A largada oficial da campanha para as eleições de 4 de outubro foi dada neste domingo (16) e, junto com os primeiros pedidos de voto, candidatos de todos os espectros políticos miraram um alvo comum: a chamada Classe C. Segundo o Instituto Locomotiva, esse estrato reúne mais da metade dos quase 160 milhões de brasileiros aptos a votar e reúne famílias com renda per capita entre R$ 610 e R$ 1.250 mensais. O presidente do instituto, Renato Meirelles, lembra que se trata de um grupo numeroso, heterogêneo e, sobretudo, pragmático na hora de decidir o rumo do país.
O tema está no centro do episódio mais recente do podcast “O Assunto”. Em conversa com o apresentador Victor Boyadjian, Meirelles – autor de “Brasil da Maioria” e fundador do Data Favela – traça o retrato de um eleitor que avalia propostas de forma prática, valoriza oportunidade de trabalho e reage menos a slogans ideológicos. Conhecer esse comportamento, afirma o especialista, será decisivo para quem pretende chegar ao segundo turno em outubro.
Quem é a Classe C, segundo o Instituto Locomotiva
Ao longo de 25 anos de pesquisas, Meirelles identificou que a Classe C não pode ser descrita apenas pelo contracheque. Além da renda familiar per capita entre R$ 610 e R$ 1.250, o grupo costuma ter acesso a bens de consumo básicos, depende majoritariamente de serviços públicos e sonha com ascensão social sustentada. Cerca de 90 milhões de brasileiros se encaixam nessa definição, espalhados por todas as regiões e majoritariamente em centros urbanos de porte médio e grande.
Mesmo numerosa, a classe é diversa. Concentra trabalhadores formais, autônomos, microempreendedores e informais, o que confere diferentes percepções sobre temas como impostos, crédito e programas sociais. Em comum, estão a busca por estabilidade econômica e o desejo de ampliar o patrimônio – objetivos que, para Meirelles, explicam a rejeição a promessas consideradas inviáveis e o interesse por planos que mostrem “como” chegar ao resultado.
Pragmatismo eleitoral e relação com o Estado
O comportamento pragmático aparece, primeiro, na relação com o Estado. O eleitor da Classe C costuma defender que o governo garanta saúde, educação e segurança, mas rejeita interferência excessiva na vida privada. Não há, segundo as pesquisas, grande apego a conceitos como “direita” ou “esquerda”; o critério central é se a política pública melhora a rotina da família. Isso faz com que parte relevante do grupo alterne voto entre partidos de eleição para eleição, premiando quem entrega resultados tangíveis.
“Se o filho entrou na universidade ou o posto de saúde ficou mais eficiente, esse ganho pesa muito mais que qualquer narrativa ideológica”, resume Meirelles no podcast. Para os candidatos, a consequência é clara: apresentar dados, prazos e mecanismos de execução pode ser mais eficaz que discursos genéricos. A visão pragmática também explica por que boa parte decide o voto nas últimas semanas, quando sente quem de fato tem chance de cumprir o prometido.
Mercado de trabalho e empreendedorismo
A pesquisa mostra outra faceta importante: o apreço pelo empreendedorismo. Uma fatia significativa da Classe C complementa renda com atividades autônomas ou sonha abrir o próprio negócio. Benefícios como crédito acessível, capacitação e redução da burocracia ganham força no debate eleitoral. Políticos que conversam com essa realidade, oferecendo soluções concretas para o dia a dia do pequeno empreendedor, tendem a colher apoio maior.
Valores culturais, religiosos e redes de influência
Embora flexível no campo econômico, a Classe C demonstra valores culturais e religiosos bem definidos. O instituto aponta alta presença de evangélicos, católicos praticantes e frequentadores assíduos de igrejas, espaços que funcionam como polos de informação e formadores de opinião. O eleitor considera a palavra do líder religioso, mas não vota unicamente por orientação pastoral; ele cruza esse conselho com suas próprias necessidades materiais.
Diante disso, campanhas que toquem em temas sensíveis – costumes, família, segurança – precisam equilibrar respeito às convicções com propostas factíveis. Narrativas agressivas ou desconectadas do cotidiano tendem a ser descartadas rapidamente.

Imagem: Internet
Quem se comunica melhor com a maioria
O levantamento do Instituto Locomotiva indica que políticos capazes de traduzir agenda econômica em exemplos práticos, empregando linguagem simples e direta, são aqueles que melhor dialogam com o grupo. Vídeos curtos em redes sociais, visitas a bairros populosos, conversas em feiras ou igrejas e presença constante nos meios regionais de comunicação fazem diferença.
Meirelles ressalta que, apesar de a internet ser importante, a televisão aberta ainda exerce forte influência sobre a Classe C, sobretudo nas noites de jornal nacional e em programas de variedades. Por isso, o tempo de propaganda eleitoral gratuita permanece disputado e valorizado pelos partidos.
Decisão de última hora
Levantamentos recentes citados no podcast revelam que cerca de 20 % dos eleitores deixam a escolha para a semana final – grupo composto em grande parte por cidadãos da Classe C. Eles acompanham debates, comparações de planos e indicadores de desempenho econômico na reta final antes de fechar a decisão.
Impacto na atual campanha
Com a abertura oficial da corrida, a atenção dos estrategistas está voltada a propostas que dialoguem com renda, emprego e serviços essenciais. O cenário econômico – inflação, geração de vagas e acesso a crédito – será monitorado dia a dia, já que afeta diretamente o humor do eleitor médio da Classe C. Qualquer melhora perceptível pode beneficiar o governo, enquanto tropeços na área econômica ou casos de corrupção podem impulsionar adversários.
Os números dimensionam o desafio: dos quase 160 milhões de eleitores registrados no país, mais de 556 mil urnas eletrônicas serão instaladas para receber o voto dessa parcela majoritária. Quem pretender governar a partir de janeiro terá de convencer, antes de tudo, essa fatia pragmática, exigente e atenta à realidade de seu bolso.
Podcast amplia o debate
Lançado em 2019, “O Assunto” ultrapassa 168 milhões de downloads nas plataformas de áudio e soma mais de 14,2 milhões de visualizações no YouTube. A relevância dos números ajuda a explicar por que o programa escolheu abrir a temporada eleitoral discutindo o voto da Classe C. Produzido por uma equipe que inclui Luiz Felipe Silva, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stéphanie Nascimento e Marco Antônio Martins, o episódio oferece pistas valiosas a partidos e eleitores sobre os caminhos prováveis da disputa que está apenas começando.
Para Renato Meirelles, compreender a maioria significa, em última instância, compreender o próprio país. E, a cada eleição, a Classe C reafirma seu papel de fiel da balança: escolhe quem apresenta, de forma clara, as soluções mais concretas para melhorar a vida real das famílias brasileiras.