Um filme nascido em Brasília deu um passo decisivo rumo ao tapete vermelho de Hollywood. “A natureza das coisas invisíveis”, dirigido por Rafaela Camelo, foi incluído na lista de 15 títulos que disputam o posto de representante oficial do Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
Em 9 de setembro, a Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema analisará o grupo e escolherá apenas seis produções para uma pré-lista. Dessas, sairá o nome único que seguirá para a avaliação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.
Porta de entrada para o prêmio mais cobiçado do cinema
A etapa nacional é decisiva: somente o filme indicado pela Academia Brasileira de Cinema pode se inscrever no Oscar. A presença de “A natureza das coisas invisíveis” entre os 15 habilitados confirma a força do audiovisual produzido no Distrito Federal, que há anos luta por espaço e financiamento.
A obra é uma coprodução com o Chile e contou com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC). O roteiro começou a ser desenvolvido em 2019, mas as câmeras só foram ligadas em 2023, quando a equipe finalmente reuniu o orçamento necessário. Segundo a produtora Daniela Marinho, a longa gestação valeu a pena: “Planejamos cada etapa para chegar aqui”, afirma.
Estreia aplaudida e prêmios no currículo
O público brasiliense conheceu o longa em 2025, no encerramento da 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Antes disso, a produção já havia saído de Gramado com três Kikitos, o que reforçou a expectativa de boa recepção na capital federal. A sessão no tradicional Cine Brasília ficou marcada pela superlotação: metade da fila ficou do lado de fora. “Foi uma loucura, mas um indicador do carinho do público”, recorda Daniela.
Ameaças ao fomento cultural
Apesar do momento de comemoração, a equipe lembra que o caminho foi atravessado por cortes e atrasos em políticas públicas de cultura. O próprio FAC, que financiou parte do orçamento, enfrenta atrasos no repasse a projetos já aprovados. A incerteza colocou em risco inclusive a 59ª edição do Festival de Brasília — seria o primeiro cancelamento desde 1974, quando o evento parou em protesto contra a ditadura militar.

Imagem: Internet
Em julho, a falta de verba afetou o funcionamento do Cine Brasília, único cinema de rua do DF. Para Daniela, a indicação ao Oscar reforça a necessidade de manutenção desses instrumentos: “Sem eles, este filme não existiria. É uma conquista coletiva”.
Brasília também inspira outros pré-selecionados
A capital federal aparece ainda em “A conspiração Condor”, de André Sturm, outro dos 15 títulos escolhidos. O suspense político recria Brasília dos anos 1960, período marcado pelo regime militar, e utiliza cenários emblemáticos da cidade para narrar a articulação internacional que ficou conhecida como Operação Condor.
Lista completa dos 15 concorrentes brasileiros
- “100 Dias”, de Carlos Saldanha
- “A conspiração Condor”, de André Sturm
- “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai
- “A natureza das coisas invisíveis”, de Rafaela Camelo
- “Ato noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher
- “Cinco tipos de medo”, de Bruno Bini
- “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes
- “Feito pipa”, de Allan Deberton
- “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias
- “Nosso segredo”, de Grace Passô
- “O rei da internet”, de Fabrício Bittar
- “Quando vira a esquina”, de Chris Alcazar
- “Malês”, de Antonio Pitanga
- “Papagaios”, de Douglas Soares
- “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martin
Próximos passos
Depois que a comissão brasileira definir o nome que representará o país, o filme indicado terá de cumprir o calendário da Academia norte-americana, incluindo o envio de cópias legendadas, materiais de divulgação e exibições qualificatórias em Los Angeles. O anúncio da shortlist internacional, onde apenas 15 produções do mundo permanecem na disputa, costuma ocorrer em dezembro. Já as indicações finais de cinco títulos saem em janeiro, com a cerimônia do Oscar marcada para março de 2027.
Até lá, a equipe de “A natureza das coisas invisíveis” promete intensificar a campanha e reforçar a mobilização em torno dos mecanismos de fomento. “Se chegamos tão longe, é porque houve investimento público, trabalho coletivo e o engajamento do nosso público”, resume Daniela Marinho.
