Cidade do Tennessee que fabrica explosivos para os EUA mantém apoio fervoroso a Trump apesar da guerra

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    No momento em que a popularidade de Donald Trump bate recordes negativos nos Estados Unidos, a pequena Kingsport, no nordeste do Tennessee, segue na contramão. Lar da fábrica de explosivos Holston — peça-chave na produção de mísseis Patriot e ogivas usadas na guerra contra o Irã —, a cidade opera como um bastião de apoio ao presidente mesmo diante da alta do combustível e dos alimentos que castiga o país.

    A combinação de dependência econômica da indústria bélica, forte presença militar na comunidade e conservadorismo cristão cria um ambiente onde críticas ao conflito são raras. Enquanto pesquisas nacionais colocam Trump com 32% de aprovação, aqui o endosso ao republicano beira o devocional: Kingsport lhe deu maioria esmagadora nas três últimas eleições, refletindo a tendência do Tennessee, republicano há mais de duas décadas.

    Mísseis, empregos e mais de 300 igrejas

    Encravada nas Montanhas Apalaches e com cerca de 58 mil habitantes, Kingsport exibe dois símbolos onipresentes. O primeiro é a fé: “há uma igreja em cada rua”, resume o democrata local Adam Teague. O segundo é a indústria bélica. Fundada durante a Segunda Guerra Mundial, a Holston Army Ammunition Plant emprega aproximadamente mil pessoas e é o único fornecedor nacional de determinados componentes explosivos, garantindo contratos estáveis com o Exército norte-americano independentemente de quem ocupe a Casa Branca.

    Para veteranos como David Carter, de 66 anos, a fábrica representa segurança financeira e dever patriótico. “O motivo de irmos lá fora e mantermos tudo sob controle é para que o problema não bata à nossa porta”, afirma, referindo-se às operações militares no Oriente Médio. James Camper, 63, vai além: “Sinceramente, deveríamos transformar aquele lugar em estacionamento”, diz, numa defesa sem rodeios de bombardeios maciços.

    Emprego garantido em tempos de guerra

    Daniel Overstreet, 53 anos, manobra sua Harley-Davidson pelo centro histórico e solta uma frase comum entre os moradores: “A fábrica vai continuar aberta, estejamos em guerra ou não”. A percepção de estabilidade, somada ao salário médio acima da realidade regional, dificulta qualquer crítica frontal ao conflito anunciado por Trump em fevereiro de 2026 — na ocasião, o presidente prometeu “impedir que o Irã tenha uma arma nuclear”.

    O resultado prático da guerra, porém, pesa no bolso de todo o país. O galão de gasolina ultrapassou US$ 4 — cerca de R$ 5,48 o litro — e o preço de alimentos disparou. Mesmo assim, em Kingsport as queixas raramente miram o líder republicano. “O presidente é basicamente um fantoche do Congresso e do Senado”, diz Overstreet, isentando Trump e responsabilizando Washington pelos aumentos.

    Por que a lealdade resiste

    Mais de 10% da população local é formada por veteranos das Forças Armadas, e muitos jovens ainda servem. Esse vínculo militar, somado a pautas sociais conservadoras — especialmente a oposição ao aborto —, fortalece o sentimento de que qualquer alternativa democrata seria moralmente inaceitável.

    Pam Robinson, 65 anos, passou duas décadas numa indústria química e se descreve como cristã antes de qualquer alinhamento partidário. Ela admite desconforto com a inflação, mas apoia bombardeios no Irã “se isso impedir que alguém tenha uma bomba nuclear”. O evangelista William Bogle, 75, concorda: considera Trump “imperfeito”, mas ainda a melhor opção. “Minha esposa aperta cada centavo no supermercado, mas eu sei que ele quer que o país prospere”, diz.

    Fé sobre política

    A influência religiosa chega a moldar a acolhida de novos moradores. Bogle resume: “Vivemos num lugar maravilhoso; se você não for conservador, provavelmente não se encaixa”. A convicção de que valores cristãos precisam ser protegidos também explica a ausência de competitividade eleitoral: nas últimas eleições locais, sete dos onze distritos do condado tinham apenas candidatos republicanos.

    Vozes que discordam, mas cochicham

    A minoria progressista prefere a discrição. Tatuador, gay e democrata, Adam Teague conta que antes de 2016 vestia camisetas com as cores do arco-íris. “Depois que Trump assumiu, dei uma segurada, só para me sentir mais seguro.” Ele é exceção visível numa paisagem onde as placas “Jesus em primeiro lugar” se misturam a adesivos “MAGA” nos carros.

    Entre os jovens, surgem sinais de desgaste. As universitárias Mary Herron, Emily Villalpando e Caden Bayless, todas de 21 anos, relatam que colegas que votaram em Trump já demonstram arrependimento. Direito ao aborto e endurecimento na imigração lideram a lista de desconfortos, mas elas reconhecem que virar a maré eleitoral no chamado “Cinturão Bíblico” será tarefa de longo prazo. “A geração mais nova pode mudar algo, porém, dado o lugar onde vivemos, é uma mudança muito difícil”, admite Bayless.

    Quando a guerra parece distante

    Pam Robinson acredita que a postura local seria diferente se a guerra no Irã gerasse combate corpo a corpo com alto número de baixas americanas. A ausência de sacrifícios diretos — somada ao fato de que a própria economia da cidade ganha reforço da produção de explosivos — ajuda a explicar a dissonância entre Kingsport e o restante do país.

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    No fim das contas, gasolina cara e inflação ainda não abalaram o elo entre fé, fábrica e fidelidade política que sustenta Kingsport. Enquanto mísseis deixam as linhas de montagem rumo ao front no Oriente Médio, as pregações de domingo e as placas “Trump 2028” convivem sem tensão aparente nas mesmas esquinas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.