O empresário do mercado financeiro Ivo Kos, 48 anos, foi preso em flagrante na madrugada de sábado (15) depois de ser filmado agredindo a esposa, a dentista Giullia Falcão Kos, em uma rua de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. A vítima afirma que levou socos, tapas, chutes e golpes com um taco de beisebol e que o marido ainda tentou usar um taser. “Ele queria me matar”, relatou.
As imagens de segurança mostram o momento em que o carro do casal estaciona diante da residência. Giullia desce, tenta se afastar e, logo em seguida, é alcançada por Ivo, que lhe acerta um soco no rosto. Ela cai de costas na calçada enquanto o agressor continua próximo. Vizinhos chamaram a Polícia Militar, que prendeu o empresário por lesão corporal, ameaça e violência doméstica.
Noite de pânico começou dentro do carro
Segundo o depoimento prestado à Delegacia de Defesa da Mulher, as agressões começaram ainda na volta de um jantar. Dentro do veículo, Ivo teria desferido tapas e socos na esposa. Giullia contou que tentou se proteger com chutes e segurou o braço que empunhava o dispositivo de choque. “Ele pressionava o gatilho do taser, mas não chegou a encostar”, disse.
Quando o automóvel chegou à rua de casa, Giullia aproveitou uma parada brusca para sair correndo. A câmera do sistema de vigilância de um vizinho captou a sequência seguinte: a dentista tenta manter distância, mas o empresário fecha o caminho e golpeia o rosto dela com força suficiente para derrubá-la. Na queda, ela fratura um dedo ao amparar o impacto do taco de beisebol usado pelo agressor.
Marcas e laudo pericial
Exame de corpo de delito realizado no Instituto Médico-Legal apontou hematomas extensos nos braços, rosto, costas e mãos, além da fratura relatada. A perícia coletou as gravações das câmeras externas e internas do imóvel, que passaram a integrar o inquérito.
Prisão em flagrante e rumos do processo
Detido em flagrante, Ivo Kos passou a noite no 91º DP e, no domingo, foi submetido a audiência de custódia no Fórum Criminal da Barra Funda. A Justiça converteu a prisão em preventiva, entendendo que havia risco à integridade da vítima caso ele fosse liberado. O empresário pode responder a penas que, somadas, chegam a mais de cinco anos de reclusão.
Versão do acusado
No boletim de ocorrência, o gestor financeiro alegou que foi provocado. Disse que a mulher teria saído do carro, sentado na calçada e começado a gritar e chutá-lo. Reconheceu ter acertado um soco no rosto dela, mas negou ameaças de morte, o uso do taser e qualquer golpe com taco de beisebol. A defesa informou, em nota sucinta, que não comentará o caso “por respeito às famílias” até ter acesso completo aos autos.
Vítima impedida de voltar para casa
Na tarde após a agressão, quando Giullia tentou buscar roupas e documentos, encontrou as fechaduras já trocadas. Relatou à polícia que o marido a proibiu de retirar inclusive o próprio automóvel. Atualmente, a dentista se recupera na casa dos pais e recebe acompanhamento psicológico. “Ele sempre foi explosivo, mas nunca a esse ponto. Desta vez ele tentou me matar”, declarou.
Quem é Ivo Kos
Figura conhecida no circuito financeiro da Avenida Faria Lima, Kos é sócio-fundador da securitizadora Virgo, especializada em operações de crédito estruturado. A companhia enfrentou, no ano passado, um processo administrativo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por uso indevido de recursos de fundos de reserva ligados a certificados de recebíveis. O caso ainda tramita na autarquia.

Imagem: Internet
Reações no mercado
Executivos que mantêm negócios com a Virgo preferiram não se manifestar publicamente, mas fontes do setor dizem temer que o episódio atinja a reputação da empresa. Consultada, a Virgo afirmou que o caso é “de foro pessoal” e não interfere em suas atividades.
Violência doméstica em números
Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo apontam que, somente no primeiro semestre deste ano, 38 mil mulheres registraram boletim de ocorrência por agressão no estado. No mesmo período, quase 17 mil pedidos de medidas protetivas foram concedidos. Especialistas lembram que a subnotificação continua alta: o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que até 60 % das vítimas não procuram a polícia.
Rede de apoio
Organizações que atuam no enfrentamento à violência de gênero reforçam que as vítimas podem ligar para o 190 em situação de emergência e, após registrar ocorrência, solicitar medida protetiva imediata com base na Lei Maria da Penha. O Ligue 180, canal do Ministério das Mulheres, também presta orientação 24 horas.
Próximos passos do inquérito
A Delegacia de Defesa da Mulher tem 30 dias para concluir o relatório, prazo que pode ser prorrogado se surgirem novas provas. Policiais aguardam laudos adicionais, como a perícia no taco de beisebol e no taser apreendidos na residência. Testemunhas, incluindo vizinhos que chamaram a PM, serão ouvidas nos próximos dias.
Possibilidade de acordo é remota
Especialistas em direito penal explicam que crimes de violência doméstica de natureza grave, como lesão corporal, não podem ser encerrados por acordo entre as partes. Mesmo que Giullia retirasse a queixa, o Ministério Público teria obrigação de prosseguir com a ação penal, já que o processo se fundamenta em interesse público de proteção à vida e integridade da vítima.
Impacto pessoal e profissional
Giullia, que mantém consultório na região da Avenida Paulista, cancelou toda a agenda da semana e afirma que só voltará a trabalhar quando estiver segura. Ela estuda ingressar com pedido de divórcio e indenização por danos morais. “Quero justiça para que nenhuma outra mulher passe por isso”, concluiu.
