Maria Luiza Abreu Estevam, 15 anos, não resistiu a uma infecção generalizada e morreu no Hospital da Criança de Brasília depois de procurar três vezes a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sobradinho, no Distrito Federal. Os parentes afirmam que os médicos subestimaram a gravidade do quadro, que começou com dor de dente e terminou em estado crítico na UTI pediátrica, onde a adolescente sofreu paradas cardiorrespiratórias.
Inconformada, a família registrou boletim de ocorrência por morte suspeita. O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF), responsável pela UPA, declarou pesar e diz ter adotado “todas as medidas assistenciais necessárias”, mas se colocou à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Escalada de sintomas em menos de uma semana
Segundo relato dos parentes, o primeiro atendimento ocorreu em 8 de agosto. Com dor de dente, Maria Luiza recebeu analgésicos e foi liberada. No dia seguinte, retornou à mesma unidade ainda com incômodo; novamente saíra com prescrição de medicamentos e orientação para continuar o tratamento em casa.
Três dias depois, em 12 de agosto, o quadro piorou drasticamente. A adolescente chegou à UPA com falta de ar, náuseas, dor de cabeça e sonolência. Em vez de ser liberada, foi encaminhada à Sala Vermelha, área destinada a casos graves, e transferida para o Hospital da Criança de Brasília no fim da tarde do dia 13.
Estado gravíssimo e paradas cardíacas
Já internada em UTI pediátrica, Maria Luiza apresentou sepse – infecção generalizada –, sofreu três paradas cardiorrespiratórias e não respondeu às tentativas de reanimação. O óbito foi declarado às 20h20 de 13 de agosto.
Exame pós-morte identificou rinovírus e influenza B, além de 300 ml de sangue no tórax (hemotórax), possível fator que agravou a falência dos órgãos. A declaração de óbito aponta “causa a esclarecer” até a conclusão de exames complementares.
Familiares contestam protocolo de atendimento
Para o pai, André Abreu, os profissionais falharam em reconhecer a urgência do caso ainda nos primeiros dias. “Ninguém fez nada para estancar a dor. Minha filha era asmática, estava com rosto queimando, braços formigando e sem comer. Disseram que era só dor de dente”, afirmou.
A mãe, que preferiu não se identificar, questiona a demora em encaminhar a adolescente a uma unidade de maior complexidade. Ela conta que, a cada retorno à UPA, alertava sobre o agravamento dos sintomas, mas recebia previsão de alta. “Era visível que ela piorava. Só quando já estava muito mal decidiram transferir.”
Boletim de ocorrência e investigação
Orientada pelo Serviço de Verificação de Óbito ao notar o hemotórax durante a necropsia, a família formalizou queixa na 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho). O caso corre como morte suspeita e a Polícia Civil aguarda laudos complementares do Instituto de Medicina Legal.
Procurada, a corporação informou que vai ouvir profissionais que atenderam Maria Luiza, além de coletar prontuários, escalas de plantão e gravações de câmeras internas para esclarecer eventuais falhas no fluxo de atendimento emergencial.

Imagem: Internet
Posicionamento do IgesDF
Em nota oficial, o IgesDF declarou “profundo pesar” e sustentou que a adolescente “recebeu medicação e seguia tratamento odontológico havia cerca de 20 dias” quando buscou a UPA em 9 de agosto. No retorno de 12 de agosto, diz a nota, a equipe realizou “avaliação médica, exames complementares, monitorização e medidas de suporte”. Ao constatar piora, teriam encaminhado a paciente para estabilização e solicitado vaga de UTI pediátrica via Central de Regulação.
O instituto reiterou que, por sigilo médico e legislação de proteção de dados, não poderá divulgar prontuário, mas entregará documentos às autoridades competentes. “Reafirmamos compromisso com uma assistência pública segura, humanizada e de qualidade”, conclui o texto.
Especialistas apontam pontos críticos
Profissionais de saúde ouvidos pela reportagem, que pediram anonimato, explicam que dor de dente acompanhada de febre alta pode sinalizar abscesso odontogênico, capaz de se espalhar para corrente sanguínea se não houver drenagem ou antibioticoterapia adequada. Quando o paciente possui doença respiratória crônica, como asma, o risco de complicações aumenta.
“O protocolo indica reavaliação rigorosa em caso de piora dentro de 24 a 48 horas. Sinais como desconforto respiratório, sonolência e náuseas persistentes justificam internação ou, no mínimo, exames laboratoriais e de imagem imediatos”, afirma um infectologista consultado.
Impacto do hemotórax
O acúmulo de sangue no espaço pleural, identificado na necropsia, pode comprimir pulmão e coração, reduzindo oxigenação e provocando instabilidade hemodinâmica. “Se o sangramento ocorreu antes das paradas cardíacas, deveria ter sido detectado por radiografia ou tomografia. Caso tenha acontecido durante manobras invasivas, é preciso apurar se houve imperícia”, observa uma pneumologista pediátrica.
Próximos passos
A Polícia Civil aguarda laudos de histopatologia e toxicologia para definir a causa jurídica da morte. O Ministério Público do DF também foi acionado e poderá abrir procedimento para apurar eventual improbidade administrativa em contratos de gestão da UPA.
Enquanto isso, a família planeja acionar a Justiça por dano moral e material. “Não queremos vingança, queremos que outras crianças não passem por isso”, resume o pai.
Maria Luiza foi sepultada na manhã de 19 de agosto no cemitério de Sobradinho, sob forte comoção de amigos e colegas de escola. Velas, cartazes e flores formaram um corredor que acompanhou o cortejo até a despedida final da jovem, descrita como “sorridente, dedicada aos estudos e apaixonada por música”.
