A dor do luto ainda é fresca, mas a indignação fala mais alto para os parentes de Gersina de Lima Pereira, de 72 anos, atropelada e morta na manhã de sexta-feira (7) enquanto caminhava pela calçada do bairro Fazenda Grande, em Jundiaí (SP). O veículo que a atingiu, um carro roubado, era conduzido por Gabriel Dellafiori Barreto, 18, que fugia da polícia sem habilitação e já tinha mandado de prisão por tráfico de drogas.
Na família, o sentimento é de que a violência urbana interrompeu uma rotina simples — a idosa voltava do mercadinho, a menos de 40 metros de casa, com pão, queijo e mortadela para o café da manhã com o marido. “A vida da minha vozinha não volta, mas não vamos descansar enquanto a justiça não for feita”, desabafa a neta Jaqueline Kimberlyn, 29.
Perseguição começou em Rio Claro e terminou em tragédia
Segundo a Polícia Militar, o carro havia sido roubado horas antes em Rio Claro, a 120 quilômetros de Jundiaí. O alerta emitido pela corporação deu início a uma perseguição pela Rodovia Anhanguera (SP-330). Durante o trajeto, o suspeito desrespeitou bloqueios e sinais de parada, mantendo velocidade elevada até entrar em área urbana de Jundiaí.
Já no bairro Fazenda Grande, o motorista perdeu o controle em uma curva, subiu a calçada e atingiu Gersina. Testemunhas relataram que o impacto arrastou a vítima por cerca de 20 metros. O carro só parou ao colidir com a parede de uma residência, onde o condutor foi detido em flagrante por agentes da PM que acompanhavam a fuga.
Encaminhado à delegacia, Gabriel Barreto teve a prisão em flagrante convertida em preventiva. O Tribunal de Justiça confirmou que, além do atropelamento com morte, pendia contra ele um mandado relacionado ao crime de tráfico de drogas. Ele também responderá por roubo de veículo, direção sem habilitação e homicídio qualificado por dolo eventual.
Rotina interrompida a poucos passos de casa
Durante 20 anos, Gersina repetiu o mesmo trajeto até o pequeno comércio do bairro. Na sexta-feira, a tradição se quebrou em seus momentos finais. “Ela provavelmente só escutou o barulho do pneu derrapando; pela idade, não conseguiu correr”, relata Jaqueline. “Faltava menos de um minuto para ela chegar ao portão.”
Casada havia mais de quatro décadas, mãe de três e avó de nove, Gersina era conhecida pela generosidade e pela fé. Nos últimos anos, dedicou-se a cuidar da própria mãe, acamada e com Alzheimer. Vaidosa, não dispensava reuniões em família nem demonstrações de afeto, lembra a neta: “Nossos abraços vinham sempre acompanhados de um ‘te amo infinitamente’”.
Luto marcado pela esperança de responsabilização
Após o atropelamento, familiares correram ao Hospital São Vicente. Apesar do socorro rápido, os múltiplos traumas foram fatais. O corpo foi sepultado no sábado, em clima de consternação. “Enterrar alguém que sempre cuidou de todos é um vazio que não se explica”, diz Jaqueline.

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Para a família, cada etapa processual é acompanhada de perto. Os parentes temem que o caso se perca entre estatísticas de violência urbana e insistem na manutenção da prisão preventiva até o julgamento. “Queremos que o responsável pague pelo que fez. Minha avó era nosso alicerce”, reforça a neta.
Repercussão no bairro e medidas de segurança
Moradores do Fazenda Grande afirmam que o trecho onde ocorreu o atropelamento não costuma registrar alta velocidade, mas reclamam da falta de barreiras físicas que protejam pedestres. Após o incidente, comerciantes locais articulam um abaixo-assinado para pedir redutores de velocidade e nova sinalização viária na via.
A Prefeitura informou que estuda a instalação de lombadas e a ampliação da iluminação pública. A administração também sinalizou a possibilidade de campanha educativa focada em direção segura, embora o caso envolva circunstância atípica — fuga em alta velocidade após roubo de veículo.
Processo criminal em curso
- Crimes imputados: roubo de veículo, homicídio qualificado por dolo eventual, direção sem habilitação e desobediência.
- Situação processual: prisão preventiva decretada, sem prazo determinado.
- Próximos passos: conclusão do inquérito pela Polícia Civil e encaminhamento ao Ministério Público para denúncia formal.
Advogados especializados em direito penal destacam que a qualificadora de dolo eventual pode levar a pena superior a 12 anos caso a Justiça entenda que o motorista assumiu o risco de matar ao manter a fuga em alta velocidade. A existência de mandado prévio por tráfico é considerada agravante, mas eventuais condenações anteriores também pesarão no cálculo final.
Memória de uma vida de cuidado e fé
Ao revisitar álbuns de família, filhos e netos recordam a vaidade de Gersina, os vestidos floridos e o batom cor-de-rosa que fazia questão de usar até para ir ao mercadinho. “Era a pessoa mais bondosa que conheci”, repete Jaqueline, segurando a última foto tirada pelas duas. Nela, avó e neta trocam sorrisos durante um aniversário familiar.
Embora a ausência seja irreversível, os parentes pretendem transformar o luto em ação: planejam criar um grupo de apoio a vítimas de trânsito em Jundiaí, inspirado na lembrança de solidariedade que a idosa cultivava. “Se tem algo que ela nos ensinou foi a estender a mão ao próximo. Vamos honrar esse legado”, conclui a neta.
