Júlia Lima, 21 anos, morreu a tiros no condomínio onde morava em Fort Myers, na Flórida, quando se preparava para visitar os avós em Salvador. O principal suspeito é o ex-namorado Willian Rosa do Amaral, mineiro de Engenheiro Caldas, que se apresentou à polícia horas depois e está preso por homicídio em segundo grau.
Filha de pais baianos e criada parte da adolescência na capital, a jovem voltaria ao estado na virada de julho para agosto. Segundo a família, a viagem incluía férias e um tratamento dentário. O reencontro, entretanto, foi interrompido pela violência que agora mobiliza autoridades norte-americanas e o governo brasileiro.
Laços que atravessaram fronteiras
Nascida nos Estados Unidos, Júlia passou a frequentar Salvador ainda criança. Durante uma recessão econômica norte-americana, os pais decidiram retornar ao Brasil e se instalaram em Guarajuba, na Região Metropolitana. Ali, a menina estudou no Colégio ISBA e criou vínculos duradouros com os avós, Luiz Carlos Gantois Santos e a esposa, com quem morou depois da separação dos pais.
Mesmo após voltar para os EUA, ela mantinha contato diário com a família baiana. “Era bom dia todo santo dia”, relatou o avô, que exibe o nome da neta tatuado no braço. As ligações constantes, as mensagens e a viagem já marcada reforçavam a ligação afetiva que, para a família, transformou Salvador em segunda casa de Júlia.
Cronologia do feminicídio na Flórida
Noite de festa e emboscada
No sábado, 24 de julho, Júlia saiu com amigos para uma festa em outra cidade da Flórida e dormiu na casa de um deles. Na manhã seguinte, a mãe recebeu a notícia de que o carro da filha havia sido encontrado bastante danificado no estacionamento do condomínio onde ela morava. Ao descer as escadas para verificar o veículo, Júlia foi surpreendida por Willian, que, de acordo com o relato familiar, disparou duas vezes e fugiu em seguida.
A versão divulgada pela família ainda não foi confirmada oficialmente, mas coincide com o chamado feito à polícia de Fort Myers, que encontrou a vítima já sem vida, com ferimentos provocados por arma de fogo, na região da Winkler Avenue.
Suspeito se entrega após fuga
Horas mais tarde, Willian gravou um vídeo curto afirmando que se entregaria e compareceu espontaneamente à delegacia local. Detido, passou a responder por homicídio em segundo grau – tipificação que, na legislação da Flórida, se aplica quando não há premeditação comprovada, mas existe intenção de matar. Ele permanece sob custódia enquanto o caso é investigado.
Relacionamento marcado por interesse no green card, diz família
O romance entre Júlia e Willian durou cerca de três meses. Segundo o avô da vítima, o mineiro demonstrava pressa em oficializar o casamento para obter o green card, documento que concede residência permanente nos Estados Unidos. Quando percebeu a motivação, a jovem teria decidido terminar o namoro.

Imagem: Internet
“Ele insistia que ela era a mulher da vida dele”, contou Luiz Carlos. Ainda de acordo com a família, não há registros de agressões físicas anteriores, mas o comportamento possessivo do suspeito teria aumentado após o término. Para o avô, a recusa ao casamento deflagrou a decisão violenta: “Parece que ele pensou: ou fica comigo ou não fica com ninguém”.
Providências legais e apoio consular
Acusação de homicídio em segundo grau
A Polícia de Fort Myers reuniu depoimentos de testemunhas e imagens de câmeras de segurança do condomínio. Com base nesses elementos, Willian foi autuado por second-degree murder, crime que pode resultar em pena de prisão perpétua, dependendo das circunstâncias e da sentença do tribunal do condado de Lee, responsável pelo processo.
O corpo de Júlia deve ser liberado após a perícia de Medicina Legal norte-americana. A família solicitou cremação nos Estados Unidos, decisão tomada para evitar o desgaste de trasladar o corpo ao Brasil e reduzir o tempo de espera.
Acompanhamento do Itamaraty
O Ministério das Relações Exteriores informou que o Consulado-Geral do Brasil em Miami acompanha o caso e oferece apoio documental à família. Entre as atribuições do serviço consular estão a intermediação com autoridades locais, a emissão de certidões e auxílio na obtenção de cópias do inquérito para eventual processo no Brasil.
Enquanto aguarda os trâmites, a família se concentra em homenagear a jovem, lembrada como “iluminada e estudiosa” pelo avô. A lembrança do sotaque baiano e dos verões passados em Salvador agora contrasta com o luto repentino, que também chama atenção para a escalada de feminicídios envolvendo brasileiros no exterior.
