Ex-paciente relata tortura e impulsiona investigação contra clínica psiquiátrica em Alfenas

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    “Joguei a comida no chão, misturada a fezes, e mandaram comer.” O depoimento de um ex-interno deu novo fôlego à investigação que colocou sob cerco a clínica neuropsiquiátrica de Alfenas (MG). Alvo de operação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o estabelecimento já ostenta um histórico de acusações de maus-tratos, cárcere privado e até estupro de adolescentes.

    Na ação mais recente, promotores encontraram sete homens confinados em ambientes fétidos, sem ventilação e com sinais de subnutrição. As cenas reforçaram denúncias antigas e levaram à prisão – ainda que temporária – do médico proprietário, Bahjat Mohamed Ahmed Ali Hammad, solto poucas horas depois por decisão judicial.

    Operação escancara rotina de violência

    Confinamento em condições degradantes

    Deflagrada nesta semana, a ofensiva do MPMG teve apoio de policiais civis e conselheiros tutelares. Ao arrombar portas trancadas por cadeados, a equipe encontrou homens de 27 a 48 anos sentados no chão coberto de dejetos. Segundo o laudo preliminar, eles exibiam escoriações, perda de peso acentuada e sintomas de abstinência, indícios de que estavam privados de medicação adequada e de assistência mínima.

    Os investigadores também recolheram prontuários rasurados, roupas ensanguentadas e seringas sem procedência. Para o Ministério Público, o material sustenta suspeitas de três crimes principais: maus-tratos, sequestro e cárcere privado.

    Relatos de agressões diárias

    Os ex-pacientes descrevem um regime de repressão física: tapas, socos e chutes aplicados por funcionários quando alguém recusava comida ou questionava regras. “Me jogaram nu num quarto escuro; enquanto um batia no meu rosto, outro chutava minhas costas”, conta um dos sobreviventes, que diz ter passado a noite sobre piso molhado e gelado. A mesma testemunha afirma ter sido obrigada a se alimentar do chão, onde havia fezes humanas.

    Acusações de estupro contra adolescentes

    Conselho Tutelar aciona MP

    Em março, uma denúncia anônima chegou ao Conselho Tutelar de Alfenas relatando que dois adolescentes teriam sido violentados sexualmente por um adulto internado na clínica. Um dos jovens foi prontamente retirado; o outro continua no local. “Ele me abraçou ontem e pediu ajuda. Disse que ali é só sofrimento”, relata a conselheira Valéria Aparecida da Silva. A Polícia Civil já abriu inquérito para apurar crime de estupro e possível conivência da administração.

    Adolescentes e adultos dividem espaço

    Atualmente, o estabelecimento abriga 24 menores convivendo com dependentes químicos e pacientes com transtornos psiquiátricos. Segundo autoridades, todos recebem o mesmo “tratamento”: sedação frequente, isolamento e contenção física, contrariando normas sanitárias e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

    Histórico de denúncias ignoradas

    Acusações desde 2008

    Reportagem veiculada pela EPTV em 2008 já apontava superlotação, falta de profissionais e suspeita de violência na mesma clínica. À época, o Ministério Público instaurou procedimento, mas o caso foi arquivado após promessas de adequação.

    Morte de adolescente em 2024

    Em fevereiro deste ano, a família de um jovem de 15 anos acusou a instituição de negligência após o garoto morrer durante internação. Parentes afirmam que não puderam visitar as instalações antes da assinatura do contrato de R$ 4 mil mensais. A avó do adolescente, Marli Martins da Silva, afirma ter iniciado tratamento psicológico depois da perda. “Foi um baque. Quando vi as imagens agora, revivi tudo”, disse.

    Resposta das autoridades

    Gabinete de crise instalado

    Diante da repercussão, o MPMG, a Prefeitura de Alfenas e a Secretaria de Estado de Saúde montaram um comitê emergencial para traçar o destino dos internos. O grupo articula vagas em hospitais regionais e avalia a reabilitação social de quem possui família disposta a assumir cuidados.

    Transferências em andamento

    Até o momento, pacientes em estado grave foram encaminhados ao Hospital Alzira Velano, em Alfenas, e depois redistribuídos para Passa Quatro e Barbacena. O transporte ficou a cargo das prefeituras de origem dos internos, que agora acompanham a evolução clínica de cada um.

    Prisão e soltura do proprietário

    O médico Bahjat Hammad, responsável técnico e administrador, foi preso em flagrante por manutenção de local insalubre e risco iminente à vida. Contudo, recebeu alvará de soltura no mesmo dia, após prestar depoimento. A defesa sustenta que as fotos “não refletem a rotina” e promete apresentar laudos que comprovariam investimentos recentes.

    Para o promotor Jairo Campos, a liberdade provisória não afeta a ação penal. “A materialidade está documentada. Seguiremos na coleta de provas e no pedido de responsabilização civil e criminal”, declarou.

    Situação atual dos internos

    Mais de uma centena permanece no prédio

    Segundo o gabinete de crise, 121 pessoas entre 30 e 45 anos ainda ocupam alas da clínica, controladas agora por servidores da saúde municipal. Eles aguardam avaliação médica para definir se serão transferidos ou receberão alta progressiva.

    Ex-pacientes cobram justiça

    “Espero que feche de vez e quem sofreu ali seja indenizado”, diz um ex-interno que pagava mensalidade de R$ 4 mil. Ele relata ausência de chuveiros funcionando, lençóis limpos e alimentação adequada. “Você paga por cuidado, recebe tortura.”

    Próximos passos da investigação

    A Polícia Civil analisa depoimentos, laudos periciais e registros contábeis da empresa. O MPMG pretende denunciar o médico e funcionários por tortura, cárcere privado, lesão corporal e crime sexual. Caso condenados, as penas podem ultrapassar 20 anos de prisão.

    Enquanto isso, o conselho regional de medicina avalia abrir processo ético contra o proprietário, medida que pode levar à cassação do registro profissional. A Secretaria de Saúde de Minas Gerais prepara vistoria em outras unidades particulares da região, temendo que o caso de Alfenas revele um padrão silencioso de abusos em clínicas de reabilitação.

    A ferida exposta pela fala de quem viveu dias de terror entre paredes trancadas agora pressiona autoridades e sociedade a repensar o modelo de internação compulsória e o controle sobre instituições privadas de saúde mental no interior do país.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.