Falta de medicamentos em postos de Campo Grande leva MP a abrir inquérito e pressiona prefeitura

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    Moradores de diversos bairros de Campo Grande estão deixando postos de saúde sem o tratamento básico depois que prateleiras e laboratórios ficaram vazios. A onda de queixas chegou ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul, que instaurou inquérito civil para descobrir por que medicamentos corriqueiros e exames simples desapareceram das unidades municipais.

    A investigação se concentra, por ora, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Aero Rancho e na Unidade de Saúde da Família (USF) Jardim Macaúbas, mas relatos de desabastecimento atingem ao menos nove outros bairros. Entre os itens em falta estão losartana, metformina, hidroclorotiazida, dipirona, dexametasona e reagentes para exames de sangue e urina.

    Inquérito do Ministério Público mira falhas no atendimento

    O procedimento foi aberto pela 32ª Promotoria de Justiça da capital após uma sequência de representações de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). O órgão quer saber por que faltam remédios de uso crônico, por que exames ambulatoriais deixam de ser feitos por problemas em equipamentos e se há déficit de profissionais ou de insumos que comprometa o atendimento.

    Promotores já requisitaram documentos à Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), incluindo registros de compras, contratos e notificações a fornecedores inadimplentes. Também foram solicitados estoques atualizados, cronograma de reposição e informações sobre protocolos para encaminhar pacientes a outras unidades quando o serviço não pode ser prestado.

    UPA Aero Rancho: pacientes voltam para casa sem receita atendida

    A UPA do Aero Rancho virou símbolo do problema. Cardíacos, diabéticos e hipertensos relatam que não conseguem retirar seus remédios há semanas. Uma das reclamações mais frequentes é a ausência de losartana, comprimido barato que controla a pressão arterial. De acordo com funcionários ouvidos pelo MP, o estoque do fármaco zerou e não havia previsão de reposição durante a visita dos promotores.

    Além da farmácia desabastecida, o laboratório da unidade não oferece exames simples de urina tipo 1, necessários para o acompanhamento de doenças renais e infecções. Sem alternativa dentro da rede, alguns usuários pagam do próprio bolso em clínicas particulares; outros interrompem o acompanhamento, segundo depoimentos anexados ao inquérito.

    Máquina parada obriga mães a desistir de hemograma

    Uma autônoma que chegou às 7h da manhã com os filhos em jejum esperou mais de uma hora até ser informada de que o aparelho de hemograma havia parado. Sem garantia de conserto naquele dia, foi orientada a voltar outro dia ou procurar outro posto. “As crianças choravam de fome”, relatou ela ao MP, explicando que acabou desistindo do exame.

    USF Jardim Macaúbas também sob escrutínio

    No Jardim Macaúbas, onde o Ministério Público abriu um inquérito específico, a queixa mais antiga é a escassez de losartana e hidroclorotiazida, dois anti-hipertensivos ausentes dos estoques desde o ano passado, conforme registros internos. Moradores relatam que a farmácia indica o Programa Farmácia Popular como alternativa, mas a oferta ali também tem sido irregular ou distante da residência dos pacientes.

    Usuários apontam ainda falta de profissionais em alguns turnos, atraso na coleta de sangue e ausência de materiais descartáveis. Uma moradora contou ter saído sem metformina para controle do diabetes e sem resposta sobre quando voltaria a encontrar o remédio na unidade.

    Desabastecimento atinge outros bairros

    Durante a apuração, surgiram relatos parecidos nas unidades dos bairros Vila Fernanda, Nova Bahia, Tiradentes, Paulo Coelho Machado, Universitário, Sílvia Regina, Ana Maria do Couto, Moreninhas e Caiçara. Em quase todos, a lista de remédios em falta repete o padrão: analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos, hipoglicemiantes e anticonvulsivantes básicos.

    Moradores dizem que, quando o medicamento não está disponível, recebem orientação para “voltar na próxima semana” ou comprar em drogarias comerciais. Quem depende do SUS e vive longe do centro enfrenta ainda o custo do transporte até uma farmácia particular.

    O que diz a Prefeitura

    A Secretaria Municipal de Saúde reconhece o problema e afirma que a ruptura de estoque ocorre, sobretudo, quando empresas vencedoras de licitações deixam de entregar as quantidades contratadas ou tentam reajustar preços após o pregão. Nesses casos, explica a pasta, a legislação impede a troca imediata de fornecedor ou o aditivo de valor, gerando atraso na reposição.

    Como resposta, a Sesau informou ter notificado judicialmente os fornecedores inadimplentes e aberto processos administrativos para aplicar multas e eventual suspensão de contratos. Paralelamente, trabalha em novas licitações emergenciais. A secretaria não deu prazo para normalizar a oferta de remédios, mas disse que “atua para reabastecer a rede no menor intervalo possível”.

    Sobre a losartana, a pasta ressalta que o medicamento pode ser retirado em farmácias credenciadas pelo programa Farmácia Popular, embora admita que nem todas as regiões dispõem de unidades próximas. Indagada sobre a realização de exames parados, a prefeitura não enviou resposta até o fechamento desta reportagem.

    Pressão por transparência e soluções

    Com o avanço do inquérito, o Ministério Público pretende colher novos depoimentos de pacientes e servidores e, se necessário, instaurar audiências públicas para discutir saídas com a prefeitura, o Conselho Municipal de Saúde e representantes dos bairros. Caso sejam confirmadas irregularidades contratuais ou falhas graves de gestão, o órgão pode ajuizar ação civil pública para obrigar o município a regularizar os estoques.

    Enquanto isso, quem depende do SUS lida diariamente com a incerteza de conseguir remédios para controlar doenças crônicas ou de realizar exames que orientam o tratamento. “A prioridade é garantir que ninguém fique sem assistência elementar”, afirma um dos promotores responsáveis pelo caso.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.