O tradicional burburinho de recreio foi substituído, por uma manhã, pelo vaivém típico da porta de teatro. Em celebração aos seus 50 anos, o Grupo Corpo decidiu presentear centenas de crianças e adolescentes da Região Metropolitana de Belo Horizonte com ingressos gratuitos para o espetáculo “Piracema”. A iniciativa, restrita à capital mineira, pretende aproximar um público que raramente cruza a catraca de uma casa de espetáculos.
Desde o primeiro sinal, as poltronas se enchem de estudantes vindos de escolas públicas e particulares. Para muitos, é estreia absoluta diante de uma companhia reconhecida mundialmente — experiência que, segundo os organizadores, pode germinar futuros artistas ou, no mínimo, novos frequentadores de dança.
Plateia juvenil lota o teatro em pleno horário escolar
Empolgados, os jovens trocaram o uniforme por expectativas. “Nunca tive a oportunidade, ninguém nunca me chamou”, comentava o secundarista Iago Ferreira, 15 anos, antes de se acomodar. Ao lado, Ana Luiza dos Santos, 13, tentava adivinhar as sensações que viriam: “Vai ser emocionante, lindo, com certeza”.
Aos poucos o rumor de conversas se dissolve quando as luzes caem. No palco, 22 bailarinos dão corpo a “Piracema”, coreografia assinada por Rodrigo Pederneiras em 2023. O trabalho evoca o esforço dos peixes que sobem o rio para desovar, metáfora escolhida para retratar meio século de persistência artística da companhia mineira. “É a subida, a dificuldade, mas também a renovação, o recomeço”, define o coreógrafo.
Primeiro contato com a dança profissional
Para a maioria na plateia, a coreografia rompe fronteiras antes inimagináveis. A estudante Sophia Pereira, 14, foi direta: “É como se eu estivesse ali dentro, atuando com eles. Um dia quero viver assim”. A colega Emanuelle Nascimento, 15, enxergou mais longe: “Eles mostram que a gente também pode dançar no nosso próprio lugar”.
O entusiasmo não surpreende Cláudia Ribeira, diretora de programação do Grupo Corpo. A gestora explica que, duas vezes por semana, vans deixam os estúdios da companhia rumo às escolas para “pescar” novos espectadores. “A gente quer fisgar o coraçãozinho deles”, brinca, repetindo o vocabulário aquático do espetáculo.
“Piracema”: metáfora cênica de 50 anos de estrada
Themes de renovação e resiliência aparecem não apenas na narrativa coreográfica, mas no desenho visual da montagem. O libreto faz da enxurrada sonora composta por Marco Antônio Guimarães — fundador do grupo Uakti — um fluxo constante, onde vozes humanas, cantos de pássaros e percussão recreiam a sinfonia de um rio em movimento.
Cenário sustentável com 80 mil tampas de lata
A cenografia, assinada por Paulo Pederneiras, também irmão dos fundadores, exibe uma cortina composta por mais de 80 mil tampas de latas de sardinha. Dispostas como grandes escamas, as peças metálicas refletem a iluminação e sugerem cardumes que mudam de cor conforme os bailarinos avançam. O movimento pendular dos objetos amplia a ilusão de correnteza, enquanto reforça o compromisso ambiental do grupo ao reciclar material cotidiano.
O figurino, em tons de cinza e prata, destaca a musculatura dos intérpretes e dialoga com a estética industrial do painel. Passos que desafiam a gravidade — marca registrada do Grupo Corpo — arrancam suspiros da plateia adolescente, acostumada a ver esse tipo de acrobacia somente em telas.

Imagem: Internet
Conversa prolonga a experiência após o último aplauso
Quando o pano baixa, ninguém corre para a saída. Artistas retornam ao palco para um bate-papo descontraído. Sentados na beira da ribalta, respondem a curiosidades sobre rotina de ensaios, lesões e o sustento de uma carreira de bailarino. “A gente fica estimulada a trazer mais arte quando vê tanto interesse”, confessa a bailarina Karen Rangel.
O diálogo, segundo professores presentes, transforma o espetáculo em aula viva de artes cênicas, educação física e até biologia, ao discutir o ciclo dos peixes. É também, para os artistas, oportunidade de entender o impacto da obra além da crítica especializada.
Projeto permanece em BH, mas a turnê é nacional
As sessões educativas acontecem somente em Belo Horizonte, cidade onde a companhia foi fundada em 1975 pelos irmãos Pederneiras. A gratuidade é viabilizada por patrocinadores privados e pela bilheteria dos espetáculos noturnos, vendidos ao público em geral.
Já a montagem de “Piracema” tem calendário itinerante até o fim de 2026. Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e Brasília receberão a coreografia, embora sem a etapa de mediação voltada especificamente a estudantes locais. A agenda detalhada será divulgada progressivamente no site oficial do Grupo Corpo.
Enquanto isso, na capital mineira, o corredor de entrada do teatro virou extensão da sala de aula. Ao ver o movimento de mochilas coloridas, Rodrigo Pederneiras relembra seu próprio despertar artístico, ainda adolescente, no mesmo endereço: “Se 10% desses meninos voltarem ao teatro por conta própria, já teremos cumprido nossa missão de aniversário”.
Para muitos dos que deixaram as poltronas nessa temporada comemorativa, a primeira ida ao teatro terminou carregando outra certeza: a de que futuro da dança, ao menos em Belo Horizonte, pode estar sentado logo nas primeiras fileiras.
