moradores. Pequenos comerciantes somam prejuízos: vitrines quebradas, estoque perdido e suspensão do fornecimento de energia em áreas críticas.

    O governo colombiano calcula que, somente em Cali, mais de 5 mil pessoas precisem de abrigo temporário. Escolas se transformaram em centros de acolhimento; quadras esportivas agora abrigam fileiras de colchonetes. Ainda não há data para o retorno das aulas presenciais.

    Ritmo acelerado de doações, mas demanda maior

    Doações de água, alimentos não perecíveis e medicamentos chegam em caminhões militares. No entanto, voluntários apontam gargalos na distribuição. A prioridade tem sido manter suprimentos contínuos para as equipes de resgate e para hospitais, onde faltam bolsas de sangue e material para cirurgias ortopédicas.

    Organizações humanitárias pressionam por agilização de vistos para especialistas estrangeiros em desastres, bem como por corredores logísticos que liguem Cali a municípios menores igualmente atingidos, mas fora do noticiário principal. Enquanto isso, centenas de pessoas fazem fila ao lado de tendas azuis na tentativa de obter um simples comprimido contra dor de cabeça.

    Próximos passos

    Autoridades ainda não fixaram prazo para encerrar as buscas, mas o discurso vem ganhando tom de despedida. Técnicos em engenharia estrutural defendem detonações controladas em edifícios à beira do colapso, o que exigirá retirar partes da população de áreas já fragilizadas. Paralelamente, o Congresso colombiano iniciou debate sobre criação de um fundo extraordinário para reconstrução, com prioridade para habitação popular.

    Até lá, Cali vive entre a esperança e o luto. A cada vez que o apito soa anunciando silêncio nos canteiros, todos prendem a respiração: pode ser o resgate de um sobrevivente ou a confirmação de mais uma perda. Em meio à devastação, o olhar de Santiago — metade fé, metade cansaço — resume a colisão de sentimentos que domina o país.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.