Em menos de 30 dias, a Vila Nha-Nhá, em Campo Grande, virou alvo de uma sequência de furtos de hidrômetros que já soma mais de 30 ocorrências, concentradas principalmente na Rua do Carneiro. A falta repentina de água, a necessidade de pagar por novos equipamentos e a insegurança constante transformaram a rotina do bairro.
A audácia dos criminosos chama atenção: eles agem de madrugada, no início da manhã e até em plena luz do dia, segundo relatos de vizinhos que passaram a reforçar muros e instalar grades para tentar proteger as instalações. “Precisamos de segurança com urgência; parece que não há hora certa para eles aparecerem”, lamenta Rosenilda Pereira, presidente da associação local.
Escalada de crimes a qualquer hora
A estimativa de Rosenilda parte de relatos recolhidos nos grupos de moradores e confirma uma estatística assustadora: mais de um hidrômetro por dia vem sendo arrancado das casas. O item, composto basicamente de cobre e latão, é rapidamente vendido no mercado clandestino de sucata por valores ínfimos diante do estrago causado.
Com o equipamento arrancado, o fornecimento de água é interrompido até a concessionária providenciar a troca, prejudicando tarefas domésticas básicas. Além disso, cada furto gera dor de cabeça extra: registrar ocorrência, levar o boletim à empresa, aguardar a equipe e rezar para não ser alvo novamente. “Fui orientada a erguer uma grade, mas isso tem custo. Quem garante que não voltarão?”, questiona a moradora Maria de Lurdes, que perdeu o hidrômetro duas vezes na mesma semana.
Prejuízo que sai do bolso do morador
De acordo com a Águas Guariroba, primeira reposição do aparelho é feita sem custo após apresentação do boletim de ocorrência; contudo, reincidências em menos de 12 meses podem ser cobradas do proprietário. Na prática, quem já foi vítima duas, três vezes, teme que a próxima troca pese no orçamento familiar.
Casos se multiplicam na mesma rua
Severino Araújo acordou certo dia com a grade de proteção arrancada do muro. O hidrômetro ainda estava lá, mas por pouco tempo: “Deram azar porque prendi com corrente grossa, senão teria ido junto”, conta. A poucos metros dali, vizinhos não tiveram a mesma sorte e acumulam dois furtos consecutivos.
Quatro vezes em 20 dias
O aposentado Roberto Fernandes de Moraes virou espécie de “termômetro” da frequência criminosa na região. Em apenas 20 dias, perdeu quatro hidrômetros. Na segunda ocorrência, ele viu o ladrão em plena ação ao soltar os cães para passear pela manhã. A câmera de segurança de um vizinho registrou tudo: o homem chega a pé, usa chave inglesa, puxa o equipamento e vai embora tranquilamente. “O primeiro sumiu de madrugada; o segundo, horas depois, às 9h. Dá a impressão de que eles monitoram quem já foi roubado”, relata.
Orientação da concessionária para vítimas
A empresa responsável pelo abastecimento mantém média de 421 pedidos de reposição de hidrômetros por mês em Campo Grande, número que tende a crescer com a onda atual. O protocolo é padronizado:
- Registrar boletim de ocorrência assim que perceber o crime;
- Entrar em contato pelos canais de atendimento ou dirigir-se a uma loja da Águas Guariroba com o documento;
- Agendar a instalação do novo hidrômetro, que costuma ocorrer em até 48 horas.
Segundo a concessionária, o boletim impede que o morador seja multado por irregularidade e comprova que o consumo não foi fraudado. Contudo, a empresa reforça que apenas a primeira reposição em 12 meses é gratuita, o que explica a corrida por soluções domésticas de proteção.

Imagem: Internet
Comunidade cobra presença policial
Até o fechamento desta reportagem, a Polícia Militar não informou quais medidas específicas vem adotando para coibir esse tipo de crime na Vila Nha-Nhá. A ausência de patrulhamento visível é apontada pelos moradores como estímulo à repetição das ocorrências. “Quando chamamos a viatura, o suspeito já se foi há horas. É preciso ação preventiva, não só depois”, avalia Rosenilda.
Enquanto esperam resposta das autoridades, vizinhos organizam rondas voluntárias e criam grupos em aplicativos de mensagem para alertar sobre movimentações suspeitas. A associação estuda instalar câmeras comunitárias em pontos estratégicos com ajuda de comerciantes locais, mas o custo alto ainda impede a implantação total. {internal_links}
Possíveis punições
Pelo Código Penal, o furto simples de hidrômetro, por envolver bem público essencial, pode enquadrar-se como crime de dano ao serviço de utilidade pública, cuja pena vai de um a cinco anos de reclusão. Caso haja rompimento de canos ou inundação, a pena pode ser agravada. Mesmo assim, flagrantes são raros, o que evidencia a necessidade de investigação e inteligência policial focadas nos receptadores de peças de cobre.
Medidas de autoproteção ganham força
Com receio de novos prejuízos e cobrança futura, moradores improvisam soluções: grades metálicas soldadas ao chão, caixas de concreto e até alarmes sonoros que disparam quando a tampa do cavalete é retirada. Embora nenhuma barreira seja infalível, essas iniciativas têm retardado a ação dos criminosos, que preferem alvos mais fáceis.
Especialistas em segurança urbana apontam que, além do trabalho ostensivo da polícia, é fundamental atacar a cadeia de receptação. Sucateiros que compram hidrômetros sem nota fiscal alimentam o ciclo e precisam ser fiscalizados. A Prefeitura estuda intensificar vistorias em ferros-velhos, medida que, se efetivada, pode reduzir significativamente o número de furtos.
Impacto social e psicológico
O problema vai além do prejuízo financeiro. A cada hidrômetro arrancado, famílias ficam temporariamente sem água para beber, cozinhar ou tomar banho, afetando qualidade de vida e gerando sensação de vulnerabilidade. Crianças faltam à escola, idosos deixam de tomar remédios corretamente e pequenos comércios perdem clientes — uma cascata de efeitos que interrompe a rotina do bairro.
O que vem pela frente
A comunidade aguarda divulgação de um plano de ação do poder público que envolva policiamento direcionado, fiscalização de ferros-velhos e campanhas de orientação. Até lá, a Vila Nha-Nhá segue convivendo com grades recém-soldadas, vigilância constante e o medo latente de abrir a torneira e não ver água cair.
