O chanceler iraniano Abbas Araqchi reagiu com veemência ao pacote de punições prometido por Donald Trump contra Teerã. Segundo o ministro, o que o presidente americano batizou de “Dia D econômico” não passa de “cortina de fumaça” para problemas internos dos Estados Unidos e terminará em “mais uma derrota” para Washington.
A declaração, feita nesta quinta-feira (20), veio menos de 24 horas depois de Trump anunciar a “operação econômica mais esmagadora já vista” contra um país. O republicano ameaça sufocar finanças, comércio e transportes do Irã e advertiu que qualquer nação que dê suporte à economia iraniana sofrerá “consequências econômicas enormes”.
Escalada retórica entre Teerã e Washington
Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal iraniana, Araqchi afirmou que a Casa Branca volta a recorrer à pressão máxima por não ter obtido um acordo sobre o programa nuclear de Teerã. “Eles não aprenderam com os fracassos anteriores”, ironizou o ministro, lembrando que o país já resiste a um amplo regime de sanções desde 2018, quando os EUA abandonaram o pacto nuclear.
Trump, por sua vez, justificou a ofensiva alegando que “o Irã continua a representar uma ameaça”. O presidente não detalhou mecanismos da nova etapa de punições, mas listou possíveis alvos: contrabando de petróleo, linhas de swap cambial, registros de navios e empresas de fachada que viabilizem negócios iranianos no exterior.
Ameaças a parceiros comerciais
O ineditismo da medida está no aviso direto a terceiros. “QUALQUER país que permita que suas instituições financeiras, empresas, aeroportos ou órgãos governamentais forneçam apoio ao Irã também enfrentará consequências econômicas ENORMES”, escreveu Trump em rede social. Até aliados históricos, como Alemanha, Japão e Coreia do Sul, foram colocados sob observação, pois integram a lista de maiores compradores de derivados iranianos.
Grandes economias emergentes também podem ser afetadas. A China, principal destino de produtos iranianos em 2022, importou cerca de US $ 22 bilhões no período. Já a Índia contabilizou US $ 1,34 bilhão em comércio bilateral nos dez primeiros meses de 2025, com destaque para alimentos e fármacos.
Rede de negócios resiste às sanções
Embora o Irã já enfrente barreiras bancárias, de transporte marítimo e de acesso a tecnologia ocidental, ainda mantém fluxo comercial relevante. Dados do Banco Mundial indicam exportações para 147 países apenas em 2022, impulsionadas pelo petróleo e pela produção agrícola.
Nesse cenário, especialistas questionam até que ponto novas ameaças conseguirão sufocar receitas do regime iraniano. O país desenvolveu sistemas de trocas indiretas, uso de criptomoedas e acordos de compensação que driblam os bloqueios financeiros convencionais. “Quanto maior a pressão, mais criativas se tornam as rotas de comércio”, sintetiza um analista do Oriente Médio em Teerã.
Efeitos potenciais na economia global
A aposta de Trump em sanções extraterritoriais — quando terceiros são punidos por negociar com um alvo específico — tende a gerar atritos diplomáticos. Europa e Ásia já manifestaram desconforto com punições unilaterais que atingem empresas de seus territórios. O receio é de interrupção no fornecimento de petróleo e alta nos preços de energia, num momento de recuperação econômica pós-pandemia.
Os Estados Unidos contam com a força do dólar e de seu sistema financeiro para coagir bancos estrangeiros a cortar laços com Teerã. Entretanto, o avanço de moedas digitais estatais e de mecanismos de compensação fora da órbita americana, como o sistema Instex criado pela União Europeia em 2019, pode reduzir a eficácia dessa ferramenta no médio prazo.

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Brasil fora do epicentro, mas atento
O Irã não está entre os 20 maiores parceiros comerciais do Brasil, mas representa destino relevante para commodities como milho, soja e açúcar. Em 2025, as vendas brasileiras alcançaram US $ 2,9 bilhões, enquanto as importações ficaram em torno de US $ 84,5 milhões, concentradas em ureia e pistache.
Diplomatas em Brasília acompanham o desdobramento para avaliar eventuais impactos sobre bancos e armadores nacionais que operam rotas com o Golfo Pérsico. Até o momento, o Itamaraty não se pronunciou sobre a nova investida de Washington, mas empresários do agronegócio temem gargalos logísticos caso seguros marítimos passem a recusar navios com escala em portos iranianos.
Peso político interno nos EUA
Analistas em Washington apontam que a retórica de “Dia D econômico” serve também a fins eleitorais. Ao endurecer o discurso contra Teerã, Trump fala diretamente a sua base conservadora, que vê o Irã como ameaça à segurança de Israel e à ordem internacional. A estratégia, porém, pode isolar ainda mais os EUA de parceiros europeus, que preferem retomar negociações multilaterais sobre o programa nuclear iraniano.
Para Araqchi, esse isolamento já começou. “Quanto mais eles pressionam, mais perdem credibilidade”, declarou o chanceler. Ele sugeriu que Teerã responderá de forma “proporcional e inteligente”, sem detalhar contramedidas.
Próximos passos incertos
Sem datas ou instrumentos concretos anunciados, a nova rodada de sanções ainda é vista como ameaça no campo das declarações. Economistas lembram que ofensivas desse tipo costumam exigir extensa regulamentação do Departamento do Tesouro americano antes de surtir efeito real.
Enquanto isso, Teerã reforça laços com Pequim e Moscou, que enxergam oportunidade de ampliar influência no Oriente Médio. A sucessão de embargos, paradoxalmente, impulsionou projetos de infraestrutura financiados pela China em portos iranianos e no corredor econômico que liga o Golfo ao Mar Cáspio.
Risco de escalada militar
O histórico recente mostra que tensões econômicas entre EUA e Irã podem transbordar para o campo militar, como ocorreu em 2020 com ataques a instalações petrolíferas sauditas e ao general Qassem Soleimani. Por ora, contudo, fontes diplomáticas consideram baixa a probabilidade de confronto direto, já que ambos os governos enfrentam desafios domésticos: inflação alta no Irã e calendário eleitoral nos Estados Unidos.
Seja qual for o desfecho, o chanceler Abbas Araqchi deixou claro que Teerã não pretende recuar. “Estamos acostumados a resistir. O que eles chamam de Dia D, nós chamamos de rotina”, provocou, encerrando um novo capítulo na longa disputa entre os dois países.
