A Polícia Civil de Minas Gerais encerrou, nesta semana, o inquérito que escancarou a estrutura bilionária de um grupo especializado em roubar fios de telefonia e cobre. Segundo os investigadores, a organização criminosa desviou mais de R$ 150 milhões nos últimos anos, espalhou prejuízos em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia e foi responsável por pelo menos 1.400 furtos confirmados.
No total, 26 suspeitos foram indiciados pelos crimes de organização criminosa, furto qualificado, receptação e lavagem de dinheiro. A investigação, batizada de Operação Cyprium, também rastreou quatro empresas usadas para mascarar a origem do material e esconder os lucros obtidos com a revenda clandestina.
Como a quadrilha atuava
De acordo com o inquérito, o esquema se estruturou a partir do envolvimento de funcionários e ex-funcionários de companhias de telefonia e internet. Eles tinham acesso a roteiros de manutenção, usavam uniformes oficiais e apresentavam ordens de serviço falsificadas para não levantar suspeitas durante a retirada dos cabos. Depois, o material era separado, embalado e despachado de cidades da Zona da Mata mineira — entre elas Juiz de Fora, Viçosa, Ubá, Cataguases e Visconde do Rio Branco — para galpões no Rio de Janeiro e na Bahia, onde o cobre era reciclado e vendido.
Em apenas dois meses de monitoramento em Juiz de Fora, a polícia comprovou a movimentação de cerca de R$ 3 milhões. O volume revela o caráter industrial da operação: caminhonetes adaptadas, rotas noturnas e logística cronometrada para confundir patrulhas e equipes de manutenção reais.
Operação Cyprium: duas fases e ação interestadual
A investigação começou quando policiais de Visconde do Rio Branco perceberam que colegas de Juiz de Fora acompanhavam o mesmo grupo. A troca de informações unificou os inquéritos e desencadeou a Operação Cyprium, dividida em duas fases. Mandados foram cumpridos simultaneamente em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, com apoio das polícias locais.
Na primeira etapa, realizada em 3 de setembro do ano passado, os agentes encontraram mais de uma tonelada de fios de cobre armazenada em um ferro-velho de Juiz de Fora. O material, avaliado em centena de milhares de reais, foi periciado e devolvido às operadoras de telefonia. A ação resultou na prisão em flagrante do proprietário do estabelecimento.
Chefe regional tinha 29 anos
Segundo a polícia, o responsável por coordenar os furtos na Zona da Mata era um empresário de 29 anos, dono do ferro-velho onde o cobre foi apreendido. Ele reunia a produção de pequenos grupos, pagava adiantado e providenciava o transporte interestadual. Agora, responde por receptação qualificada, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Lavagem de dinheiro e empresas de fachada
O inquérito identificou quatro empresas registradas em nomes de laranjas que recebiam transferências fracionadas para disfarçar a origem ilícita dos recursos. As pessoas jurídicas declaravam atividades compatíveis com reciclagem de metais, mas não tinham licença ambiental nem apresentavam volume contábil condizente com os ganhos. Perícias em contas bancárias revelaram a circulação de R$ 150 milhões, valor considerado conservador pelos investigadores.
Parte do lucro era reinvestido em imóveis, veículos de luxo e expansão da própria rede de coleta. A força-tarefa solicitou o bloqueio dos bens e aguarda decisão judicial sobre o sequestro patrimonial.
Furtos inusitados e impacto social
Nem mesmo espaços sagrados escaparam da ação do grupo. Em Aiuruoca, no Sul de Minas, integrantes da quadrilha levaram placas de identificação, crucifixos, imagens de santos, lápides e floreiras de um cemitério municipal. A destruição deixou famílias sem referência de túmulos e obrigou a prefeitura a reforçar a segurança no local.

Imagem: Internet
Os prejuízos alcançam ainda escolas, postos de saúde, repartições públicas e, principalmente, usuários de telefonia e internet. Interrupções no fornecimento de serviço, danos a postes e necessidade de reparo emergencial sobrecarregam as concessionárias e geram custos que acabam repassados à população.
Próximos passos judiciais
Com o encerramento do inquérito, o Ministério Público deve analisar a denúncia e oferecer ação penal contra os 26 envolvidos. Se condenados, eles podem pegar até 12 anos de reclusão por associação criminosa, além das penas específicas para furto qualificado, receptação e lavagem de dinheiro.
As investigações de caráter patrimonial continuam, pois a Polícia Civil acredita que exista capital oculto em nome de terceiros. Novas quebras de sigilo bancário e fiscal foram solicitadas e poderão ampliar a lista de réus. Paralelamente, as operadoras de telecomunicações calculam o ressarcimento pelos danos estruturais.
Engajamento das forças de segurança
A Operação Cyprium é vista pela cúpula da Polícia Civil de Minas Gerais como modelo de cooperação interestadual. A troca de inteligência com delegacias do Rio de Janeiro e da Bahia acelerou a coleta de provas e resultou na maior apreensão de fios de cobre da história da Zona da Mata.
O delegado responsável pelo caso destacou que a pulverização dos furtos em várias cidades dificultava a identificação de um elo central. A unificação dos inquéritos e o mapeamento financeiro, sustentado por laudos periciais, foram decisivos para comprovar a dimensão da fraude.
Reflexos para o mercado de sucata
Especialistas consultados pela corporação alertam que a alta cotação internacional do cobre incentiva crimes dessa natureza. A Polícia Civil pretende intensificar fiscalizações em ferros-velhos e exigir documentação de origem em toda a cadeia, na tentativa de sufocar o comércio irregular.
- Mais de 1,4 mil furtos confirmados
- R$ 150 milhões movimentados
- 26 indiciados
- Quatro empresas de fachada identificadas
- Uma tonelada de fios de cobre apreendida em Juiz de Fora
O inquérito segue agora sob análise do Ministério Público, enquanto a polícia mantém aberto um canal para denúncias. Qualquer informação sobre compra ou venda suspeita de cobre pode ser repassada de forma anônima por meio do Disque-Denúncia 181.
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