Indústrias de alimentos driblam paradas inesperadas apostando em manutenção preventiva e estoque estratégico

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    Uma falha em um motor de esteira pode custar horas de produção, comprometer contratos de entrega e até deteriorar produtos perecíveis. Para grandes frigoríficos e fabricantes de alimentos, o risco de a linha parar de forma repentina deixou de ser apenas um problema operacional: tornou-se assunto estratégico. Empresas do setor vêm reformulando seus departamentos de manutenção, combinando planejamento rígido, sensores inteligentes e estoques de emergência para evitar que um único defeito paralise toda a cadeia.

    O movimento é confirmado pela Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos (Abraman). Segundo a entidade, cresce o número de indústrias que deixam a postura corretiva — intervenção só após a quebra — e migram para rotinas preventivas e preditivas, elevando os indicadores de confiabilidade e disponibilidade dos equipamentos.

    Do planejamento à linha de frente

    A engrenagem que sustenta a nova cultura começa no Planejamento e Controle da Manutenção (PCM). A área define quais máquinas são críticas, estabelece frequência de inspeções, organiza ordens de serviço e encaixa cada intervenção nos intervalos mais convenientes ao ritmo de produção. Sem essa visão de agenda, toda tentativa de ganhar tempo com a manutenção preventiva pode acabar esbarrando na indisponibilidade de técnicos, peças ou janelas de parada.

    Em frigoríficos de grande porte, por exemplo, rolamentos, sistemas de movimentação, trocadores de calor e estruturas metálicas possuem planos de manutenção diferenciados. A prioridade é dada aos equipamentos cujo eventual colapso interromperia a etapa de resfriamento ou de abate, consideradas a “espinha dorsal” da planta. O PCM direciona recursos humanos e materiais, evitando desperdício de horas-homem e reduzindo custos com reparo emergencial.

    Abraman aponta ganhos de confiabilidade

    Levantamentos internos da associação mostram que companhias que investem em PCM robusto registram queda de até 30% nas intervenções corretivas. O resultado aparece no indicador de disponibilidade — a proporção de tempo em que o equipamento está apto para operar —, que em alguns casos ultrapassa a meta de 95% estipulada por grandes grupos alimentícios.

    Sensoriamento transforma falha em dado

    Se o planejamento responde ao “quando” intervir, a manutenção preditiva revela o “porquê”. A instalação de acelerômetros, termopares e sensores de vibração em motores, redutores e eixos gera um fluxo constante de dados. Algoritmos detectam anomalias antes que o olho humano perceba ruídos ou aquecimento fora do padrão. Assim, o técnico pode substituir um rolamento na próxima folga de produção, em vez de correr para apagá-lo quando já travou.

    Na prática, sistemas de monitoramento em tempo real medem variações mínimas de temperatura e oscilação que denunciam desalinhamento, desgaste ou insuficiência de lubrificação. Alertas chegam ao celular do supervisor, que agenda a manutenção sem interromper turnos inteiros. O investimento inicial em sensores costuma ser recuperado na primeira grande falha evitada, sobretudo quando a perda de lotes de carne, lácteos ou congelados representaria prejuízo muito superior.

    Integração com o ERP agiliza decisão

    Outra tendência é conectar a plataforma de monitoramento ao sistema de gestão empresarial (ERP). Dessa forma, ao receber um alarme de vibração fora do limite, o software já emite a ordem de serviço, consulta o estoque de peças e reserva a equipe responsável. O tempo entre identificação do problema e execução cai drasticamente.

    Peças críticas à mão encurtam reparos

    Mesmo o melhor sensor não impede cem por cento das substituições. Quando chegar a hora, ter o componente certo na prateleira faz toda a diferença. Para não transformar manutenção programada em parada prolongada, frigoríficos mantêm um “estoque de guerra” composto por itens de maior desgaste ou de fornecimento lento.

    Motores, redutores, correntes, rolamentos de grande porte e painéis eletrônicos costumam integrar a lista. O cálculo do que manter leva em conta custo de aquisição, prazo médio de reposição e impacto na linha. Há casos em que a peça fica um ano parada, mas a empresa prefere esse ônus a correr o risco de ficar sem produzir durante semanas.

    Peças intercambiáveis aceleram troca

    A adoção de componentes intercambiáveis simplifica ainda mais o processo. Em vez de remover todo um conjunto mecânico, bastam poucos parafusos para encaixar o módulo de reposição. A reforma do item retirado ocorre fora da planta, sem pressão de tempo. Empresas especializadas, como a catarinense Junior Frigometal, produzem e reformam esses módulos, ajustando-os às especificações de cada cliente.

    Parceiros externos reforçam o time interno

    Com o avanço da automação, a manutenção de equipamentos frigoríficos exige competências que nem sempre fazem parte do quadro fixo das indústrias. Por isso, crescem os contratos de longo prazo com fornecedores que vão além do simples fornecimento de peças. Eles participam do desenho do plano de manutenção, treinam operadores e oferecem laboratório para reforma de componentes.

    No modelo de parceria, a empresa externa garante prazos de entrega, mantém histórico detalhado dos equipamentos e, em alguns casos, disponibiliza técnicos residentes na planta. O fabricante de alimentos reduz custos com pessoal altamente especializado e ganha acesso a know-how atualizado.

    Modernização progressiva sustenta desempenho

    A estratégia não se limita a reparos. Linhas mais antigas passam por retrofits, em que motores obsoletos dão lugar a modelos de alta eficiência energética, enquanto painéis analógicos cedem espaço a CLPs conectados à rede. Modernizar sem paralisar a produção é desafio que impõe cronogramas noturnos, fins de semana ou feriados, respeitando as exigências de higiene e temperatura peculiares ao segmento de alimentos.

    Indicadores viram bússola da gestão

    Nenhuma iniciativa se sustenta sem medição. Entre os KPI mais acompanhados estão:

    • MTBF (Mean Time Between Failures): intervalo médio entre falhas; quanto maior, melhor.
    • MTTR (Mean Time To Repair): tempo médio de reparo; ideal é reduzir continuamente.
    • Disponibilidade operacional: porcentagem de tempo em que a linha pode produzir.
    • Confiabilidade: probabilidade de o equipamento atuar sem falhas no período planejado.

    Esses números orientam investimentos, definem bonificações de equipe e sinalizam à diretoria quando é hora de substituir, reformar ou apenas ajustar um componente. A Abraman considera o conjunto de métricas a principal referência para qualificar a gestão de ativos em todo o país.

    Produção ininterrupta como vantagem competitiva

    Em um mercado de margens apertadas e contratos rígidos de entrega, manter a fábrica operando tornou-se diferencial competitivo. Quem equilibra planejamento, tecnologia e resposta rápida à falha evita desperdício, reduz custos logísticos e protege a reputação perante redes de varejo e exportadores.

    Para chegar lá, o setor de alimentos brasileiro aposta cada vez mais em manutenção industrial de alto nível. Afinal, quando cada minuto parado significa toneladas que deixam de ser embaladas, prevenir nunca foi tão lucrativo — e a linha não pode esfriar.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.