Influenciadora relata obstáculos na adoção de seis filhos e alerta: “Carinho sem suporte não cria vínculo”

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    Quando Fernanda Fabris, 39 anos, abriu a porta de casa para quatro irmãos vindos de um abrigo, recebeu muito mais do que sonhava: crises de ansiedade infantil, raiva declarada e longos silêncios. Anos depois, já mãe de seis crianças adotadas — nenhuma delas ainda bebê —, a influenciadora conta que amor “é a faísca, não o fogo” e que os primeiros meses ao lado dos filhos foram marcados por testes de sobrevivência mútuos.

    A cada chegada, Fernanda precisou revisitar lutos pessoais, reorganizar a rotina e aprender a decifrar comportamentos forjados por traumas. A história da família, hoje unida, revela as camadas invisíveis que cercam a adoção tardia no Brasil e questiona o mito de que bastaria acolher para que o afeto floresça.

    Doze anos de tratamentos até o “não” definitivo à barriga

    Entre os 20 e os 30 anos, Fernanda passou por investigações médicas e três episódios de depressão enquanto esperava engravidar. O diagnóstico que ouvia era sempre emocional, e a resposta “logo acontece” mantinha viva a cobrança — própria, familiar e social — de provar a maternidade pelo parto. Quando um especialista sugeriu fertilização in vitro, a jovem percebeu que o procedimento não fazia sentido para ela. Teve início, então, um luto de 18 meses até reencontrar o plano que, desde a adolescência, lhe parecia natural: adotar.

    Quatro crianças de uma vez

    Em 2015, já habilitada, Fernanda se deparou com a foto de quatro irmãos de 3, 6, 9 e 11 anos no programa “Adote um Boa Noite”, do Tribunal de Justiça de São Paulo. O marido, Maurício, temeu a responsabilidade, e a equipe técnica recebeu o casal com cautela. Três meses de cursos e entrevistas depois, a guarda provisória foi concedida. O romance acabou na primeira noite: o caçula teve espasmos parecidos com convulsão; a menina de nove anos repetia que não queria “aquela mãe”; o garoto de seis dizia sentir falta do abrigo. Segundo a psicóloga Renata Travain, que hoje acompanha a família, reações de rejeição são mecanismos de defesa adquiridos em sucessivas rupturas.

    Testes diários de permanência

    • O menino mais novo chorava ao ser acolhido no colo, intensificando as crises.
    • Flávia, a filha do meio, desfazia penteados para checar se a mãe insistiria.
    • O primogênito, de 11 anos, alternava apatia e agressividade diante de regras simples.

    A cada explosão, Fernanda precisava manter a previsibilidade — hora de dormir, comida na mesa, escola — para que o ambiente ganhasse sentido de “casa” e não de novo abrigo.

    Puerpério sem fraldas

    A psicóloga Renata Travain compara a fase inicial da adoção tardia a um puerpério: sem hormônios nem fraldas, mas repleto de noites em claro, insegurança sobre o papel materno e reorganização logística. “Quem adota precisa de uma rede de apoio tão robusta quanto a de quem tem um recém-nascido”, resume a especialista. Para Fernanda, o desafio foi multiplicado por quatro calendários escolares, consultas médicas e demandas emocionais distintas.

    O relógio dos 18 anos e a chegada de Nati

    Depois de estabilizar a dinâmica com os primeiros filhos, o casal começou a participar de ações sociais em abrigos. Em uma visita, conheceu Nati, então com 16 anos, que temia completar 18 e ser desligada do sistema de acolhimento. A intenção inicial era o apadrinhamento afetivo, mas, sem programa formal na cidade, a convivência evoluiu para adoção por vínculo. Nati chegou “boa demais para ser verdade”, obedecendo a cada ordem sem contestar. Só quando a sentença saiu, e a jovem se sentiu segura, surgiram as feridas: crises de ansiedade, dificuldade de confiar e lacunas educacionais.

    Quando a obediência assusta

    Fernanda entendeu que o “comportamento modelo” escondia medo de rejeição. Com acompanhamento terapêutico, Nati, hoje com 21 anos, cursa o último ano da faculdade e participa de grupos de discussão sobre juventude pós-abrigos.

    Emanuel, o filho que não lia aos 17

    Em 2022, Fernanda viu a foto de Emanuel, pernambucano de 17 anos apaixonado por plantas e música gospel, e hesitou: estava disposta a recomeçar? O garoto manteve silêncio absoluto nos primeiros encontros virtuais e também durante cinco dias de convivência no Recife. A primeira frase surgiu somente no avião que o levou a São Paulo. Dois meses depois, a família descobriu que o novo filho não estava alfabetizado e frequentava, por promoção automática, a quinta série.

    Da exclusão escolar ao ofício de jardineiro

    1. Uma escola de Educação de Jovens e Adultos o desconvidou após a primeira dificuldade de leitura.
    2. Com intervenção da vara da infância, Emanuel passou a ter aulas particulares com psicopedagogas.
    3. Em oito meses aprendeu a ler e escrever, mas não se adaptou ao ensino tradicional.
    4. Hoje trabalha como jardineiro e estuda horticultura, atividade que resgatou sua autoestima.

    “Filho não precisa de mecânico, precisa de pertencimento”, concluiu Fernanda ao entender que consertar era menos importante do que sustentar sonhos possíveis.

    Os pilares que sustentam a família

    Da experiência, mãe e psicóloga elencam pontos de atenção para quem planeja adotar:

    • Expectativa realista – vínculo não é imediato; nasce de repetição e cuidado.
    • Segurança via rotina – horários, sono adequado e brincadeira reduzem o medo.
    • Respeito ao passado – valorizar a história anterior evita que a criança sinta culpa por sentir saudade.
    • Apoio terapêutico – pais e filhos precisam de espaço profissional para elaborar lutos.
    • Rede ampliada – avós, tios e amigos devem rever crenças sobre adoção e trauma.

    Mitos derrubados no dia a dia

    Fernanda descobriu que a maioria das crianças em abrigo não foi “deixada” pela família, mas retirada por medida protetiva. Negligência — muitas vezes atravessada por pobreza e dependência química — aparece antes do abandono voluntário. Reconhecer essa origem ajuda os irmãos a compreender que a culpa não era deles e a manter, quando saudável, laços com parentes biológicos.

    Processo em andamento

    Quase dois anos após a chegada de Emanuel, a influenciadora admite que o laço ainda se firma. “Vínculo é estrada de mão dupla: o filho precisa sentir que pode ser quem é sem medo de ser devolvido; a mãe, de não ser amada de volta”, diz. Entre sessões de terapia familiar, aulas de reforço e muita jardinagem, os seis jovens circulam pela casa que, dia a dia, aprende a abrigar novas versões de todos eles — inclusive dos pais.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.