O eleitor fluminense vai encontrar na urna, em 4 de outubro, candidatos ao Senado com perfis econômicos opostos: enquanto o ex-procurador-geral de Justiça Luciano Mattos (PRTB) declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 3,9 milhões, três adversários — Mônica Benício (PSOL), Luiz Eugênio (PCO) e Vinícius Benevides (UP) — entregaram declarações zeradas. A variação ilustra o abismo financeiro entre os 16 nomes que tentam duas vagas pelo Rio de Janeiro, mandato de oito anos, sem possibilidade de segundo turno.
Os dados, disponíveis no sistema de divulgação de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não necessariamente correspondem ao valor de mercado dos bens, mas revelam movimentos significativos em comparação a eleições anteriores de vários concorrentes — casos de Marcos Dias (Podemos), que multiplicou o portfólio em nove vezes desde 2022, e de Marcelo Crivella (Republicanos), cujo patrimônio encolheu 99% no mesmo intervalo.
Panorama geral dos bens declarados
Somados, os patrimônios informados pelos 16 candidatos atingem pouco mais de R$ 13,3 milhões. O valor médio individual é de R$ 831 mil, mas o número é distorcido pelo topo da lista. Veja a distribuição:
- Acima de R$ 3 milhões: 1 candidato
- Entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões: 1 candidato
- Entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões: 3 candidatos
- Abaixo de R$ 1 milhão: 8 candidatos
- Sem bens declarados: 3 candidatos
Quem declarou mais de R$ 2 milhões
Luciano Mattos (PRTB) – R$ 3,9 milhões
Estreante nas urnas, o ex-chefe do Ministério Público fluminense concentra quase metade do total em um apartamento avaliado em R$ 1,75 milhão. Aplicações financeiras somam cerca de R$ 939 mil e completam a lista dois imóveis menores, um terreno em Teresópolis e um Jeep Compass 2019.
Marcos Dias (Podemos) – R$ 2,7 milhões
O vereador carioca é o caso de maior expansão patrimonial recente: declarou R$ 80 mil em 2022, saltou para R$ 295 mil em 2024 e agora apresenta um apartamento de R$ 2,5 milhões, além de participações societárias, joias e valores em espécie.
Faixa de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões
Carlos Portinho (PL) – R$ 1,4 milhão
Atual senador e candidato à reeleição, reduziu quase pela metade os bens em relação a 2018. Entre os itens, estão cotas empresariais, fração de um prédio residencial, um apartamento financiado e uma caminhonete Nissan Frontier 2025.
Benedita da Silva (PT) – R$ 1,3 milhão
Ex-governadora, a petista ampliou o patrimônio em R$ 231 mil desde 2022. Lideram a lista aplicações em fundos (R$ 499 mil) e depósitos bancários (R$ 268 mil); completam o rol três imóveis, um carro e poupança.
Pedro Paulo (PSD) – R$ 1,8 milhão
O deputado federal quadrimandatário reforçou as reservas financeiras: mais de R$ 1,6 milhão está aplicado em renda fixa, investimentos diversos e planos VGBL, crescimento de 469% no comparativo com 2022.
Até R$ 1 milhão: a maior parte dos concorrentes
Waguinho (Republicanos) – R$ 932 mil
Ex-prefeito de Belford Roxo, declarou quatro imóveis entre R$ 50 mil e R$ 312 mil. Perdeu R$ 222 mil em relação a 2020.
Helio Secco (Missão) – R$ 385 mil
O biólogo e consultor ambiental quadruplicou o patrimônio desde a disputa de vice-governador em 2022. O valor está concentrado em um apartamento (R$ 162 mil) e uma picape Nissan Frontier 2019/2020 (R$ 130 mil).
Ó Clemente (Democrata) – R$ 125 mil
Antigo candidato a deputado, tem como principal bem um Honda City 2021 avaliado em R$ 97 mil e três aplicações de renda fixa.

Imagem: Internet
André Monteiro (Democrata) – R$ 281 mil
Subtenente reformado do Bope e empresário do setor de segurança, apresenta participação societária em duas empresas e um utilitário Toyota RAV 2013. Houve queda de 8,5% ante 2024.
Carlos Jordy (PL) – R$ 35 mil
Vice-líder da oposição na Câmara, o deputado viu o patrimônio encolher 87% em dois anos. As cifras concentram-se em aplicações de renda fixa e parte de um imóvel ainda financiado.
Michelly Xavier (UP) – R$ 33 mil
A advogada e militante de movimentos populares possui apenas um Chevrolet Cobalt 2012.
Paula Falcão (PSTU) – R$ 38 mil
Professora da rede estadual, declarou um veículo de valor aproximado.
Marcelo Crivella (Republicanos) – R$ 5 mil
O ex-prefeito do Rio atribui todo o patrimônio a uma aplicação financeira. Em 2022 ele possuía um apartamento de R$ 634 mil, que não consta mais da declaração atual.
Sem bens informados
Três candidaturas entregaram declaração zerada:
- Mônica Benício (PSOL) – vereadora do Rio, apresentou R$ 8,5 mil em 2024, mas agora alega não possuir patrimônio;
- Luiz Eugênio (PCO) – metalúrgico aposentado, já declarou R$ 655 mil em 2020, porém manteve o “nada a registrar” pela terceira eleição consecutiva;
- Vinícius Benevides (UP) – camelô e militante socialista, repete a ausência de bens das pleitos de 2020 e 2024.
Como funciona a escolha e o que está em jogo
O Rio de Janeiro poderá renovar duas das três cadeiras no Senado Federal. Cada eleitor votará em dois nomes; os mais votados assumem em fevereiro de 2027, com mandato até 2035. Atualmente representam o estado Romário, Carlos Portinho e Flávio Bolsonaro. Os mandatos de Portinho e Flávio chegam ao fim em janeiro de 2027 — o primeiro tenta a permanência, enquanto o segundo disputa a Presidência da República.
Embora a declaração de bens seja obrigatória para o registro da candidatura, não há punição direta para variação patrimonial, desde que o candidato não omita informações. Entretanto, os números servem de termômetro para transparência e podem municiar eventuais representações por enriquecimento ilícito ou falsidade ideológica, a depender de futuras comprovações.
Entre milionários e sem patrimônio: sinais para o eleitor
As cifras apresentadas ao TSE, por si só, não definem capacidade de exercer o cargo, mas funcionam como um recorte de trajetória profissional, acesso a recursos e, em alguns casos, estratégias de blindagem patrimonial. Para o voto consciente, especialistas recomendam cruzar esses dados com antecedentes públicos, propostas de campanha e histórico de prestação de contas dos candidatos.
