Dois anos depois de ouvir o diagnóstico de câncer no fígado, enfrentar cinco procedimentos e incontáveis sessões de quimioterapia, o maringaense Marcelo Ribeiro Hilário, de 47 anos, voltou para casa com novos planos — e com um pedaço do fígado do próprio filho. O transplante, realizado em São Paulo, só aconteceu graças a uma autorização judicial, já que o doador, Pedro Koyti Ishida Hilário, tem 17 anos.
A cirurgia utilizou plataforma robótica para a retirada de parte do órgão do adolescente, recurso que reduziu incisões, dor e tempo de internação. Pai e filho receberam alta no início deste mês e já se recuperam em Maringá, sob acompanhamento médico rigoroso e com a rotina de medicamentos que acompanhará Marcelo pelo resto da vida.
Da descoberta ao agravamento da doença
O primeiro sinal de que algo estava errado surgiu em 2021, quando exames de rotina apontaram alterações em enzimas hepáticas. Em pouco tempo os resultados confirmaram um tumor no fígado. Mesmo com a confirmação precoce, a doença avançou rápido: foram necessários cinco procedimentos — entre eles ablações e embolizações — além de ciclos sucessivos de quimioterapia para tentar conter a expansão das células malignas.
Durante esse período, Marcelo conciliou consultas em Maringá com tratamento em centros especializados de Curitiba e São Paulo. A cada intervenção, uma nova esperança era alimentada; a cada exame de imagem, a possibilidade de transplante se aproximava como única alternativa curativa. “Chegou um ponto em que o fígado dele não tinha mais condições de suportar novos procedimentos”, explica o hepatologista Alvo Orlando Vizzotto Junior, responsável pelo caso desde o início.
A decisão de doar e o aval da Justiça
Quando a equipe médica concluiu que o transplante era inevitável, começou a corrida para encontrar um doador compatível. Pedro, primogênito de Marcelo, ofereceu-se imediatamente. Os exames de histocompatibilidade mostraram que pai e filho tinham perfil sanguíneo e anatômico ideais para o procedimento, mas havia um obstáculo: a lei brasileira só permite a doação intervivos por menores de idade em situações extremamente específicas e com decisão judicial.
O pedido foi protocolado na Vara da Infância e Juventude de Maringá, acompanhado por laudos que atestavam a plena capacidade física e psicológica do adolescente, além de pareceres favoráveis do Ministério Público e do Conselho Tutelar. Em despacho rápido, o juiz responsável reconheceu a urgência do caso e autorizou a cirurgia, destacando “o inequívoco benefício ao receptor” e “a segurança do procedimento para o doador”.
Tecnologia robótica diminui riscos para o doador
Quatro braços mecânicos e cortes milimétricos
No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, a equipe coordenada pelo cirurgião André Martinelli optou por uma hepatectomia parcial robótica, técnica ainda rara em transplantes intervivos no Brasil. Quatro braços mecânicos, comandados em console pelo cirurgião, realizaram a dissecção dos vasos e a separação do segmento hepático destinado a Marcelo. O método minimamente invasivo substitui o corte longo do abdômen por pequenas incisões de 8 a 10 milímetros, somadas a uma abertura de cerca de seis centímetros para a retirada do enxerto.
Segundo Martinelli, a vantagem imediata para Pedro foi sentir menos dor no pós-operatório e retomar atividades leves já na segunda semana. Para o receptor, a qualidade do órgão é igual à de uma cirurgia convencional, mas o procedimento reduz a chance de complicações no doador, ponto central da decisão de Marcelo ao aceitar o gesto do filho. “Meu maior medo era vê-lo sofrer por minha causa”, admitiu o pai.
Implante e primeiras 24 horas críticas
Com o segmento hepático em mãos, outra equipe iniciou o implante em Marcelo na mesma sala híbrida — estratégia que diminui o tempo de isquemia do órgão. As primeiras 24 horas após a ligação dos vasos sanguíneos são consideradas críticas; nesse intervalo, exames de enzimas e ultrassom em tempo real monitoram se o fígado transplantado começa a funcionar. “A resposta foi imediata, os índices de coagulação melhoraram e a bilirrubina caiu pela metade”, relatou Vizzotto Junior.

Imagem: Internet
Recuperação conjunta em Maringá
Três semanas depois, pai e filho receberam sinal verde para voltar ao Paraná. A volta para casa foi marcada por recepção calorosa de amigos, familiares e dos três cães da família. Marcelo, que passou boa parte dos últimos meses dentro de hospitais, reencontrou a esposa e a cama própria com a sensação de recomeço. Já Pedro, liberado para atividades escolares online, aguarda autorização para voltar às aulas presenciais e aos passeios de moto que costuma compartilhar com o pai.
O transplante encerrou a etapa oncológica mais agressiva, mas não a vigilância. Marcelo seguirá em uso de imunossupressores diários para evitar rejeição e fará exames de sangue semanais nas primeiras oito semanas, intervalo que será espaçado conforme a adaptação do órgão. Ele também passará por ressonâncias semestrais para garantir que não haja recidiva do câncer fora do fígado. A avaliação psicológica de ambos continuará pelo menos até completarem um ano de pós-operatório, protocolo padrão em transplantes intervivos.
Médicos reforçam alerta para tumor “silencioso”
Embora raro em pessoas fora de grupos de risco, o carcinoma hepatocelular pode permanecer assintomático por longos períodos, surgindo muitas vezes em exames de rotina. Vizzotto Junior ressalta que fatores como obesidade, hepatite viral não tratada e consumo excessivo de álcool aumentam a probabilidade da doença, mas que até indivíduos sem histórico clínico, como Marcelo, devem manter check-ups regulares. “Quanto mais cedo detectarmos a lesão, maior a chance de cura sem transplante”, frisa o médico.
No caso do maringaense, a disposição em seguir o tratamento, aliada ao rápido engajamento familiar, fez a diferença. “Ele é um guerreiro”, define o oncologista, lembrando a disciplina de Marcelo em comparecer a cada sessão de quimioterapia mesmo nos dias de pior fadiga.
Novo horizonte e planos para o futuro
Com a cicatriz ainda recente, Marcelo pensa em retomar o trabalho nos próximos meses, de forma parcial, até reconquistar força física. Ele também mira voltar às trilhas de moto que percorre com Pedro, atividade suspensa desde o início do tratamento. “A gente vai com calma, capacete duplo e muita gratidão”, brinca o pai.
Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Pedro terá acompanhamento médico gratuito até a completa cicatrização. O adolescente, por sua vez, enxerga a experiência como parte natural da história familiar. “Se fosse o contrário, ele faria por mim”, afirma. Para os médicos, além de salvar uma vida, o gesto ajuda a construir cultura de doação intervivos no país — ainda limitada por mitos sobre riscos para o doador. O caso de pai e filho de Maringá, dizem, mostra que a solidariedade pode ser potencializada pela ciência quando existe indicação correta e estrutura hospitalar que ofereça segurança a todas as partes envolvidas.
