Fumaça de incêndios florestais já mata mais que enchentes e ondas de calor e amplia risco de demência, parto prematuro e artrite

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    A fumaça que cobre cidades inteiras durante a temporada de queimadas não se limita a irritar olhos e garganta: ela mata 1,5 milhão de pessoas por ano, número superior ao de óbitos provocados por enchentes, chamas diretas, tempestades e ondas de calor somadas. A estimativa, publicada na revista The Lancet em 2024, escancara a face menos visível dos incêndios florestais, cujo impacto se estende muito além da destruição ambiental.

    Novo conjunto de estudos aponta efeitos ainda mais amplos e duradouros: aumento significativo do risco de demência, complicações na gravidez, partos prematuros, baixo peso ao nascer e agravamento de doenças autoimunes como a artrite reumatoide. As descobertas reforçam que a poluição gerada pelas queimadas precisa ser tratada como emergência sanitária global, não apenas como tragédia ecológica.

    Quando a fumaça mata mais que o fogo

    A mistura lançada na atmosfera pelos incêndios é composta por gases tóxicos – monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis – e por material particulado ultrafino, designado PM2,5. Essas partículas têm diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, passam pelos filtros naturais do sistema respiratório, penetram nos alvéolos pulmonares e alcançam a corrente sanguínea, viajando para coração, cérebro, rins e placenta.

    Os dados consolidados pela Universidade de Exeter, responsáveis pelo estudo na The Lancet, mostram que as mortes relacionadas à inalação prolongada de fumaça cresceram 30% nas últimas três décadas. O agravamento está diretamente ligado ao aumento de eventos climáticos extremos – secas prolongadas, calor recorde e, em 2023/2024, à atuação do Super El Niño.

    Partículas que atravessam o corpo

    Uma vez no sangue, o PM2,5 provoca inflamação sistêmica e estresse oxidativo, condições que favorecem desde crises asmáticas até alterações vasculares e neurodegenerativas. O mecanismo explica por que os efeitos chegam a órgãos aparentemente protegidos, como o cérebro e as articulações.

    Exposição crônica eleva risco de demência

    Na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer de 2024, pesquisadores da Universidade da Califórnia apresentaram o maior acompanhamento já feito sobre poluição de queimadas e deterioração cognitiva. O estudo analisou 1,2 milhão de residentes do estado durante dez anos. Quem viveu em regiões mais frequentemente cobertas pela névoa de incêndios apresentou risco de demência 42% maior em comparação com moradores expostos apenas à poluição veicular ou industrial.

    Os cientistas apontam duas hipóteses principais: a microinflamação crônica gerada pelas partículas finas e a facilidade com que tóxicos atravessam a barreira hematoencefálica, danificando neurônios e favorecendo a deposição de proteínas associadas ao Alzheimer.

    Gestação: poluição pré-natal dobra nos EUA

    A qualidade do ar melhorou nos Estados Unidos nas últimas décadas graças a políticas de controle industrial, mas a proporção de gestantes expostas principalmente à fumaça de incêndios mais que dobrou entre 2003 e 2019. É o que revela análise de 64,5 milhões de gestações publicada no periódico Frontiers in Environmental Health.

    As gestantes que respiraram maiores concentrações de PM2,5 oriundo de queimadas tiveram aumento de até 14% na taxa de partos prematuros e 12% em nascimentos com baixo peso. Essas condições estão ligadas a morbidades neonatais imediatas e a problemas de saúde ao longo da vida, como doenças metabólicas e menor desempenho cognitivo.

    Comunidades mais vulneráveis sofrem o dobro

    Os efeitos não são equivalentes para toda a população. Mulheres de baixa renda, moradoras de áreas rurais, indígenas e nativas do Alasca foram as mais afetadas, em especial nos condados que já enfrentam escassez de serviços obstétricos. A combinação entre exposição prolongada, acesso limitado a cuidados de saúde e restrições socioeconômicas amplia o ciclo de iniquidades.

    Artrite reumatoide: crise inflamatória alimentada pelo ar

    Outra ligação desconcertante vem da reumatologia. Estudo conduzido por centros de pesquisa da Europa e publicado no Annals of the Rheumatic Diseases acompanhou 1.070 pessoas com artrite reumatoide em 12.583 consultas entre 2021 e 2024. Os picos de poluição por PM2,5 coincidiam com piora dos índices de inflamação, dor e incapacidade funcional.

    Nesse grupo, cada aumento de 10 µg/m3 na concentração de partículas finas resultou em 5% mais consultas de emergência por crises articulares. A hipótese é que a resposta inflamatória gerada nos pulmões desencadeie uma cascata imunológica que agrava a doença autoimune.

    Infância sob fumaça: marca biológica de longo prazo

    A vulnerabilidade não termina com o nascimento. Pesquisadores das universidades de Washington em St. Louis e de Princeton descobriram que o estresse tóxico causado pela exposição a eventos traumáticos na infância, como incêndios e evacuações, altera a forma como as células cerebrais empacotam o DNA. O estudo, divulgado em agosto no periódico Neuron, mostra que essa modificação epigenética reduz a capacidade de o organismo modular respostas ao estresse ao longo da vida.

    Crianças submetidas a altos níveis de poluição e tensão psicológica apresentaram maior propensão a ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático na vida adulta. A constatação fornece base biológica para políticas de proteção infantil durante crises ambientais.

    O desafio das próximas temporadas de fogo

    Com o aquecimento global e a tendência de eventos climáticos extremos mais frequentes, pesquisadores alertam que a janela de exposição à poluição de queimadas deve se expandir em várias regiões, inclusive no Pantanal e na Amazônia. Investimentos em monitoramento da qualidade do ar, sistemas de alerta precoce, infraestrutura hospitalar e políticas de redução de desmatamento são considerados essenciais para conter a escalada de danos à saúde pública.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.