O pão de cada dia está mais distante da mesa em Teerã. Com a última ofensiva econômica anunciada por Washington, famílias iranianas relatam que já não conseguem pagar por frutas, proteínas e até leite. Os preços subiram numa velocidade que os salários, corroídos pela desvalorização do rial, não acompanham.
Enquanto o governo iraniano garante ter meios para driblar a “guerra econômica” declarada pelos Estados Unidos, a vida real conta outra história: jornadas de trabalho de 15 horas, compras modestas que beiram 90 milhões de riais (cerca de US$ 65) e cortes drásticos na alimentação infantil. Analistas preveem inflação de quase 70% até dezembro e retração superior a 5% no Produto Interno Bruto.
Alimento vira artigo de luxo
Dados colhidos pela reportagem junto a associações de consumidores mostram que o quilo do arroz — base da dieta local — está 60% mais caro do que no início do conflito. A carne bovina, produto já considerado premium para grande parcela da população, acumula aumento de 150%. O resultado é uma mudança radical no cardápio dos 88 milhões de habitantes, que agora se concentram em carboidratos simples e produtos subsidiados, como a gasolina, praticamente o único item que não encareceu.
“Praticamente desistimos de muita coisa”
O desabafo é de Ahmad Karimi, taxista de 52 anos e pai de dois filhos. Ele trabalha 15 horas por dia, sete dias por semana, para manter a família. “Cortamos frutas, proteínas, lazer e até o tempo de descanso”, resume. Apesar do esforço, a renda que entra em casa equivale hoje à metade do que recebia há um ano.
Em uma rede social, uma mãe do norte do país exibiu uma compra composta apenas de leite, ovos, papel higiênico e itens de limpeza — nenhum pedaço de carne. A nota fiscal registrava 89 milhões de riais, valor inconcebível para boa parte da classe média iraniana, que encolhe a olhos vistos.
Desemprego e renda comprimida
Empresas afetadas pelas sanções dispensaram funcionários ou reduziram salários. Setores intensivos em importação, como farmacêutico e tecnologia, sentem falta de matéria-prima e componentes. Para quem ainda tem emprego, a alternativa passa a ser horas extras exaustivas ou múltiplos bicos, sem garantia de recompor o poder de compra.
Inflação de dois dígitos vira nova normalidade
O Fundo Monetário Internacional projeta inflação de 68% até o fim do ano, índice que dobra o custo de vida em menos de 12 meses. O mesmo relatório aponta retração de 5,2% no PIB, realimentando o círculo vicioso de desemprego, queda na arrecadação do Estado e novos cortes de subsídios.
Trump anuncia “operação econômica mais esmagadora”
Na quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos classificou as sanções como a maior ofensiva econômica já aplicada contra um país. Ele convocou aliados a “isolar” Teerã e prometeu punir nações ou empresas que continuem a fazer negócios com o Irã, sem detalhar quais punições pretende aplicar.
Teerã reage e minimiza impacto
Um dia após o anúncio, o vice-chanceler Abbas Araqchi acusou Washington de usar o tema para desviar atenção dos próprios problemas domésticos. “Os EUA terão apenas mais uma derrota”, afirmou, insistindo que a economia iraniana é resiliente por já ter operado sob restrições severas durante décadas.

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Bloqueio ao petróleo asfixia principal fonte de receita
Desde que as sanções passaram a incluir um bloqueio naval informal, exportar petróleo tornou-se um desafio logístico e diplomático. Carregamentos que antes saíam diariamente do Golfo Pérsico agora precisam de rotas alternativas e compradores dispostos a arriscar punições secundárias dos EUA. O resultado imediato é queda abrupta na entrada de divisas e pressão adicional sobre o câmbio doméstico.
Expertise em driblar restrições, mas a um preço alto
O economista Hadi Kahalzadeh, da Universidade Brandeis, lembra que o Irã desenvolveu uma rede de intermediários para vender petróleo à margem do sistema financeiro ocidental. “Isso evita o colapso completo, mas encarece a operação e limita o volume exportado”, explica. A consequente escassez de dólares interna amplia a inflação e limita a capacidade de importar insumos estratégicos, como medicamentos de alto custo.
Pressão externa, impacto doméstico
A meta declarada de Washington é dobrar o governo iraniano e forçar concessões políticas, mas a estratégia tem efeito direto sobre a população civil. Organizações humanitárias reportam redução na oferta de antibióticos e tratamentos contra doenças crônicas, itens que, embora não estejam formalmente sancionados, chegam ao país por cadeias logísticas agora restritas.
Resiliência social versus desgaste silencioso
Pesquisas internas indicam que, apesar da insatisfação crescente com o custo de vida, poucos veem saída política imediata. “Há um sentimento de resistência, quase orgulho nacional, mas isso não enche a geladeira”, resume um professor de sociologia que pediu anonimato. A expectativa é de que a tensão se mantenha “contida”, mas não sem efeitos profundos sobre qualidade de vida, educação e saúde pública.
O que esperar dos próximos meses
Com a moeda local perdendo valor diariamente, lojistas reajustam preços em questão de horas. Famílias correm para estocar produtos não perecíveis sempre que recebem salário, pressionando ainda mais a cadeia de distribuição. Especialistas avaliam que, na ausência de negociação direta entre Teerã e Washington, o ciclo de aperto econômico deve se intensificar.
Fôlego para resistir, mas não para prosperar
“O país aparenta ter gordura para queimar, seja via produção interna, seja via comércio paralelo. A grande pergunta é a que custo social”, analisa Kahalzadeh. Para o trabalhador comum, a resposta já chegou: menos carne no prato, menos tempo livre e um futuro cada vez mais incerto.
