O que nasceu como improviso para dormir sob as estrelas transformou-se em um negócio de R$ 40 mil mensais. Em Campinas, o ex-analista de redes Alex Herradon deixou o computador de lado, colocou a mão na madeira e fundou uma oficina que fabrica barracas capazes de se abrir no teto do carro em poucos minutos. Sob encomenda, cada unidade custa de R$ 11 mil a R$ 20 mil e é entregue pronta para instalação no veículo do cliente.
A aposta preencheu um nicho quase vazio no Brasil: equipamentos overlander desenvolvidos e produzidos no país. Com tecnologia simples, mas acabamento de marcenaria fina, as barracas ganharam fãs entre viajantes que querem mobilidade sem perder conforto. Hoje, a marca criada por Herradon entrega em vários estados e já acumula lista de espera.
Da tela do computador ao pó de serra: a guinada profissional
Acampar sempre foi rotina para Alex, que acompanhava o pai, Anastácio Herradon, em pescarias e trilhas durante a infância. A vida adulta, porém, tomou outro rumo. Formado em tecnologia, ele passou oito anos em salas refrigeradas configurando redes corporativas. O ritmo intenso resultou em esgotamento físico e mental: diagnóstico de burnout confirmado por médicos.
Quando o hobby vira terapia
Na tentativa de equilibrar a saúde, Alex recebeu recomendação para buscar atividades manuais. Inscreveu-se em um curso de marcenaria, reencontrou o prazer de produzir algo palpável e não demorou a pedir demissão do emprego. Com R$ 15 mil poupados, montou uma pequena empresa de móveis planejados na garagem de casa em Campinas.
A primeira barraca sobre rodas
A virada de chave aconteceu em uma viagem de fim de semana com a esposa. Ao observar barracas montadas no teto de jipes estrangeiros, notou duas oportunidades: conforto para quem gosta de estrada e a ausência de fabricantes brasileiros. De volta à oficina, desenhou um protótipo inspirado na marcenaria naval, criando estrutura leve, dobradiças reforçadas e sistema de abertura em menos de dois minutos.
Mercado ainda incipiente no Brasil
Na época, poucas lojas importavam produtos similares, esbarrando em custos alfandegários altos. O modelo de Alex, produzido integralmente em madeira multilaminada tratada, alumínio e lona impermeável nacional, reduziu preço e tempo de entrega. Para viabilizar a cadeia, ele garimpou fornecedores de ferragens na região de Campinas e contratou costureiras locais para confeccionar a capa das barracas.
Parcerias nas redes aceleram as vendas
Sem verba para publicidade tradicional, o empreendedor recorreu a quem já cruzava o país de carro. Cedeu duas unidades a um casal de criadores de conteúdo especializado em road trip. Os vídeos mostrando a montagem rápida sobre o veículo geraram centenas de mensagens e os primeiros pedidos firmes. O boca a boca digital tornou-se a principal vitrine da marca, responsável por cerca de 70% das vendas mensais, segundo o próprio Alex.

Imagem: Internet
Negócio familiar ganha reforço do pai
Com a demanda crescente, Alex convidou Anastácio a trocar as varas de pesca pelas ferramentas da oficina. O pai assumiu parte da produção, além de contribuir com ajustes de design para tornar as barracas mais resistentes à umidade e vento forte. A combinação de experiência nas trilhas e know-how artesanal ajudou a escalar a fabricação sem abrir mão do controle de qualidade.
Modelo de produção, preços e faturamento
Cada barraca é feita sob encomenda. O cliente escolhe medidas, tipo de colchão interno, porta-objetos e cor da lona. O ciclo, do corte da madeira à instalação no veículo, leva em média 25 dias. Os preços variam conforme o nível de personalização:
- Standard – R$ 11 mil: colchão de espuma, escada retrátil, capa de lona simples;
- Expedition – R$ 15 mil: colchão de densidade dupla, janelas com tela mosquiteiro, porta-sapatos externo;
- Overlander – R$ 20 mil: trilhos para bagageiro, iluminação LED interna, isolamento térmico reforçado.
Hoje, a oficina despacha em média três unidades por mês e registra faturamento de aproximadamente R$ 40 mil. Parte do valor retorna ao negócio em novos equipamentos de corte e na compra de insumos, estratégia que vem permitindo aumentar a capacidade sem recorrer a empréstimos.
Propósito além dos números
Embora a planilha de receitas mostre evolução constante, Alex diz que o maior ganho é a possibilidade de equilibrar trabalho e lazer. O próprio test-drive das barracas ocorre nos fins de semana: o empresário fecha as portas da oficina, encaixa um protótipo no carro da família e parte para cachoeiras próximas, onde coleta sugestões de melhorias com outros campistas.
Para o futuro, ele prevê replicar o modelo de produção em outras regiões, por meio de microfranquias ou licenciamento de peças pré-cortadas, mantendo o acabamento artesanal como diferencial. “Quero provar que é possível construir uma empresa sólida sem abandonar o caminho de terra”, resume.
