Depois de quase nove horas de sessão, o Tribunal do Júri de Boituva (SP) sentenciou Andreia Cristina Meireles Armanhe a 14 anos e 3 meses de prisão em regime fechado pela morte de Leuciene dos Santos da Silva Brasileiro, 37 anos, ocorrida em junho de 2025. A ré confessou ter disparado contra a vítima por ciúmes, pois ambas mantinham relacionamento com o mesmo homem.
O conselho de sentença reconheceu as qualificadoras de motivo fútil e emboscada: Andreia permaneceu por cerca de três horas nas imediações do local de trabalho de Leuciene antes de rendê-la, obrigá-la a entrar no carro e atirar à queima-roupa na cabeça da rival às margens da Rodovia Vicente Palma (SP-129). A decisão ainda admite recurso, mas a acusada deixou o fórum escoltada para a Penitenciária Feminina de Votorantim.
Como transcorreu o julgamento
O júri popular começou na manhã de terça-feira, 18 de agosto de 2026, no Fórum de Boituva, sob presidência do juiz Thiago Castro Penteado. Ao todo, nove testemunhas foram ouvidas: familiares da vítima, policiais que atenderam a ocorrência, peritos criminais e conhecidos das duas mulheres. Todos confirmaram detalhes que sustentaram a tese de homicídio qualificado.
Durante o interrogatório, Andreia manteve a confissão já registrada no inquérito. Disse ter “perdido o controle” após descobrir que o companheiro dividia a vida com Leuciene. A promotoria argumentou que o crime foi premeditado, pois a ré levou a arma, esperou a saída da vítima do trabalho e escolheu um trecho pouco iluminado da SP-129 para agir. A defesa tentou desclassificar a acusação para homicídio simples, alegando forte abalo emocional, mas não convenceu os jurados.
A motivação passional
Segundo depoimentos, Andreia e Leuciene desconheciam, inicialmente, a existência uma da outra. Quando a duplicidade amorosa veio à tona, as duas trocaram mensagens agressivas por aplicativos e chegaram a se encontrar para discutir o triângulo amoroso. Amigas próximas relataram ameaças mútuas, sobretudo por parte de Andreia, que dizia “não aceitar ser enganada”.
O Ministério Público sustentou que a descoberta do relacionamento paralelo tornou-se a centelha para o crime. Para os promotores, o assassinato revela um padrão de violência motivada por sentimento de posse, em que o alvo principal deixa de ser o homem que enganou ambas e passa a ser a mulher vista como concorrente.
Reconstrução do crime
Na noite de 12 de junho de 2025, câmeras de segurança registraram o carro de Leuciene saindo de um estacionamento no Centro de Boituva. No volante, segundo perícia de imagens, estava Andreia, que já havia rendido a vítima. Testemunhas afirmaram ter ouvido gritos e visto o veículo parado no acostamento da SP-129, próximo ao acesso ao bairro Novo Mundo.
Conforme laudo necroscópico, Leuciene foi atingida por um disparo que perfurou a têmpora esquerda e por tiros nas pernas, possivelmente efetuados para impedir fuga. O corpo foi encontrado por uma patrulha da Polícia Militar que fazia ronda rotineira. O relógio marcava 21h13 quando o óbito foi confirmado na Unidade de Pronto Atendimento local.
Etapas da investigação
O caso começou com uma pista equivocada: populares disseram ter visto um homem no carro com a vítima. Apenas após análise de câmeras e quebra de sigilo telefônico, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Sorocaba descobriu que a autora era uma mulher. Mensagens recuperadas do celular do companheiro em comum mostraram conversas agressivas entre as duas envolvidas.
Mandado de busca na residência de Andreia resultou na apreensão de um segundo celular, da chave reserva do veículo de Leuciene e de um caderno contendo anotações sobre horários de trabalho da vítima. A arma do crime — um revólver calibre .38 sem numeração — foi localizada em um terreno baldio dias depois, após indicação da própria ré durante a confissão.
Impacto na comunidade
O homicídio chocou Boituva, que naquele fim de semana registrara outros dois assassinatos, elevando a sensação de insegurança na cidade de 64 mil habitantes. Grupos de mulheres organizaram vigílias e passeatas exigindo políticas de prevenção à violência de gênero e maior agilidade na solução de inquéritos.

Imagem: Internet
Familiares de Leuciene compareceram ao julgamento usando camisetas com a foto da vítima. A irmã dela, visivelmente emocionada, afirmou que “a pena nunca trará de volta quem se foi, mas representa um alívio por saber que não haverá impunidade”. O advogado da família considerou a sentença “dentro das expectativas” e destacou o papel dos jurados na confirmação das qualificadoras.
Direitos da defesa e próximos passos
Embora tenha confessado, Andreia poderá recorrer ao Tribunal de Justiça de São Paulo para pedir redução da pena ou mudança de regime, argumento que giraria em torno de eventual “violenta emoção”. A defesa, que não se pronunciou após a leitura da sentença, tem prazo de cinco dias para apresentar embargos ou apelação.
Se a condenação for mantida, a previsão é que a ré cumpra ao menos metade da pena antes de pleitear progressão para o semiaberto, já descontados os 14 meses de prisão preventiva cumpridos. Enquanto isso, o Ministério Público estuda oferecer denúncia por furto qualificado, em razão do roubo e abandono do carro da vítima, o que poderia ampliar o tempo total de encarceramento.
Violência por ciúmes: cenário preocupante
Especialistas apontam que casos em que o sentimento de posse se converte em violência letal continuam a desafiar políticas públicas. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, cerca de 30% dos feminicídios e homicídios contra mulheres tiveram motivação passional. Para a psicóloga criminal Carla Rezende, “o entendimento de que o outro é propriedade favorece explosões de agressividade, sobretudo quando há histórico de mentiras e traições”.
Em Boituva, a Delegacia de Defesa da Mulher registrou aumento de 18% nos boletins de ameaça ou perseguição em 2025. Autoridades locais reforçam campanhas de conscientização e linhas de apoio a vítimas de violência doméstica e amorosa, na tentativa de impedir que conflitos afetivos avancem para desfechos trágicos como o de Leuciene.
Calendário processual e repercussão jurídica
A sentença de 14 anos e 3 meses supera o mínimo previsto para homicídio qualificado (12 anos), mas ficou abaixo do máximo (30 anos). O juiz justificou a dosimetria afirmando que a ré não possui antecedentes, cooperou com as investigações e mostrou arrependimento. Entretanto, pesaram contra ela a premeditação, a condição de emboscada e o motivo fútil.
Entidades ligadas aos direitos das mulheres acompanham o caso como precedente importante na valorização de qualificadoras quando o combustível do crime é o ciúme. Advogadas feministas defendem que a tipificação de feminicídio — aplicada quando a vítima é morta “por menosprezo ou discriminação à condição de mulher” — também poderia ter sido considerada. O MP avalia se recorrerá para ampliar a pena ou modificar a qualificação.
Memória da vítima
Leuciene dos Santos da Silva Brasileiro, natural de Itapetininga, trabalhava há cinco anos como operadora de máquinas em uma indústria têxtil de Boituva. Colegas descrevem uma mulher dedicada à família, que deixou dois filhos adolescentes. Amigos organizam uma bolsa de estudos em nome dela para jovens da escola pública onde os filhos estudam, como forma de preservar a memória e transformar a tragédia em oportunidade de futuro.
Com a condenação confirmada em primeira instância, o processo entra agora na fase de recursos. Até lá, a família busca reconstruir a rotina marcada pelo luto, enquanto a cidade observa atentamente os desdobramentos de um crime que expôs a face mais extrema do ciúme.
