Mato Grosso voltou a liderar o ranking nacional de focos de calor em 2026. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam 4.553 registros no estado desde janeiro, o equivalente a 15,4% de todos os pontos de incêndio ativos ou em monitoramento no Brasil. Só nas últimas 48 horas, os satélites detectaram 227 novos focos no período da tarde, reforçando o sinal de alerta em plena estiagem.
A pressão cresce porque algumas ocorrências se estendem por semanas ou cobrem áreas extensas. Em Nova Santa Helena, no norte do estado, o fogo consumiu quase 15 mil hectares da zona de transição para a Floresta Amazônica em apenas dez dias, tornando-se o segundo maior incêndio do país este ano — atrás apenas de Lagoa da Confusão, no Tocantins. Já em Paranatinga, no centro-leste, as chamas persistem há 44 dias, configurando o evento de maior duração monitorado pelo INPE.
Mapa dos focos: onde o fogo é mais intenso
Os dados mais recentes do programa de monitoramento por satélite AQUA mostram que, de 1.º a 13 de agosto, Mato Grosso acumula 809 focos, seguido por Pará (580), Amazonas e Tocantins. Dentro do território mato-grossense, Paranatinga concentra 7,7% dos registros, liderando um ranking que ainda inclui Marcelândia (5,4%), Nova Maringá (4,4%) e Tangará da Serra (4,4%).
Na capital, Cuiabá, o cenário é menos dramático: houve queda de 50% na comparação com o mesmo período do ano passado — de oito para quatro pontos ativos. O desempenho, porém, não reduz o impacto regional. A fumaça proveniente dos incêndios em Nova Santa Helena já alcança Cláudia e Sinop, cidades que também sofrem com baixa umidade e temperatura elevada.
Incêndios de grandes proporções
- Nova Santa Helena – quase 15 mil hectares em dez dias.
- Paranatinga – 44 dias de fogo contínuo.
- Barra do Garças – pouco mais de 13 mil hectares queimados em apenas quatro dias.
O Corpo de Bombeiros mantém guarnições terrestres e uma aeronave de apoio em Nova Santa Helena desde 6 de agosto. As equipes trabalham em regime de revezamento para conter frentes de fogo que avançam sobre áreas de vegetação nativa e pastagens.
Por que Mato Grosso queima mais?
Agosto e setembro correspondem ao pico da seca no estado, quando a umidade relativa do ar costuma despencar abaixo de 30%. Nesse contexto, folhas, galhos e gramíneas secam rapidamente, tornando-se combustível em potencial. O coronel da reserva do Corpo de Bombeiros, Aluísio Metelo, explica que a combinação entre estiagem, altas temperaturas e vento acelera a propagação das chamas.
“Com menos água disponível na vegetação, qualquer faísca ganha força. A ventilação carrega fragmentos incandescentes para outros pontos e o fogo se multiplica”, resume o oficial.
Fator humano pesa
Embora a estrutura natural do Cerrado favoreça a ocorrência de incêndios, Metelo ressalta que aproximadamente 90% das ignições têm origem antrópica:
- Queimadas agrícolas mal controladas.
- Faíscas em margens de rodovias.
- Falhas em redes elétricas ou máquinas agrícolas.
- Atividades clandestinas e ações criminosas.
Determinar a causa exata exige perícia, mas a estatística reforça a necessidade de fiscalização. Desde 1.º de julho, vigora o período proibitivo para o uso do fogo em Mato Grosso, que se estende até 30 de novembro. Desobedecer à regra configura crime ambiental, sujeito a multas e até detenção.
Impactos imediatos na saúde e na economia
A fuligem e o material particulado resultantes dos incêndios agravam problemas respiratórios, especialmente em crianças e idosos. Hospitais de municípios do norte do estado já relatam aumento de atendimentos por alergias e crises asmáticas. No campo, produtores rurais enfrentam perdas em pastagens e custos extras com combate ao fogo.

Imagem: Internet
Além disso, o avanço das chamas sobre áreas de reserva legal pode comprometer a regularidade ambiental de propriedades rurais, elevando o risco de autuações e suspensão de créditos bancários vinculados ao Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Estratégias de combate e prevenção
Para este ano, o governo estadual mantém 29 bases descentralizadas do Corpo de Bombeiros e investiu na compra de kits de primeiras respostas entregues a prefeituras. Os equipamentos incluem sopradores, abafadores, bombas costais, EPIs e GPS para mapeamento de pontos críticos.
No campo da prevenção, técnicos da Defesa Civil e de secretarias municipais realizam palestras e vistorias em propriedades rurais, reforçando a importância de aceiros, manejo adequado de resíduos agrícolas e comunicação prévia em caso de queimas controladas (permitidas apenas fora do período proibitivo).
Apoio federal ainda é limitado
Apesar dos pedidos de apoio federal, o envio de tropas da Força Nacional de Segurança Ambiental ainda não foi confirmado. Enquanto isso, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) deslocou brigadistas para áreas de floresta amazônica, priorizando regiões com maior risco de dano irreversível.
Previsão para os próximos meses
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê que a umidade relativa do ar continue baixa até outubro, com possibilidade de pancadas isoladas de chuva apenas após a segunda quinzena de setembro. Caso o prognóstico se confirme, o potencial de queimadas permanece elevado, principalmente em áreas de pastagem degradada e cerrado ralo.
Autoridades estaduais lembram que, mesmo com a chegada das primeiras chuvas, troncos ocos e raízes subterrâneas podem manter brasas ativas por semanas. Por isso, o monitoramento por satélite e a vigilância comunitária seguem essenciais para detectar reinícios de fogo.
Como denunciar
Cidadãos podem acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193 ou usar o aplicativo MT Cidadão para encaminhar fotos e localização de focos suspeitos. As informações são repassadas em tempo real às centrais de operação, agilizando o despacho de equipes.
Até que o período seco se encerre, a expectativa dos órgãos ambientais é redobrar esforços de educação, fiscalização e resposta rápida, sob pena de o estado registrar números ainda mais altos de focos de calor e áreas devastadas em 2026.
