Milei endurece fronteiras e agrava tensão com Brasil ao proibir entrada de estrangeiros que incentivem violência contra argentinos

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    O governo de Javier Milei decidiu apertar ainda mais o tom nacionalista na quarta-feira (29) e assinou um Decreto de Necessidade e Urgência que autoriza barrar na fronteira ou expulsar do país qualquer estrangeiro que pregue ódio, discriminação ou violência contra cidadãos argentinos por causa de sua nacionalidade. A medida, que também enquadra ofensas a símbolos patrióticos como motivo para deportação, foi anunciada pela Casa Rosada como resposta a “manifestações de hostilidade” dirigidas recentemente à Argentina.

    Embora ainda faltem detalhes sobre como o texto será aplicado, o novo instrumento legal surge no momento em que Buenos Aires trava sua mais áspera crise diplomática com Brasília desde a posse de Milei. O presidente argentino chamou Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca” durante convenção do PL em São Paulo, no sábado (25), inflamando reações do governo brasileiro e expondo fissuras políticas no Cone Sul.

    O que o decreto determina

    A Secretaria-Geral da Presidência informou que a proteção “da Nação, de seus cidadãos e de seus símbolos” será tratada como assunto inegociável. Pelo texto, poderão ser impedidos de entrar no território ou deportados os estrangeiros que:

    • difundirem mensagens de ódio contra argentinos;
    • incentivarem a discriminação de argentinos com base em sua nacionalidade;
    • defenderem ou estimularem atos de violência contra cidadãos do país;
    • cometerem ações consideradas ofensivas à bandeira, ao hino ou a outros símbolos nacionais.

    O decreto utiliza o mecanismo do DNU, que tem força de lei imediata e só pode ser derrubado pelo Congresso argentino. A Casa Rosada argumenta que a “urgência” se justifica pelo aumento de ataques reputados como xenófobos dirigidos à população local. Não foram citados casos concretos, tampouco prazos para a regulamentação.

    Alvos potenciais

    Especialistas em direito migratório lembram que o governo já possui dispositivos legais para negar vistos ou expulsar estrangeiros condenados por crimes graves. O novo texto, contudo, amplia o leque ao incluir opiniões e discursos, abrindo margem para controvérsia sobre liberdade de expressão. O Ministério do Interior argentino, responsável pelo controle migratório, estuda criar um protocolo para avaliar caso a caso — inclusive manifestações em redes sociais.

    Escalada com o Brasil

    O gesto acontece poucos dias depois de a diplomacia brasileira reagir duramente aos ataques pessoais de Milei em solo nacional. O Itamaraty convocou o embaixador argentino Daniel Raimondi para explicações em Brasília e chamou de volta, para consultas, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli. Por ora, Bitelli permanece na capital federal sem data para retorno, o que sinaliza desconforto incomum entre os dois maiores sócios do Mercosul.

    Réplicas e tréplicas

    Na tentativa de conter danos, o chanceler argentino, Pablo Quirno, afirmou na quarta-feira que “romper relações não está nos planos” e que o governo deseja manter o comércio bilateral. Mesmo assim, não houve retratação pública de Milei. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, classificou as ofensas como “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis” e acusou o argentino de interferir em assuntos internos do país.

    O Supremo Tribunal Federal também entrou no debate: o presidente da Corte, Edson Fachin, divulgou nota de repúdio ao xingamento direcionado a Moraes. Dentro do Palácio do Planalto, auxiliares de Lula pregam cautela para evitar escalada maior, mas admitem que a relação atravessa o ponto mais baixo em décadas.

    Clima interno na Argentina

    O decreto foi promulgado no mesmo dia em que o jornal Clarín publicou pesquisa segundo a qual 78,5% dos argentinos acreditam na existência de uma “campanha anti-Argentina” fora de suas fronteiras. Entre os entrevistados, 69,1% acham que a ofensiva é organizada; 35,2% atribuem a suposta hostilidade à inveja pelo sucesso da seleção de futebol, enquanto 24,1% culpam críticas ao governo Milei.

    Alimentando esse discurso, o próprio presidente afirmou, no domingo (26), que governos do Brasil e do México, além de integrantes do Partido Democrata dos Estados Unidos, financiariam ataques contra Buenos Aires. Disse ainda, sem apresentar provas, que Brasília bancou “cerca de 25%” dessa cruzada.

    Repercussão na oposição e na sociedade civil

    Líderes da oposição peronista acusam Milei de usar o decreto para desviar a atenção de dificuldades econômicas internas. Organizações de direitos humanos, como o Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS), alertam que a norma pode criminalizar críticas legítimas e ser aplicada de forma seletiva contra imigrantes de países vizinhos.

    Impacto regional e possíveis desdobramentos

    A guinada discursiva de Buenos Aires coincide com a tentativa de Milei de consolidar base política doméstica sem maioria no Congresso. A retórica beligerante, avaliam analistas, mobiliza apoiadores, mas eleva riscos para a cooperação regional, especialmente em temas sensíveis como a Tarifa Externa Comum do Mercosul, a integração energética e as negociações do bloco com a União Europeia.

    No campo comercial, Brasil e Argentina movimentam cerca de US$ 30 bilhões anuais, com forte peso no setor automotivo. Empresários dos dois lados da fronteira já manifestam preocupação de que o atrito diplomático contamine acordos de importação de peças e componentes, além de comprometer linhas de crédito oficiais ainda indispensáveis para empresas argentinas.

    Possível contestação judicial

    Constitucionalistas argentinos lembram que dispositivos semelhantes, editados pelo ex-presidente Mauricio Macri em 2017, foram alvo de questionamento e acabaram flexibilizados pela Justiça. O novo DNU deve seguir caminho parecido: organizações civis planejam acionar tribunais federais alegando violação a princípios de proporcionalidade e liberdade de expressão garantidos na Carta Magna.

    O que esperar agora

    A curto prazo, diplomatas brasileiros avaliam que manter o embaixador Bitelli em Brasília reduz o campo de ação da embaixada em Buenos Aires, mas também pressiona Milei a moderar o discurso ou oferecer algum gesto de boa-vontade. Interlocutores próximos ao presidente argentino, contudo, sustentam que uma retratação seria vista como sinal de fraqueza, algo incompatível com a imagem de confronto cultivada por ele.

    Enquanto a poeira não baixa, a circulação de cidadãos brasileiros na Argentina continua normal, mas o novo decreto coloca em alerta viajantes que se manifestem politicamente nas redes sociais ou em eventos públicos. Até que o regulamento seja publicado, permanece a incerteza sobre quem, de fato, poderia ser barrado ou expulso sob a acusação de “mensagem de ódio”.

    Mercosul em compasso de espera

    O bloco regional tem cúpula agendada para dezembro, em Assunção. Fontes paraguaias relatam apreensão sobre o comportamento de Milei até lá. Caso permaneça a troca de farpas, há receio de que o encontro se transforme em palco de novas provocações e paralise debates econômicos que exigem consenso.

    Sem sinais claros de distensão, países vizinhos observam com cautela o discurso nacionalista argentino ganhar contornos legais. A depender de como o DNU for aplicado, pode crescer a percepção de que críticas políticas poderão custar a permanência no país, redefinindo os limites da convivência democrática na região.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.