Quase seis em cada dez eleitores discordam da decisão do ministro Alexandre de Moraes que, em meados de julho, suspendeu por 90 dias as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro. É o que mostra levantamento Datafolha realizado na última semana, que também mediu a percepção pública sobre o regime domiciliar e as restrições impostas ao ex-mandatário.
Além de julgar a medida excessiva, a maioria dos entrevistados defende que Bolsonaro permaneça cumprindo pena em casa e não volte ao presídio, mas, ao mesmo tempo, considera correta a proibição de uso de redes sociais durante o período de detenção humanitária.
Desaprovação à decisão do STF
Segundo a pesquisa, 59% afirmam que Moraes “agiu mal” ao proibir o contato presencial entre pai e filho. Outros 36% entendem que a determinação foi apropriada, 2% avaliam que o ministro “nem agiu bem nem mal” e 4% não souberam opinar. O veto foi imposto após Flávio ler, em vídeo nas redes sociais, carta em que Bolsonaro manifestava apoio à pré-candidatura do senador ao Palácio do Planalto, conteúdo que, para Moraes, afrontaria as condições estabelecidas para a detenção.
O ministro justificou a medida alegando tentativa de instrumentalizar a situação jurídica do ex-presidente em benefício eleitoral direto do filho. A suspensão de visitas vale por três meses, prazo que pode ser renovado ou revogado conforme o comportamento das partes e a avaliação do Supremo.
Regime domiciliar conta com respaldo popular
Apesar da crítica ao veto, o mesmo contingente de 59% concorda que Jair Bolsonaro continue em prisão domiciliar. Apenas 35% desejam vê-lo de volta ao sistema prisional convencional, enquanto 6% não responderam. O ex-presidente cumpre pena de 27 anos e 3 meses de reclusão por crimes eleitorais e de responsabilidade e, desde 24 de março, encontra-se em casa graças a um entendimento humanitário do STF, que levou em conta quadro de broncopneumonia.
A autorização foi concedida também por Moraes, fixando 90 dias iniciais para tratamento médico. Nesse intervalo, Bolsonaro está sujeito a regras rígidas, entre elas a impossibilidade de acessar internet, celulares ou qualquer rede social, direta ou indiretamente.
Possível prorrogação
Neste mês, com o prazo original expirando, a defesa do ex-presidente pediu prorrogação do regime especial alegando que a recuperação pulmonar ainda não está completa. O Ministério Público Federal não se opôs, mas sugeriu revisão das condições de monitoramento eletrônico e visitas.
Redes sociais seguem proibidas
A restrição ao uso de plataformas digitais também foi testada pelo Datafolha. Para 62% dos entrevistados, Bolsonaro deve continuar banido das redes enquanto cumpre pena em casa. A parcela que defende liberação soma 35%; 3% não opinaram.
A tensão em torno do tema ganhou novo capítulo na convenção nacional do PL, no último domingo. Um vídeo gerado por inteligência artificial exibiu imagem e voz do ex-presidente declarando apoio à candidatura de Flávio. Moraes deu 48 horas para a defesa explicar se houve anuência de Bolsonaro. Caso seja confirmada, o gesto pode ser entendido como violação das medidas cautelares e, na visão de ministros, culminar até na revogação da prisão domiciliar.
Perfil da amostra e margens de erro
O levantamento Datafolha entrevistou 2.004 eleitores com 16 anos ou mais entre 22 e 23 de julho, em 139 municípios espalhados pelo país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança de 95%. O estudo está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-01166/2026.

Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Comportamento por preferência partidária
- Entre quem votou em Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022, 35% consideram que Moraes exagerou ao impedir visitas de Flávio;
- Já entre bolsonaristas, a discordância em relação ao uso de redes sociais chega a 32%, mostrando fissura dentro do próprio eleitorado do ex-presidente sobre a conveniência de sua presença digital.
Os recortes partidários têm margens de erro específicas: três pontos percentuais entre eleitores de Lula e quatro pontos entre os que escolheram Bolsonaro no pleito de 2022.
Decisões judiciais em sequência
Desde a condenação do ex-chefe do Executivo, o gabinete de Alexandre de Moraes tem sido palco de uma série de despachos que tentam equilibrar proteção à saúde, preservação da ordem pública e limites à interferência política do réu. Além da suspensão das visitas de Flávio e do questionamento sobre o vídeo criado por inteligência artificial, pesam sobre Bolsonaro obrigações como:
- uso obrigatório de tornozeleira eletrônica;
- proibição de contato com outros investigados nos mesmos inquéritos;
- entrega de passaporte;
- vedação a entrevistas ou declarações que possam ser interpretadas como ataque às instituições;
- comparecimento quinzenal virtual ao juízo de execução penal.
Advogados de defesa contestam parte dessas determinações e apontam que algumas delas não estavam previstas na sentença original, mas foram acrescentadas em decisões monocráticas posteriores. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, sustenta que as cautelares são necessárias para evitar reincidência em ataques às urnas e à democracia.
Reação do meio político
No Congresso, parlamentares de oposição classificaram o veto às visitas como “medida extrema”. Já líderes da base do governo argumentaram que a decisão busca impedir que Flávio transforme a pena do pai em palanque eleitoral antecipado. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, preferiu não comentar o mérito, mas defendeu respeito às decisões judiciais.
Perspectivas para 2026
A repercussão do caso evidencia o peso que a figura de Jair Bolsonaro continua tendo no cenário político, mesmo após a condenação. A sondagem do Datafolha foi realizada em meio ao lançamento da pré-candidatura de Flávio ao Planalto, movimento que tenta herdar capital eleitoral do pai. Especialistas em direito eleitoral alertam, entretanto, que qualquer participação ativa do ex-presidente na campanha poderá ser enquadrada como ilícito e desencadear nova disputa jurídica.
Enquanto isso, a defesa aposta na imagem de vítima de perseguição, argumento que ainda encontra eco em parcela expressiva do eleitorado. O Datafolha, ao medir opinião sobre o veto de Moraes, oferece indício de que, embora solidário à situação do ex-mandatário, o público também exige limites: rejeita interferência na cena política, mas não abdica de punições a quem tenta burlar regras.
Resta saber se as próximas pesquisas confirmarão essa aparente dualidade — solidariedade pessoal combinada a respaldo a restrições institucionais. Até lá, cada decisão do Supremo, cada movimento da família Bolsonaro e cada leitura de carta ou uso de avatar por inteligência artificial serão acompanhados em lupa pela sociedade e pelos atores políticos.
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