Usuários de bolsas de ostomia da rede municipal de Teresina denunciam que o estoque fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) está no limite há semanas. Sem o insumo adequado, pacientes relatam improvisos arriscados, desconforto diário e temem infecções ou lesões na pele, enquanto a Fundação Municipal de Saúde (FMS) aguarda a entrega de novos lotes pelas empresas contratadas.
A escassez atinge principalmente pessoas que passaram por cirurgias no trato intestinal ou urinário e precisam trocar o dispositivo a cada três dias. Em épocas de calor intenso, no entanto, o prazo cai para menos de 48 h, aumentando a pressão sobre um estoque que já não atende à demanda de, pelo menos, 2 mil piauienses dependentes permanentes do equipamento.
Rotina de risco e material precário
A enfermeira estomaterapeuta Raissa Matias explica que a bolsa colada ao abdômen coleta fezes ou urina e deve ser substituída antes que o adesivo perca a aderência. “Quando o paciente precisa improvisar, o risco de vazamento e dermatite cresce. Depois, gastamos mais pomadas, curativos e tempo para tratar aquela pele”, relata.
Além da falta, quem consegue retirar o produto nos postos se queixa da qualidade. O aposentado Jonathas Sousa, 41 anos, sente o impacto no orçamento e na autoestima: “Não tem pasta, não tem adesivo, a bolsa não segura. A gente fica triste e cada vez mais enfraquecido”. Ele vive com ostomia há cinco anos e depende integralmente do SUS para receber todos os insumos mensais.
Calendário de troca inviável
- Troca recomendada: a cada três dias.
- Período de maior calor: adesivo perde a fixação em menos de dois dias.
- Consequência: maior risco de vazamentos, infecções cutâneas e internações.
Por que o fornecimento parou?
De acordo com a FMS, a compra anual dos materiais segue rito de licitação pública. O certame de 2026 já foi concluído, com notas de empenho emitidas, mas as empresas vencedoras ainda não enviaram as remessas. A autarquia diz que o contrato prevê análise de conformidade antes da distribuição para a farmácia municipal, etapa indispensável para checar se o lote atende às especificações técnicas detalhadas no edital.
Avaliação de qualidade em andamento
Pressionada por queixas sobre defeitos no adesivo e durabilidade inferior ao prometido, a equipe responsável iniciou um levantamento junto aos usuários. Os resultados, afirma a FMS, serão encaminhados à diretoria para “adoção das medidas cabíveis”. Caso o laudo confirme problemas de fabricação, o município poderá multar ou substituir o fornecedor, o que, na prática, costuma prolongar ainda mais o intervalo sem reposição.
Impacto social e emocional
O equipamento é decisivo para a autonomia de quem vive com estomia. Sem a bolsa correta, tarefas banais — trabalhar, estudar, sair de casa — tornam-se desafios logísticos e, muitas vezes, constrangedores. Vazamentos em locais públicos provocam odores e manchas visíveis na roupa, comprometendo a autoestima e a vida social do paciente.
Jonathas, por exemplo, evita ficar fora de casa mais de duas horas. “Levo sacolas, toalha, fita, tudo para tentar controlar se der problema. Mas não é a mesma coisa.” A situação dele reflete a de centenas de usuários que reduziram jornadas de trabalho ou abandonaram atividades por receio de acidentes.

Imagem: Internet
O que diz a Fundação Municipal de Saúde
Em nota oficial, a FMS assegura que “acompanha o fornecimento e a qualidade dos materiais” e trabalha para restabelecer a distribuição regular. O órgão não informou prazos, mas garantiu que, assim que as empresas entregarem os lotes, as bolsas e acessórios serão encaminhados à farmácia municipal.
A autarquia reforçou ainda que cada etapa do processo — licitação, inspeção de qualidade e logística — segue exigências legais, visando transparência e segurança no uso dos dispositivos.
Etapas do processo de aquisição
- Lançamento do edital com especificações técnicas.
- Disputa pública e definição da empresa vencedora.
- Emissão das notas de empenho e assinatura do contrato.
- Entrega dos lotes, avaliação de conformidade e testes amostrais.
- Distribuição para farmácias municipais e centros de saúde.
Esperança e incerteza
Enquanto a burocracia não se resolve, pacientes seguem contabilizando cada bolsa disponível. Muitos recorrem a redes de doação ou grupos de apoio para dividir unidades extras. “Se um colega opera e volta a usar o intestino, ele doa o material que sobrou. Essa solidariedade tem salvado muita gente”, comenta Raissa Matias.
A enfermeira alerta que soluções improvisadas não substituem políticas públicas eficientes. “Ostomizados não podem ser lembrados só quando falta material. É preciso planejamento para garantir quantidade, qualidade e orientação continuada”.
Próximos passos
A Secretaria Municipal de Saúde não descarta a possibilidade de acionar judicialmente as fornecedoras por descumprimento de contrato, caso o atraso persista. Já entidades de pacientes estudam formalizar denúncia no Ministério Público Estadual. O objetivo é pressionar por um cronograma claro de entrega e por critérios mais rígidos de seleção dos produtos.
Como a população pode ajudar
- Doando bolsas novas, ainda lacradas, para associações de ostomizados.
- Divulgando canais de apoio e informação confiável nas redes sociais.
- Registrando oficialmente queixas na Ouvidoria do SUS, fortalecendo a base de dados.
Enquanto o impasse não se resolve, cada unidade de bolsa passou a ser um item de alto valor para quem depende dela para manter a rotina e a dignidade. A expectativa dos pacientes é que a nova remessa chegue às prateleiras da farmácia municipal nas próximas semanas, antes que as complicações clínicas ultrapassem os limites da exaustão emocional.
